Mostrando postagens com marcador Já sou um leitor independente. Mostrar todas as postagens

21 maio 2014

poesias, cordeis e frutas!

O riso da melancia
texto: Maria Augusta de Medeiros
ilustrações: Bruna Assis Brasil
editora: FTD

Quem não gosta de frutas? Aqui em casa nós adoramos! E quem não gosta de poesia? Agora imagine juntar tudo em um livro com as delicadas e divertidas ilustrações de Bruna Assis Brasil? O riso da melancia foi uma gostosa surpresa que veio da biblioteca da escola, e nos conquistou de cara. A autora, Maria Augusta de Medeiros, classifica o livro como cordel, e é dessa forma, em estrofes de seis a oito versos, que ele apresenta 12 deliciosas frutas bem brasileiras, além da salada de fruta que encerra o livro. Duas estrofes para cada fruta, e elas são apresentadas com suas características, características de suas árvores e histórias engraçadas as envolvendo!

Tem a jabuticaba, a amora, a melancia, a carambola, a manga, o açaí, a graviola, o melão, a goiaba, o abacaxi, o mamão e a seriguela, além da salada de frutas! Eita, quanta delícia. Nem sei de qual eu gosto mais... Quanto ao poema, meu favorito é mesmo o da melancia, que brinca com o fato da fatia da melancia, cortada corretamente, lembrar um largo sorriso...



Ah, mas eu não poderia deixar de destacar também a seriguela, que como o poema lembra, nasce no Ceará, minha terra natal... e como esquecer as tardes sentada nos galhos carregados chupando os frutinhos amarelos e avermelhados? Alegria da criançada é um pé de seriguela carregado no quintal!


Não é lindo?

Hum, frutas e boa leitura: taí uma dupla que não devia falta na vida de ninguém! Principalmente de um alguém criança!!!

16 maio 2014

A magia de Oz!

O mágico de Oz
Warner Bros

Dizem que uma boa história jamais envelhece, e essa é uma grande verdade... Lembro tão bem do quanto fiquei encantada ao assistir O mágico de Oz, filme lançado antes mesmo de minha mãe nascer - 1939! Assisti muitas vezes e nem pestanejei antes de comprá-lo para a filha, então com 4 anos. E a menina, nascida no século XXI, se apaixonou, e este foi sem dúvidas o filme mais assistido até hoje nesta casa! Ela assistiu tanto que chegou a pedir para assistir apenas em inglês ou espanhol, acho que para variar um pouco rsrsrs

A história também foi assistida no teatro (uma versão linda de uma trupe cearense) e virou até tema da festinha de 6 anos, comemorada na escola. Não demorou muito pra pequena pedir uma versão em livro, o que já era esperado. O que me surpreendeu foi a versão escolhida por uma menina tão pequena - e ela sempre fez questão de lê-lo sozinha. São 223 páginas, embora numa versão reduzida. Foi o primeiro livro "grosso e de poucas figuras" que ela ganhou. Foi o primeiro livro a não ser lido de "uma sentada só". A primeira vez que ela usou um marcador de livros (suspeito que esse tenha sido o real motivo da escolha kkkk). Tá, a leitura ainda não terminou, e está esquecida há meses, mas o marcador parou além da metade, e suspeito que embora ainda vá demorar, ele ainda será lembrado e concluído...

O mágico de Oz
texto: L. Frank Baum
ilustrações: W. W. Denslow
tradução: Sérgio Flaksman
editora: Zahar

E em meados do ano passado, com a pequena encantada com as aulas de teatro da escola nova, me rendi a tentação de comprar mais uma versão linda dessa história imortal: a adaptação para o teatro de Tatiana Belinky. Dividida em atos, e com descrições das cenas, a história está toda contada em forma de diálogo entre os personagens, pronta para ser encenada. Ah, e as ilustrações são de André Neves! Preciso dizer mais alguma coisa? Vale a pena conhecer!

O mágico de Oz
adaptação: Tatiana Belinky
ilustrações: André Neves
editora: Paulinas

Bom, na verdade há ainda uma outra versão aqui em casa. Essa foi comprada em um sebo da minha cidade há muitos anos, quando a filha ainda era um bebezinho. Li e guardei entre os meus livros, imaginando que ainda demoraria muito para apresentá-lo à Letícia. Pois bem, numa ida ao shopping com o pai, surgiu o pedido e ele foi atendido com a versão verde lá de cima. Ah, ser mãe é viver sendo surpreendida mesmo...

O mágico de Oz
texto: L. Frank Baum
ilustrações: Marcelo Pacheco
tradução: Luciano Machado
editora: Ática

Para encerrar vou deixar uma foto da minha pequena Doroty comemorando seus 6 aninhos!


