18 abril 2013

Era tempo de caju.

Tempo de Caju
texto: Socorro Acioli
ilustrações: Maurício Negro
editora: Positivo


Estou adiando trazer esse livro aqui por um motivo ridiculamente comum para mim: o considero tão especial que fico esperando uma inspiração que faça jus a sua importância. Ridículo, eu sei... o perfeito é inimigo do bom, já dizem por aí. Mas hoje uma amiga me pediu a indicação de uma lenda indígena para transformá-la numa contação de história, e nada me pareceu mais apropriado do que Tempo de Caju. Dada a proximidade do dia do índio, achei que era o momento certo de trazê-lo ao Cachinhos.

A história de Porã e seu povo é uma das mais bonitas que já li, e a habilidade de Socorro Acioli, cearense como eu, ao recontá-la de forma tão encantadora e sensível é incontestável! Porã é um curumim que ama caju, assim como seu povo, e como boa parte dos cearenses. O Ceará é o maior produtor nacional de caju, e dele faz a cajuína, o refrigerante de caju, os doces (amo o em calda e a rapadura de caju), e até carne vegetariana. O cajueiro dá sombra boa e seus galhos guardam alegres lembranças de infância.

Mas para usufruir de todas da vantagens do caju, é preciso paciência: “os cajueiros passam quase um ano dormindo, sem dar fruto pra ninguém”. Caju é fruto de época, e que época feliz!!! Seus frutos maduros colorem todo o horizonte do sertão, adoçam a boca dos meninos e colocam nódoas em suas roupas. Por isso, quando se quer fazer referência a algo bom mas raro, o cearense diz que só acontece “de caju em caju”. E na tribo de Porã, os índios costumavam contar seus anos de vidas pelas safras de caju que já tinham vivido. Assim, “quando o último caju era colhido, cada índio escolhia uma castanha bem bonita e guardava em uma cabaça secreta, que eles enfeitavam e escondiam como um tesouro. Para cada castanha guardada, mais um ano de vida se contava”.


Quando a tribo de Porã teve que fugir de um povo inimigo, ele guardava, além da sua cabaça - com sete castanhas - a cabaça de seu avô - o sábio Tamandaré, com as 70 castanhas que ele tinha antes de morrer. A história de Porã é uma história de tradição, de amor e dedicação ao seu povo, e de muita coragem. Seu final surpreendente nos traz a doçura da fé nas próprias raízes, naquilo que conhecemos, que acreditamos por nos ter sido passado com amor. Coisas que os índios entendem bem, e que nós, os “civilizados” cada dia esquecemos mais, nos afastamos mais...

Amanhã comemoramos o dia do índio, e fico pensando se estamos preparados para valorizar toda a riqueza cultural, todo respeito pela natureza - inclusive a própria natureza - todo conhecimento acumulado em centenas de gerações que os índios têm. Mas sei que por mais um ano, nos colocaremos em nossas posições de "civilizados",  pintaremos o rosto das crianças e repetiremos que é o dia do índio. Ora, mas antes de nós, todo dia era dia de índio!!!


PS: gostaria ainda de fazer referência às belíssimas ilustrações de Maurício Negro, que tornou a história de Porã ainda mais cativante. Queria também destacar que Tempo de Caju é um dos livros que me explicitam como o setor editorial de nosso país pode ser injusto. Seu texto e ilustrações definitivamente não condizem com a baixa qualidade da sua edição. Todos os dias vemos lindas encadernações, de conteúdo vazio, serem descarregadas em grandes livrarias, e não consigo entender como Tempo de Caju não ganhou o lugar de destaque que merece...

04 abril 2013

A arte de ser diferente - ou os desafios de ser uma menina esquisita!