21 abril 2014

Uma amizade improvável e os riscos do "PRÉ-CONCEITO"

Trudi e Kiki
texto e ilustrações: Eva Furnari
editora: Moderna

Preciso confessar algo quase inconfessável para um amante da literatura infantil brasileira: eu não gostava de Eva Furnari (o verbo no passado talvez me ajude a ter quem termine de ler este post). Pois é. Quando comecei a querer conhecer e ler um pouco mais sobre literatura infantil, fui com enorme ânsia buscar as referências da área. Claro, queria conhecer os grandes autores e ilustradores, reconhecer seu estilo, seu traço. E foi assim que cheguei aos livros de Eva Furnari - é, eu devo ter tido contato com eles quando criança, mas confesso, não me recordava.

Bom, comecei como ela começou, pelos livros ilustrados, sem textos. Minha filha era uma bebezona e eles eram perfeitos para ela. Mas confesso, nunca fizeram muito sucesso, nem com ela, nem comigo. Embora as imagens e as histórias fossem bastante engraçadas, eu achava chato, e o pouco interesse da filhota não me animava muito. Fiquei um tempo sem lembrar deles, até que, com a filha conseguindo se concentrar em leitura, procurei seus livros com texto. Tentei um, dois e resolvi dar meu veredito: eu não gostava dos livros de Eva Furnari! E isso era um segredo secretíssimo, afinal, era certo que o problema estava comigo, não com suas obras, sempre tão admiradas e alardeadas. Segui com isso na cabeça e passei a ignorar os seus livros, onde quer que estivessem.

Até que a filha, sempre mais sábia que a mãe, resolveu trazer Trudi e Kiki na mochila da escola. Bom, não dava para ignorá-lo, principalmente porque a pequena estava interessadíssima em ouvir sua história. E eu li. E não acreditei em como o livro era tão, tão, tão bom. Li várias vezes, acho que para ter certeza. E tratei de catar outros na minha livraria favorita, e li vários, um após o outro, sentadinha entre as estantes. Sim! Eu gostava de Eva Furnari! Gostava muito! E sabe, a filha também!

Trudi e Kiki nem é o nosso favorito, mas achei justo introduzir Eva Furnari aqui no Cachinhos por ele, afinal, foi com a história divertidíssima dessas duas meninas, tão parecidas e tão diferentes, que deixei meu PRÉ-CONCEITO de lado e me dei uma nova chance de conhecer suas maravilhosas obras!

Trudi e Kiki são duas meninas muito parecidas, elas têm a mesma idade e a mesma altura, além do mesmo estilo de cabelo: ruivo e chanel. Trudi e Kiki são duas meninas muito diferentes, e a maior diferença entre elas é que... uma é bruxa e a outra não. Uma mora em Biribin e fala biribês. A outra mora em Burux, uma cidade de bruxos, e fala buruxês (que se fala fazendo biquinho com a boca). As montanhas separam as duas cidades, mas um dia, o convite de uma festa de dia das bruxas voou de uma para a outra, por cima das montanhas, e causou uma grande confusão. O livro é muito divertido e sua história pra lá de interessante. Mas o mais divertido mesmo são os convites e os diálogos que se estabelecem nas línguas das duas cidades. Um barato! A pequena bolava de rir! Clica na imagem para ler os convites:

imagem tirada daqui


Bom, mas depois de muita confusão, Trudi e Kiki descobrem que continuam com seus gostos e desgostos parecidos, e pela primeira vez, uma garota de Biribin virou amiga de uma bruxinha de Burux, e elas passaram a falar o biriburux, uma língua que só elas mesmas entendiam. Um ótimo livro para abrir espaço para uma conversa sobre amizades, sobre o que nos aproxima e nos diferencia. Sobre tolerância e PRÉ-CONCEITOS. Espero ter aprendido minha lição... não disse que os livros infantis podem nos surpreender?

Ah, e Trudi e Kiki ganharam uma versão em vídeo. Advinha? Maravilhosa também. É uma parceria linda de Eva Furnari com Kodo, apoiada pelo Governo de São Paulo. E o vídeo ganhou o terceiro lugar no Festival Prix Jeunesse em 2011! Imperdível! 


E o melhor é que vem mais Eva Furnari em vídeo por aí - confere uma entrevista onde ela explica tudinho aqui.