Lilás
textos: Mary E. Whitcomb
ilustrações: Tara Calahan King
editora: Cosac Naify

Quando ainda não era mãe, sonhava e imaginava o tipo de mãe que eu seria. Mentira, naquela época eu achava que mãe era tudo meio igual mesmo, e só pensava que seria assim, uma "mãe padrão". Bom, não estava de todo errada, mãe é tudo meio igual mesmo, mas logo descobri que algumas coisas nos diferenciam. E logo depois descobri que não, não seria uma "mãe padrão". Não é nada demais, nada que diga que sou uma mãe melhor ou pior do que qualquer outra. É só que eu não consigo parar de pensar, de analisar, de criticar, de questionar. As vezes me vejo como a Mafalda da maternidade.

Porque, como em tudo nesse mundo de meodeus, na maternidade também há conformados com a ordem social, reproduzindo e reproduzindo o quadro que conhecemos - e convenhamos, o que pode ser mais eficiente para reproduzir uma ordem social do que a maternidade? E há os inconformados, ou pelo menos os não conformados com tudo, que questionam, buscam, discutem e têm a coragem de tentar fazer diferente. E há também os filhos dos inconformados (ou pelos menos não conformados com tudo), que... são diferentes. Ou esquisitos, como queira.

Essa não é a única classe de diferentes, claro. Algumas crianças são diferentes simplesmente porque são assim, mesmo tendo "pais padrão". Mas os filhos dos inconformados (ou pelo menos...) não têm muita escolha, mais cedo ou mais tarde alguma "esquisitice" sua irá saltar aos olhos. E é claro que como mãe inconformada (você já sabe o resto...) essas questões me preocupam. Porque, diferente de boa parte dos seus coleguinhas, minha filha não se entupiu de chocolate na páscoa, não usa maquiagem, nem esmalte, nem salto alto, não frequenta fast foods, não tem festas padronizadas, não assiste programas de qualidade duvidosa na TV, nem come na cantina (de qualidade duvidosa) da escola. E é claro que não seguir a manada tem seus ônus e seus bônus.

Ser diferente na infância pode não ser das experiências mais legais, e geralmente o que as crianças querem é "sumir na multidão". Por outro lado, ter acesso a oportunidades exclusivas pode ser das experiências mais legais. Estava pensando sobre isso recentemente, num momento em que estou questionando algumas questões da nova escola e às vezes recebendo olhares de A mãe diferente (ou esquisita, como queira), e minha filha tem manifestado a necessidade de, vez ou outra, simplesmente seguir a manada. E foi então que Lilás veio na mochila da filhota, direto da ciranda da biblioteca. Embora sua capa me seja absolutamente conhecida, nunca o tinha lido, e ele foi uma grata surpresa.

Porque Lilás é uma menina diferente, que presenteia a professora com coisas feitas por ela mesma (ao invés de compradas), come cenouras e outros legumes no lanche e não usa roupa nova simplesmente porque é o primeiro dia de aula. Lilás tem um nome esquisito, coleciona pedras e no seu aniversário, ao invés de contratar mágicos e palhaços, seus pais transformaram seu quarto num castelo medieval! No começo, nenhum dos seus colegas queria ser visto com uma pessoa tão diferente. Mas com o tempo, descobriram que ser diferentes pode ser muito legal, e no último dia de aula, a professora não ganhou nenhum presente comprado. Porque Lilás é diferente. Mas talvez ela não seja TÃO diferente assim.

Confesso, a identificação foi imediata. Acho que Lilás é filha de inconformados, e ela tem se saído muito bem como uma menina diferente. Assim como minha menina, que tem mais livros que brinquedos, não come industrializados no lanche e curte mais inventar arte com uma caixa de leite que brincar com barbies. Mas... tem feito sucesso na escola levando seus livros para serem lidos na sala, sempre recebe pedidos de um pedacinho dos muffins salgados que mamãe faz para ela e adora dividir com os colegas as artes malucas - e nem sempre esteticamente "aceitáveis" - que fazemos juntas.

Além disso, tem descoberto que temos todos nossas esquisitices, e que talvez ser diferente seja algo que nos assemelha mais que nos distancia. Lilás acalmou meu coração, e me lembrou que valorizar o que nos distingue é uma lição importante a ser aprendida na infância.