08 fevereiro 2014

Ruth Rocha e o fim do Papai Noel


Almanaque Ruth Rocha
texto: Ruth Rocha
ilustrações: Alberto Linares, Cláudio Martins, Elisabeth Teixeira, Miadaira, Suppa, Teresa Berlinck, Walter Ono
editora: Salamandra

Quando Letícia ainda era uma bebezona, comecei a falar a ela sobre o bom velhinho que traz presentes às crianças no natal. Fiz isso muito mais por uma pressão social, devo admitir. Eu fui uma criança que nunca acreditou em papai noel, acho - se acreditei era tão pequena que não tenho a menor recordação disso. Meus pais sempre acharam uma bobagem fazer as crianças acreditarem em papai noel e coelhinho da páscoa. E bem no fundo, sempre achei isso também. Mas mãe é mesmo um bicho meio bobo e extremamente influenciável, que tem pavor absurdo de errar, e quando me tornei uma tive muitas e muitas influências ao meu redor, sempre dizendo que papai noel representa a fantasia e o sonho da infância, que dizer que papai noel não existe é negar à criança o direito à fantasia e ao sonho (oi?) e etc. Bom, quando ela ainda estava na produção de garatujas, comecei a perguntar o que queria de papai noel e ajudá-la a produzir as famosas cartinhas. Não falava muito, não fazia as habituais chantagens "papai noel só traz presente para bons meninos", mas todo ano tinha o presente do bom velhinho aqui em casa.

Quem me acompanha deve saber também que comecei, ainda no seu segundo natal, a comprar um livro para ela como um presente de papai e mamãe. Então, tinha o presente do papai noel, e o presente de papai e mamãe, sempre um livro. Em 2012, uns 40 dias antes do natal, a pequena me fez a pergunta bombástica: "Mamãe, papai noel existe?" Eu já andava incomodada com o fato dela acreditar nele, e pensava como seria o desfecho dessa história, mas a pergunta assim, nua e crua?!?! Respirei fundo um tive um lampejo de inspiração que me fez responder com outra pergunta: "filha, você acha que ele existe ou não existe?". A resposta dela foi um enfático "acho que existe" e só me restou emendar um "então pronto, filha! Se você acha que ele existe, é claro que ele existe". E tudo seguiu sua programação normal, com cartinha e presente deixado embaixo da árvore.

Rá, mas ano passado, mais ou menos na mesma época, a pergunta se repetiu. E a minha resposta-pergunta também. Mas a minha menina me devolveu um sonoro "Não! Acho que ele não existe, não". Ah! Ela, ainda em 2012, tinha visto o presente da prima, deixado por papai noel, na mala do carro da tia, na noite anterior. Juntou a isso a revelação de alguns coleguinhas da escola, e o quebra-cabeça estava formado. Aliviada, respondi "ah, filha, então não deve existir mesmo, né? Mas... quem então dá os presentes às crianças?" "O pai e a mãe, claro!". Ufa, última peça encaixada! E foi assim que a minha menina descobriu "sozinha" (ela se orgulha muito de ter sido sozinha) que papai noel não existe. Sem dramas, sem choros, sem velas. Ah, o fato de ter garantido a ela que nada mudaria nos seus natal ajudou bastante! kkkk

Ela ganhou o presente que pediu a papai e mamãe, e o livro que mamãe escolheu, como todos os anos. E o livro deste ano foi pra lá de especial. Muitos livros de Ruth Rocha já são nossos velhos conhecidos, e adoramos todos. Mas o Almanaque é diferente! Dividido pelos 12 meses do ano, ele traz histórias, curiosidades, anedotas, adivinhações, festas populares, brincadeiras e experiências. Uma delícia. Ainda mais nessa fase da filha, que adora inventar novas brincadeiras. Para as férias pode ser um ótimo companheiro. Recomendo muito, muito mesmo, principalmente por ser um livro para se usar, literalmente, o ano todo, e por muitos anos.



PS: em dezembro vi algumas postagens em redes sociais criticando a pressão CONTRA a "magia do natal" e a fantasia do papai noel. Engraçado observar isso, porque sempre senti a pressão contrária, a favor da tal magia e do papai noel, como se não "jogar pirlimpimpim" sobre a festa seria quase um crime contra a infância - veja bem, não falo da festa, que eu adoro, mas de fantasia-la, como o mercado tanto gosta. Por isso pensei em mostrar o meu ponto de vista, e dizer que o melhor é que cada família decida como viver suas festas, de preferência bem conscientes do que é válido ou não à ela.

12 dezembro 2013

Agora assine...


O ponto
texto e ilustrações: Peter H. Reynolds
tradução: Monica Stahel
editora: Martins Fontes


Letícia adora desenhar, pintar, colar e cortar desde sempre. É sem dúvidas a brincadeira preferida dela, aquela que ela nunca se cansa. Lembro de quando aos 2 anos ela pediu uma cola bastão ao papai noel - na época ela chamava de "cola igual da minha pró". E é também a brincadeira que eu mais libero, aquela que mesmo cansada, mesmo sabendo que vou ficar muito tempo depois da pequena dormir limpando, não consigo dizer não (exceção para uso de tinta nas noites que antecedem dias úteis, que eu sou doida mas tenho juízo). E é um tal de guardar papel de presente, embalagens mil, fitinhas, botões, tecidos. Cola bastão e durex são coisas que tenho que esconder o que quero usar para garantir ter quando precisar rsrsrs A porta do seu quarto é colada de cima a baixo com artes suas e dos amigos mais próximos. Há alguns meses, separei as artes em papel mais queridas e arrumei em uma pasta catálogo (aquela com sacos plásticos) - ficou lindo. Adoro, apesar da sensação de caos que fica.