21 março 2013

Tudo tem seu tempo...

Max
textos e ilustrações: Bob Graham
tradução: Monica Stahel
editora: Martins Fontes


2013 tem trazido muitas mudanças aqui em casa, principalmente para a minha filhota. A primeira grande mudança foi a ida para uma escola nova – uma escola grande, com todas as vantagens e desvantagens envolvidas. Tem piscina e aula de natação, parques grandes, quadra, e muito espaço. Também tem salas cheias e funcionário que não têm muito tempo para tratar o individual. Depois de cinco anos em uma pequena escola de educação infantil, com salas de no máximo 10 alunos (a maior que ela teve tinha 9 alunos), onde todo mundo se conhecia pelo nome, foi um baque grande para ela (e suspeito, maior ainda para mim).

Mas uma das coisas que mais gostei na nova escola foi da Biblioteca. Uma biblioteca grande, com muitas estantes de livros, mesas, cadeiras e espaço para interação. Além disso, é programada, uma vez por semana, uma ida à biblioteca, onde as crianças leem, ouvem leituras e as comentam. Cada criança tem uma carteirinha, a data da devolução do livro fica marcada na fichinha presa à ele e eles podem pegar os livros quando quiserem (desde que não tenham débitos, claro). Eu que fui uma rata da biblioteca da minha escola, fico muito empolgada com isso!!!

O livro da semana passada, em especial, me chamou atenção - aliás, chamou muita atenção da filha também, que ficou super eufórica com ele. Max é um superbebê, filho dos super-heróis Capitão Relâmpago e Madame Raio, que mora numa casa amarela em forma de raio. Max é um garoto muito esperto e amado, mas ele tem um problema: não sabe voar como os outros superbebês! “Todos faziam o menino pular, saltar e o lançavam ao vento, como uma pena... mas Max não voava. Devagarinho ele flutuava de volta para o chão.” Seu pai queria que ele brincasse com o passarinho, mas Max preferia brincar com o cachorro.  O avô lembrava que na idade de Max já deixava marcas das mãozinhas no lustre da sala. Na escola, Max não era um super-herói voador, ele era um menino comum, de capa e máscara...

Mas um dia, algo inusitado ocorreu! Uma catástrofe estava prestes a acontecer, e Max reage... voando. Pronto, Max agora sabe voar. Mas ele continua sendo um menino comum. Bem, não muito comum. Como diz seu amigo Abrão: “Todo mundo é diferente em alguma coisa, não é mesmo?” Max é um pequeno herói capaz de proezas silenciosas, e que não gosta que sua mãe o abrace em público.

Max me fez lembrar de uma conversa que tive com a filha há algumas semanas, quando seu segundo dente amoleceu. Com o primeiro, eu tentei convencê-la a arrancá-lo, mas ela preferiu esperar que ele caísse sozinho. Agoniada (como uma boa nordestina) com seu segundo dente mole, que aliás está molíssimo, tentei convencê-la a arrancá-lo. Ela se negou e argumentou assim: "Mamãe, todos os dentes têm sua hora de cair. E eu quero que meu dente caia na hora DELE".

Mais uma lição (re)aprendida com minha pequena. Tudo tem mesmo sua hora. Como os superbebês, que têm a hora certa de aprender a voar, e os dentes, que têm a hora certa de cair. Só queria entender porque insistimos tanto em acelerar os processos, e querer que o que não está em sua hora aconteça. Pffff!!! Às vezes fico cansada disso!

Continuo num processo de recomeço, esperando que os posts aconteçam no tempo DELES! rsrs

23 fevereiro 2013

Para todo dia...

Um livro para todos os dias
texto: Isabel Minhós Martins
ilustrações: Bernardo Carvalho
editora: Planeta Tangerina

Como dizia no final do último post (e lá se vão mais de 20 dias), o começo de 2013 foi bem estranho. E sobrecarregado. Mas não necessariamente ruim - o que não o deixa menos estranho. E daí que eu acabei sumindo daqui, às vezes por falta de tempo, às vezes por falta de saco e às vezes por falta de inspiração. Mau de todo blogueiro, eu acho... Foram tantas coisas nestes 53 dias, incluindo doença de marido, planejamento a jato de uma viagem marcada na loucura, muuuuito trabalho, escola nova da filha, 15 dias viajando no frio, filha doente, eu doente e mais trabalho. Ufa! Esse pobre bloguinho acabou mesmo esquecido...

Mas estou retornando minha atividades normais, porque adoro escrever aqui, adoro falar sobre livros infantis, e porque a vida é assim mesmo, cheia de idas e vindas, de momentos bons e outros nem tanto, e de sacos e inspirações que vão e voltam. Agora estou tão cansada, minha casa mantem um ar meio caótico em meio a roupas de frio e botas que preciso devolver aos donos, coisinhas adquiridas durante a viagem que precisam encontrar seu lugar e outras coisas que não sei exatamente porque estão nesse bolo... afffff Aliás, minha casa ainda está com "cara de 2012", já que ainda não fiz o famoso faxinão de início de ano (onde jogo tranqueiras fora e arrumo papéis, contas, documentos, etc). E estou cheia de pendências para resolver, enquanto confiro a temperatura da filha a cada hora...

Mas também tenho fotos deliciosas para separar, lembranças doces e saudades suaves da nossa viagem. Também há as novidades de uma filha que perdeu seu primeiro dente de leite e agora é aluna do Ensino Fundamental, numa escola nova e grande, com direito a estréias como aula de inglês e natação. Ah, e há as atrapalhações de uma mãe que pela primeira vez na vida está montando lancheira. Enfim, os últimos dias, além de movimentados, me lembraram que a vida é mesmo cheia de pequenas e grandes surpresas, e cada dia tem sua própria dinâmica. Há dias para cansar e dias para descansar, dias para lembrar e dias para esquecer, dias para calar e dia para falar.

Foi pensando em tudo isso que lembrei de Um livro para todos os dias, que adquiri na livraria Cabeçudos, em Lisboa. Minha admiração por Isabel Minhós e Bernardo Carvalho (os mesmos de Coração de Mãe e Pê de Pai) não é de hoje. Mas Um livro para todos os dias superou minhas expectativas. A receita da dupla se repete: menos cores, menos tamanho, menos texto, e muito mais significados, enquanto o pequeno livro de 17cm apresenta os vários tipos de dias que podemos ter.

Porque "há dias tão grandes que parecem um mês inteiro. Há dias que passam num abrir e fechar de olhos." E "há dias simples. Há dias, meu Deus, que são uma consusão." "Há dias quase vazios e dias que mudam as nossas vidas." Aquele livro para ler naquele dia meio triste, ou no dia muito alegre. Para ler no dia estranho e no dia normal. Para ler no dia corrido mas principalmente no dia muito calmo. O importante é acreditar que "melhores dias hão de vir"

31 janeiro 2013

Soltando pum...

Quem soltou o Pum?
textos: Blandina Franco
ilustrações: José Carlos Lollo
editora: Companhia das Letrinhas 

Soltei o Pum na escola!
textos: Blandina Franco
ilustrações: José Carlos Lollo
editora: Companhia das Letrinhas 

O Pum anda fazendo tanto sucesso, que deve ser novidade para muito poucos a existência desses dois títulos editados pela Companhia das Letrinhas. Não é para menos, pum, cocô, xixi e outros temas escatológicos têm mesmo lugar de destaque para chamar atenção e provocar risadas entre os menores. E a dupla (a mesma de A menina que falava bordado) Blandina Franco e José Carlos Lollo soube explorar muito bem esse tema.