E desde sempre procuro não tolher suas iniciativas por motivos estéticos. Interfiro o mínimo possível, na verdade. Não lembro mais onde eu li ou ouvi, quando Let ainda era uma bebezinha, sobre a importância de permitir à criança, principalmente em seus primeiros anos, expressar sua criatividade e suas emoções na arte da forma que quiserem. E mesmo esteticamente não muito aceitável, incentivamos e utilizamos sempre que possível. Aliás, o seu micro-bolinho de aniversário na escola, feito em novembro, teve aranhas, seu nome e idade, feitos por ela, espetados no bolo (reparem no seu nome, com aranhinhas nos pingos dos is). 


E eu tinha que fazer essa introdução para falar do livro O ponto que me encantou desde o primeiro dia que o vi. Com traços simples e expressivos, utilizando cores primárias para expressar os sentimentos dos personagens, a história fala de quando Vashti deixa seu papel em branco até o final da aula de artes. Ela não sabe desenhar!!! Mas a professora de Vashti, com imensa habilidade (e como é importante ter educadores com esta habilidade), consegue fazer a menina deixar a sua marca, e depois pede: "agora assine". Vashti achou tudo aquilo uma grande bobagem, afinal, ela tinha feito apenas um ponto com caneta. Mas, na semana seguinte, era o ponto de Vashti que estava emoldurado sobre a mesa da professora.

Hummmm, Vashti conseguia fazer um ponto melhor que aquele, e fez! Muitos! Pontos amarelos, verdes, vermelhos e azuis. Pontos pequenos, grandes, enormes, e até um ponto sem pintar. E assim, a menina que não sabia desenhar, descobre uma forma inusitada de expressar-se artisticamente, e motivar outras crianças.

Adoro este livro porque ele me lembra o quanto é importante para qualquer um ter uma expressão artística. Eu, que já repeti no passado tantas vezes: "tenho duas mãos esquerdas", na gravidez descobri que poderia dar vazão a minha criatividade com arte, começando pelo enxoval da filhota, e seguindo por uma porção de outras coisas, principalmente nos seus aniversários. Queria ter sido mais estimulada na infância a deixar minha marca e assiná-la... demorei a perceber que poderia fazer isso. Tento acertar com a filhota.

Por fim, alguns dos últimos desenhos que ela fez, dos personagens de Caillou: Gilbert, Caillou e Rosie, copiados de imagens da internet, recortados e colados com cola bastão rsrsrs



25 novembro 2013

Menino faz futsal! Menina faz GR!

O rei da sola
texto: Márcia Frazão
ilustrações: Mariana Massarani
editora: Cosac Naify


O livro de hoje tornou-se imediatamente um dos favoritos de Letícia logo que chegou às suas mãos. E ela pediu para relê-lo infinitas vezes. E é claro, tem uma história por trás.

Ela, que frequenta creche desde os quatro meses e meio, desde que fez 1 aninho teve aulas de capoeira (sim, na Bahia é assim). Aos 2 anos começou a pedir incessantemente para ter aulas de balé, influenciada pela coleguinhas que saiam da escola de coque, tutu e sapatilha para as tais aulas. Não começou logo porque ainda não tinha idade, depois foi o nosso bolso o impeditivo, até que aos 4 anos começou as aulas e as frequentou até final do ano passado, quando ela mesma pediu para sair. Aí veio a escola nova, que inclui natação no horário normal da aula – e ela adora. E no contraturno, me foi dito durante a pré-matrícula, ela teria direito a mais um esporte a escolher: futsal ou ginástica rítmica (GR). Perguntei a ela o que preferia e a resposta foi imediata: futsal! E na semana seguinte: GR. E na seguinte a seguinte: futsal. Ainda era agosto, então decidimos que, quando as aulas começassem, ela faria uma aula de cada e decidiria.

Entretanto, na matrícula, em dezembro, fui informada por uma funcionária da escola que não havia o que escolher: menino faz futsal, menina faz GR. Exatamente assim. Fiquei revoltada, acima de tudo porque, a escola que escolhi com tanto cuidado e por tantos meses, tinha um posicionamento claramente sexista em relação aos esportes – aliás, até onde esse posicionamento se estendia??? Mas ao iniciar as aulas, a filha parecia decidida a fazer GR, achei melhor deixar para conversar com a escola em outro momento. Com quase dois meses de aula, juntei este a outros assuntos e marquei um horário com a direção. Alguns dias antes do dia marcado, o seguinte diálogo se estabeleceu:

- Mamãe, eu posso fazer futsal?
- Pode sim filha. (falei, sem nem pensar duas vezes)
- Então eu quero fazer futsal!
- Mas filha, se você for fazer futsal, terá que sair do GR. Você quer sair do GR?
- Quero. Não tem problema sair do GR.
- Você não gosta de fazer GR?
- Gosto. Mas gosto mais de jogar futebol.

Pronto, fui conversar com a diretora. Na verdade, eu achava que tudo não passava de um mal entendido, afinal, havia sido a vice-diretora quem tinha me dada a informação da possibilidade de escolha dos esportes. Mas não, a diretora confirmou a informação: menino faz futsal, menina faz GR. Simples assim. Perguntei o porquê e a resposta foi: “já tivemos meninas jogando futsal aqui, mas os meninos são muito truculentos e as meninas sempre se machucavam. O futebol é um esporte de muito contato, por isso restringimos, e hoje só os meninos fazem futsal”. Indignada não define bem a sensação que tive naquele momento. Fiquei arrasada. Mas saí da sala com a promessa de uma avaliação do assunto com a equipe de esporte e uma resposta breve... que não veio, mesmo depois de semanas.

Pus as mãos a obra, e busquei literaturas que abordassem o assunto. Pensava talvez num artigo científico, mas achei algo muito melhor: o capítulo 7 dos “Parâmetros Curriculares Nacionais” elaborado pela Secretaria de Educação Fundamental do Ministério da Educação – MEC, que dedica-se exclusivamente à Educação Física nas quatro primeiras séries da Educação Fundamental. O documento, que se destina aos professores da área, deve ser norteador para a prática do ensino da educação física entre crianças do ensino fundamental do país. E ele claramente incentiva a prática mistas (meninos e meninas) de esportes, destacando inclusive o futebol, como forma de desincentivo ao sexismo. Fiz uma carta à escola incluindo alguns trechos do documento do MEC, trechos que transcrevo ao final deste post. Ao final da carta, incluí ainda a lista de algumas instituições de ensino e/ou esporte que oferecem aulas mistas de futsal para a faixa etária de minha filha em nossa cidade. A carta foi entregue com cópia à direção, à coordenação de esportes e aos professores de futsal.

Várias semanas se passaram e a resposta continuava não vindo. Apenas quando decidi tirar minha filha do GR e matriculá-la na escolinha de futsal de um clube próximo de casa, a resposta veio. Encurtando a história, ela está fazendo futsal há alguns meses na escola e tem adorado. Os meninos estranharam, e ela ouviu coisas como “Eca, menina fazendo futsal?!?!” ou “Meninas não sabem jogar futebol, meninas só sabem dançar balé”, mas tem driblado bem estas questões. Não é uma exímia jogadora, mas nem ela, nem nós, estamos preocupados com isso. Como aprendi com o próprio documento do MEC e conversando com profissionais da área, ela está na fase de experimentar, buscar novas possibilidades, e a última coisa que precisa agora é que digam que ela não pode fazer algo, principalmente por ser menina.

Aliás, um dia, depois de perguntar várias vezes quando poderia começar o futsal, ela me perguntou se demoraria tanto se fosse um menino, e ao ouvir de mim a resposta sincera de que não, não demoraria tanto, que estava demorando porque ela era a primeira menina e a escola ainda estava avaliando como recebê-la (quanta baboseira a gente é obrigada a dizer a um filho...) ela desabafou “mamãe, eu queria ser menino. Ser menina é muito chato, a gente não pode fazer um monte de coisas!”. Pfff... E acho que foi por tudo isso que ela gostou tanto de O Rei da Sola. O livro conta a história de Claudinha, a artilheira do time de futebol da rua do Sobe e Não Desce. É que dias antes da grande final do campeonato, a sola do tênis de Claudinha descolou, e ficou igual boca de jacaré. Ah, mas aquele não era um tênis qualquer, era o tênis amarelo de Claudinha, seu tênis da sorte, que a ajudava a fazer tantos dribles perfeitos. Decididos a salvar o time, Claudinha e seus amigos procuram a bruxa Vitalina e o grandioso Rei da Sola para resolver aquele problema.

O que tem de especial nessa história? O time de Claudinha é formado por meninos e meninas, e em nenhum momento isso é tratado como um tabu. Meninas e meninos jogam juntos e isso é só. Simples assim. Mais que isso, a principal jogadora do time é Claudinha, uma menina, e a possibilidade da melhor jogadora não jogar com seu tênis da sorte mexe com todos do time, inclusive os meninos. Um livro fantástico, que trata a igualdade de gênero como algo tão corriqueiro e normal que não tem como as crianças não se encantarem.