Pum é um cachorro (embora isso não seja dito explicitamente em momento algum) que detesta ficar preso, e está sempre dando um jeito de escapar. Ah, mas quando escapa sempre causa confusão. O seu dono acaba sempre levando bronca dos adultos, porque adulto não gosta de pum solto - menos a tia Clotilde, que solta o pum em todo lugar. Já deu para perceber como o livro é divertido e agrada em cheio as crianças, né?



Depois de Quem soltou o Pum? foi lançado Soltei o pum na escola! quando o menino leva seu cachorrinho para o Mês dos Animais na sua escola. Nem preciso dizer que o Pum escapou lá também gerando uma grande confusão. Até a diretora deixou o Pum escapar no meio do pátio e todo mundo morreu de rir! Mas ela e a tia Clotilde (lembra da tia Clotilde?) se deram super bem, e só falavam como o Pum é legal. O que mais gostei foi do final deste segundo livro, quando o menino descobre que o papai também tem medo de levar bronca da mamãe quando deixa o Pum escapar (algo familiar...). Ora, ele achava que adultos podiam soltar o Pum quando quisessem.

Ah, Quem soltou o Pum? foi o primeiro e-book da Companhia das Letrinhas, e posso dizer que foi uma ótima escolha... Para terminar queria deixar esse videozinho do lançamento do livro... genial!

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=3zOxzTlQTzE

sorry! Sabe-se lá porque cargas d'água, não consegui anexar o vídeo pelo youtube...

PS: Esse começo de ano tem sido estranho, muito estranho, e sobrecarregado. Tenho mil posts na cabeça, e 2 mil planos para o novo lay... mas teremos que esperar, todos. Pelo menos até depois do carnaval, quando volto de viagem. Esperem... Confiem... eu volto, ah se volto...

bjs carnavalescos...

19 janeiro 2013

Um ano novo mafaldiano para todos nós!




Toda Mafalda
textos e ilustrações: Quino
Vários tradutores
Editora: Martins Fontes

Mafalda é uma menininha de 7 anos que encanta o mundo há quase meio século. Quino, famoso desenhista argentino, lhe deu vida em 1963, embora sua primeira tirinha tenha sido publicada apenas em setembro de 1964. A última veio em 1973 - em 1977 ela ilustrou a "Declaração dos Direitos da Criança" - e apesar dos 40 anos sem tirinhas novas, Mafalda continua atual como sempre. 

Esta tirinha não permanece absolutamente atual - se trocarmos Japan por China?

Questionadora, inquieta, às vezes engraçada, às vezes pessimista, e quase sempre irônica, Mafalda parece não se encaixar nos padrões que a sociedade criou, e tem sempre um olhar contestador em relação ao mundo. Conheci Mafalda na infância, numa época em que devorava ferozmente histórias em quadrinho. Lembro de ter perguntado ao meu pai porque as tirinhas dela eram tão "diferentes" - acostumada com as histórias da turma da Mônica e do Pato Donald, me soou estranho os questionamentos de Mafalda... mas o fato é que logo estava apaixonada pela jeito "mafaldiano" de ver as coisas do mundo. Porque a guerra? Porque a desigualdade social? Porque ter que tomar sopa? Porque tantas regras? Porque os adultos são tão tolos e chatos? Taí respostas que eu também queria ter...

Adoro quando ela conversa ou refere-se ao globo terrestre... pobre planeta terra. Mas também adoro quando ela simplesmente olha as coisas que insistimos em complicar com a simplicidade tão típica da infância. Ou quando critica ou ridiculariza alguma convenção ou regra "adulta", e como tenta driblar os pais - e muitas vezes consegue. Adoro Mafalda, em suas várias facetas!

E não é que ela está certa?

Ultimamente tenho me identificado totalmente com a sequencia de tirinhas em que ela deseja desesperadamente uma tv em casa, e o pai é contra a ideia... mas no final acaba cedendo. Ah, mas Mafalda não demora muito para perceber que não estava perdendo muito... Queria tanto livrar-me definitivamente da tv aqui em casa, me pego tantas vezes angustiada com a quantidade de tv que minha filha assiste... pffff...