Para finalizar, seguem alguns trechos do documento do MEC mencionado acima, com algumas considerações minhas:

Em sua página 33 o documento lista os objetivos gerais de educação física no ensino fundamental, e os dois primeiros são: “participar de atividades corporais, estabelecendo relações equilibradas e construtivas com os outros, reconhecendo e respeitando características físicas e de desempenho de si próprio e dos outros, sem discriminar por características pessoais, físicas, sexuais ou sociais” e “adotar atitudes de respeito mútuo, dignidade e solidariedade em situações lúdicas e esportivas, repudiando qualquer espécie de violência”.

Na página 25, o documento expõe explicitamente sua recomendação pela formação de equipes mistas nas aulas de educação física: “No que tange à questão do gênero, as aulas mistas de Educação Física podem dar oportunidade para que meninos e meninas convivam, observem-se, descubram-se e possam aprender a ser tolerantes, a não discriminar e a compreender as diferenças, de forma a não reproduzir estereotipadamente relações sociais autoritárias”.

Já nas páginas 58 a 63, o documento trata de orientações gerais para o ensino da educação física, destinando a segunda para “Diferenças entre meninos e meninas”, que inicia-se com o seguinte parágrafo: “Particularmente no que diz respeito às diferenças entre as competências de meninos e meninas deve-se ter um cuidado especial. Muitas dessas diferenças são determinadas social e culturalmente e decorrem, para além das vivências anteriores de cada aluno, de preconceitos e comportamentos estereotipados. As habilidades com a bola, por exemplo, um dos objetos centrais da cultura lúdica, estabelecem-se com a possibilidade de prática e experiência com esse material. Socialmente essa prática é mais proporcionada aos meninos que, portanto, desenvolvem-se mais do que meninas e, assim, brincar com bola se transforma em “brincadeira de menino”.” O documento também diz em sua pág. 52: “Se tiver havido um trabalho para diminuir as diferenças entre as competências de meninos e meninas no primeiro ciclo[1], o desempenho será quantitativamente mais semelhante. Nesse momento, também, as crianças estão mais cientes das diferenças entre os sexos; portanto, há que se tomar cuidado em relação às estereotipias, principalmente no que se refere aos tipos de movimento tradicionalmente considerados”.




[1] Segundo o documento, o primeiro ciclo do ensino fundamental vai até o 3º ano deste.

05 outubro 2013

Criança, consumismo e troca - parte 2

O giz vermelho
texto: Iris van der Heide
ilustrações: Marije Tolman
tradutora: Monica Stahel
editora: Martins Fontes

"Sara esta aborrecida. Queria desenhar no chão, com giz vermelho, mas a calçada era muito irregular. Todos os seus desenhos davam errado. Já ia jogar o giz fora quando viu Tim do outro lado da rua. Ele estava brincando com suas bolas de gude. "Deve ser divertido", Sara pensou."

É assim que começa O giz vermelho, um livro que conheci numa compra "às cegas" de uma mega promoção em uma loja on line. Havia me apaixonado pela sinopse, que parecia refletir exatamente a ideia da Troca de Brinquedos. E o livro não decepcionou. É que Sara tenta resolver seu tédio propondo a Tim uma troca: seu giz vermelho pelas bolas de gude de Tim. "É um giz mágico. Tudo que você desenha com ele cria vida." E Tim na mesma hora desenhou um dragão - veja a ilustração:

imagem tirada daqui (blog Imensa Vida) 

Pois é, para Tim o giz é mesmo mágico, e seu dragão ganha vida! Mas logo Sara fica insatisfeita com as bolas de gude também - "Não tem graça nenhuma." A solução? Novas trocas! E as bolas de gude sem graça viram pérolas do mar na mão de Sam, e a flauta desafinada, faz todos os ratos da cidade seguirem Ben. Mas Sara continua trocando, porque ela não consegue perceber que o que faz um brinquedo especial não está no brinquedo, mas no significado que damos a ele. O brinquedo sem a pitada da criatividade e da imaginação, não garante diversão alguma. Na verdade, o brinquedo, assim como o livro, é tão somente um instrumento. É o BRINCAR, o SENTIR, o SONHAR e o IMAGINAR que fazem a brincadeira.