Mas pensei em escrever este post há algumas semanas, quando logo depois de comprar minha agenda 2013 uma amiga postou uma foto da sua no facebook - ambas da Mafalda. Ano passado havia visto umas agendas de Mafalda na livraria, mas como ganhei uma lindona de um parceiro profissional, me contive. Para este ano decidi, compraria uma agenda da Mafalda, e encontrei opções até mais interessantes: uma agenda/calendário de mesa, em espiral e com uma página, e tirinha, por dia. E o melhor, em português!

A minha é amarela e repousa imperiosa sobre minha mesa de trabalho!

Aí lembrei do meu adorado livrão Toda Mafalda, que contem TODAS as tirinhas de Mafalda, destes quase 10 anos em que foram publicadas, e em português. Adoro, leio sempre, e agora minha filha também está se interessando. Achei que seria uma boa forma de começar 2013 (já terminando a segunda terça parte do seu primeiro mês!!!) aqui no Cachinhos, e dizer o quanto eu desejo um ano cheio de questionamentos e de possibilidades de repensar o que parece imutável. Um ano assim... mafaldiano para todos nós!



Obs: Sabia que Mafalda surgiu por uma encomenda à Quino para criar uma tira cômica que servisse de publicidade "disfarçada" para uma firma de eletrodomésticos? Mas o cliente da agência recusou o plano da campanha... ufaaa, sorte nossa...

10 dezembro 2012

Afinal, de quê e de quanto precisamos?

Uma girafa e tanto
texto e ilustrações: Shel Silverstein
editora: Cosac Naify

O fim do ano vem chegando (e o fim do mundo também...) e entre confraternizações, decorações de natal, engarrafamentos e compras de presentes, surge um clima de balanço e de planejamento no ar. O que foi bom no ano que finda? O que não foi bom servirá de lição ou simplesmente vamos preferir esquecer? O que esperamos de 2013? Quais nossas metas, objetivos? Como planejamos alcançá-los? Nunca consigo cumprir a contento minha listinha de ano novo, mas sempre a faço na minha cabeça. Gosto do cheirinho de ano novo, de agenda em branco, de página esperando ser escrita.

Este ano, fazendo meu balanço e minha listinha mental, me dei conta do quanto a vida anda acelerada. Entramos de vez na era digital, quando todos precisam estar o tempo todo conectados. Estamos criando uma tal galerinha Z de dedinhos rápidos e ávidos por novidades. Nunca antes as pessoas se relacionaram com tantas outras pessoas, e nunca com tanta superficialidade. Nas redes sociais e na TV, todos querem seus 15 minutinhos de fama, todos têm algo a dizer, todos têm pressa para dizer... e para esquecer. É a era do descartável, da fama meteórica, das relações meteóricas, do consumo meteórico.

Lembro dos natais da minha infância, quando as famílias (pelo menos as que eu tinha contato) enfeitavam suas casas com uma árvore de natal, um presépio (as religiosas), uma toalha de mesa natalina e no máximo uma guirlanda na porta. E toda decoração durava vários natais, repetindo-se ano após ano. A lista de presentes geralmente tinha o tamanho do número de membros da casa multiplicado por 2 - por conta dos presentes de amigo secreto. Hoje, olho ao redor e vejo que as coisas mudaram bastantes, na nossa sociedade e no natal, e basta uma volta no shopping para confirmar isso. Em muitas casas, a decoração de natal precisa estar presente em todos os cômodos, e valha-me Deus se alguém passar na rua e não vir sua varanda com luzinhas piscando. As decorações não se repetem de uma ano para o outro, pelo menos não na íntegra... As listas de presentes são gigantescas, todos precisam ser presenteados para que se sintam amados - repete explicita ou implicitamente a publicidade do shopping center, da loja de cosmético e até da marca de bebidas. E aí vale quase tudo, não importando muito se será útil, adequado ou bem recebido. A variedade de opções é impressionante, para todos os bolsos e calendários. E na maioria das vezes o ano novo começa com a decisão do que fazer com os presentes ganhos no natal - tarefa nem sempre fácil.