No final do livro, e de tantas trocas, adivinha qual o último brinquedo que Sara trocou??? Pois é, o seu giz vermelho, que tinha virado uma amarelinha na mão de Ben. Só então Sara percebe que especial mesmo é brincar junto com seus amigos.

imagem tirada daqui (blog Imensa Vida)

Hoje nós realizamos a terceira Feira de Troca de Brinquedos e Livros de Salvador, e a imensa alegria se repetiu. O Palacete das Artes é um lugar lindo, acolhedor e onde se respira cultura. Novamente, foi simplesmente mágico ver as crianças interagindo, negociando, trocando, sorrindo, brincando, e às vezes chorando. Tudo é aprendizado. Letícia, que nunca tinha tido problemas em suas trocas, hoje chateou-se pela primeira vez e chorou: queria um trenzinho, e quando a troca já estava quase estabelecida, uma outra criança fez uma oferta que agradou mais e levou seu objeto de desejo. Ficou chateada, chorosa, mas logo aceitou que não se pode controlar tudo, e saiu de lá muito feliz com suas trocas.

Para ver mais fotos clique aqui.

E você, já pensou em organizar uma feira de troca? Não precisa ser nada grandioso - basta ver as fotos das feiras de troca entre primos que organizamos na minha família. Então, por que não entre as crianças do prédio? Ou da sala de aula do seu filho? Que tal propor uma feira de troca na escola? Na sua igreja? Entre as crianças que frequentam a pracinha ou o parque? Entre os primos? As possibilidades são infinitas! Cada grupo pode fazer suas próprias regras. O importante é que as crianças estabeleçam o valor de cada brinquedo e livro sem usar a lógica monetária, e tenham liberdade para estabelecer suas negociações. Garanto que será gratificante.


23 setembro 2013

O desejo de crescer e a sabedoria africana.


As tranças de Bintou
texto: Sylviane A. Diouf
ilustrações: Shane W. Evans
tradução: Charles Cosac
editora: Cosac Naify

Cheguei ao livro de hoje de uma forma deliciosa que não posso deixar de contar: no início de junho fomos a uma grande livraria para eu retirar uma compra que havia feito na internet. Enquanto me esperavam, Thiago e Letícia se esparramaram nas almofadas com alguns livros escolhidos. Quando os encontrei, ele lia As tranças de Bintou, que eu ainda não conhecia, para a filhota que estava no seu colo. Cheguei de mansinho, com medo de atrapalhar o encanto daquele momento, e sentei ao seu lado para aproveitar da leitura também. Encanto realmente era a palavra! O livro é lindo, emocionante, envolvente. Quis levá-lo naquele mesmo instante, mas o lampejo de controle que ainda tenho em relação aos livros me segurou, e ele apenas entrou na minha longa lista de desejos (ou em quarentena, como gosto de dizer). Pois bem, preciso dizer que já há muitos anos decidimos não nos presentear com presentes comprados no dia dos namorados, e geralmente comemoramos com um jantar feito por mim (adooooro) ou alguma programação especial (não necessariamente no dia 12, afinal queremos nos divertir, não estressar). Mas neste dia 12, Thiago me surpreendeu e emocionou com um pequeno embrulho onde estava As tranças de Bintou... os melhores presentes são sempre assim, precedidos de um contexto que os torna especiais.

A história do livro foi criada pela filha de um senegalês e uma francesa, e claramente se inspira nas histórias e lendas africanas. Bintou é uma menina que deseja crescer e deixar de ser criança, porque sonha em ter tranças. Em sua comunidade, as crianças não podem ter tranças, por isso Bintou tem apenas 4 birotes na cabeça. Ela sonha que já é grande, como sua irmã Fatou, e tem lindas tranças como as dela, e quando balança a cabeça, o Sol a segue, e ela brilha como uma rainha. Mas, apesar de ser tão pequena, Bintou tem um enorme coração e é muito corajosa, e por isso um dia conquista o direito de ter tranças, mesmo sendo uma criança... mas sua avó, Soukeye, a mostra como seus birotes podem ser especiais. Bintou é uma menina com quatro lindos birotes na cabeça, o sol a segue e ela está feliz.



Entretanto, o mais especial dessa história está no motivo da comunidade de Bintou não permitir que as crianças usem tranças. É a vovó Soukeye quem conta a Bintou: "Há muito tempo, existiu uma menina chamada Coumba que só pensava no quanto era bonita. ... Todos a invejavam, e ela foi se tornando uma menina vaidosa e egoísta. Foi nessa época, e por isso, que as mães decidiram que as crianças não usariam tranças, só birotes, porque assim elas ficariam mais interessadas em fazer amigos, brincar e aprender."