E nesta alucinante "vida moderna" uma pergunta insisti em aparecer: Afinal, de quê e de quanto precisamos? Tenho me feito essa pergunta muitas vezes nos últimos anos. O tamanho do meu "apertamento" me obrigou a este questionamento quando percebi que precisava fazer limpezas periódicas das coisas que possuímos em casa - ou teríamos que sair de casa para acomodar tudo. Pelo menos duas vezes ao ano temos separado montes de roupas, sapatos, brinquedos, bolsas, itens de cozinha e etc para doação... porque já não nos servem mais, porque compramos um novo ou simplesmente porque enjoamos. Outra montanha de papéis vai para a reciclagem (alguém sabe como papel prolifera???), além das tranqueiras que terminam mesmo no lixo. A regra é que os armários, prateleiras e cômodos não podem ficar entulhados. Tudo precisa estar visível e a mão. Porque se está escondido e de difícil acesso... acaba não sendo usado, às vezes sequer lembrado. E aí, na contramão do que nos dizem diariamente as campanhas  publicitárias, começamos a investir nos Rs: repensar, reduzir, reciclar, reaproveitar, recusar... ultimamente tem sido o repensar e o recusar os mais usados aqui em casa - antes de comprar qualquer coisa: Repensar, e se for o caso: Recusar.

Um movimento lento, mas que tem causado uma revolução na vida da minha família. É interessante perceber, por exemplo, que temos ido ao shopping com muito menos frequência do que antes, inclusive quando o objetivo não é comprar, preferindo restaurantes e cinemas "de rua". Com cada vez menos frequência tenho comprado "por impulso" e o fato de não zapear mais pelas lojas para "conhecer as novidades" tem contribuído muito para isso. Fiz boa parte das minhas compras de natal pela internet, com uma listinha muito bem definida nas mãos - como os presentes são invariavelmente livros e os presenteados crianças, já acesso os sites sabendo exatamente o quê vou comprar. Parece muito pouco, mas as mudanças são visíveis na quantidade de tranqueiras que conseguimos reduzir em casa.

Um estilo de vida mais minimalista realmente tem me atraído, e passar isso para minha filha tem sido um desejo constante. Por isso foi maravilhoso descobrir, há alguns meses, Uma Girafa e Tanto, do genial Shel Silverstein. A história, pra lá de nonsense, conta como um menino começa a alterar sua girafa para transformá-la em uma girafa e tanto! Chapéu com rato, rosa no nariz, uma cadeira como pente, e mais um monte de maluquices, que no final... só conseguem descaracterizar a pobre girafa, que virou... sei lá o quê. Mas eis que, assim, carregando um monte de apetrechos, a girafa acaba por cair no buraco do tatu, e é então que torna-se possível perceber que, na verdade, ela não precisa de nada daquilo. E se o menino começasse a procurar para aqueles objetos usos melhores que os usos esdrúxulos dados até então? E se a cadeira for dada a um urso, a rosa a uma pessoa amada, e o rato simplesmente for embora com o chapéu? Aí, meus caros, esse menino terá o que sempre teve e desejou: uma girafa de verdade.

O livro é todo em preto e branco, da capa às folhas internas, ilustrado pelo traço inconfundível de Shel Silverstein, o que, convenhamos, não o torna dos mais atraentes. Mas não se engane, ele é surpreendente, e é uma ótima e divertida forma de conversar com as crianças sobre o que é essencial e o que é supérfluo, o que é consumo e o que é consumismo. Não quero ser a dona da verdade, longe de mim, mas devo confessar para vocês: verdadeiramente entender que é possível viver com menos e ser mais feliz tem trazido muito mais felicidade ao meu lar.