Ah, a sabedoria africana... "fazer amigos, brincar e aprender" deveria mesmo ser as únicas preocupações e interesses de uma criança. Mas tenho ficado cada dia mais espantada com a forma como nossas meninas estão sendo adultizadas - e cada vez mais cedo. Meninas de 3 anos de unhas pintadas, salto alto e maquiagem! Aliás, quem é mãe de menina sabe a dificuldade que é comprar sandália sem salto para números a partir do 28. 28! A maioria das meninas calça 28 por volta dos 5 anos de idade! Nem vou falar dos malefícios de saltos para quem está com o corpo em formação ou dos riscos da maquiagem, entre eles o uso de metais pesados - isso é o óbvio, alardeado para quem estiver interessado. Queria falar nos prejuízos de ter nossas meninas privadas das delícias da infância, sensualizadas e adultizadas. As crianças são curiosas, querem entender e descobrir o mundo adulto, o que é normal e saudável. Para isso usam o faz de conta, a fantasia. Mas uma criança de 4 anos usar maquiagem diariamente para ir à escola ou roupas sensuais e pouco confortáveis em festinhas de aniversário, pouco ou nada tem de fantasia e faz de conta, ao meu ver.

Porque queremos apressar a vida das nossas crianças? Porque queremos encurtar o tempo que têm para ser apenas... crianças? Esse tempo é único, e vai passar rápido, porque privar nossas meninas de vivê-lo plenamente? Vamos fazer essa reflexão?

26 julho 2013

A bola de Ceci e o vestido de Max!

Ceci e o vestido do Max
texto: Thierry Lenain
ilustrações: Delphine Durand
tradução: Marcela Vieira
editora: Companhia das Letrinhas

No último título lançado no Brasil, a duplinha Ceci e Max, vão juntos ao supermercado, e enquanto Ceci fica encantada com uma bola de couro dourada, Max suspira de amores por um vestido rosa cheio de frufrus. Ele diz que imagina como Ceci ficaria linda nele, mas Ceci nem quer pensar em usá-lo... ah, mas Max insiste, insiste... e Ceci concorda, desde que Max use também...

O livro traz uma abordagem super interessante sobre os esteriótipos de meninos e meninas, e o estranhamento quando alguém apresenta os "interesses errados". Porque é tão estranho uma menina gostar de bola e futebol? E mais estranho ainda um menino gostar de vestido cor de rosa? Pfff... fico pensando quantos interesses e desejos são simplesmente sufocados por não se encaixarem no que a sociedade espera que gostemos!

Fico impressionada como as crianças simplesmente aprendem estas regras estereotipadas de meninos e meninas, mesmo que, aparentemente, não tenham contato com elas. Lembro quando a minha filha, ainda uma bebezona, começou a dizer que menino não podia usar rosa ou brincar de boneca... ah, o machismo nosso de cada dia! Fomos então, nos empenhando em mostrar outras referências a ela, tentando desconstruir alguns conceitos... difícil ensinar a filha o contrário de coisas tão irraigada em nós - e nem adianta achar que não - mas acho que sempre vale a pena tentar.

E esse é mesmo um bom livro para abrir uma conversa sobre como esse papo de menino não pode isso, menina não pode aquilo, é bobo e limitante. Aliás, tem esse outro também. Porque, como sempre digo, estas novas gerações são capazes de muito mais do que nós, podem e devem nos superar. E quem sabe para meus netos e bisnetos ser menino ou menina não seja fator limitante para escolher a cor de uma roupa ou o esporte para praticar! Quanto a Ceci, ela bem que ensaiou rir e ridicularizar Max por usar um vestido, mas não fez nada disso... ela teve que admitir que o tal vestido rosa e cheio de frufrus fica muito melhor em Max que nela.

24 julho 2013

O que é preciso para ganhar beijinhos da Ceci?

Os beijinhos da Ceci
texto: Thierry Lenain
ilustrações: Delphine Durand
tradução: Heloisa Jahn
editora: Companhia das Letrinhas

O terceiro livro de Ceci e Max trata do namoro dos dois. Namoro de criança, mas levado muito a sério por eles. Ahhh, e como Ceci é uma namorada difícil! Max adora os beijinhos de Ceci, e faz qualquer coisa para consegui-los... mas Ceci exagera! E na escola, na hora do recreio, manda Max ficar sentado nos degraus da escada do banheiro, a espera de, talvez, ela ter vontade de lhe dá um beijo. E Max fica, no primeiro, no segundo e no terceiro dia... mas nada de ganhar beijos de Ceci. Ele já está bem chateado quando a professora vem tentar descobrir porque ele já não brinca no recreio, e ao saber a verdade - mas sem saber o nome da namorada, porque isso é segredo sagrado - faz um discurso sobre peixes, pássaros, cabras, aquários, gaiolas e tocos... kkkk 

Max fica confuso, tem pesadelo a noite, mas na manhã seguinte tem certeza de uma coisa: o apaixonado não foi feito para ficar esperando um beijo sentado na escada do banheiro! Mesmo correndo o risco de perder os beijos de Ceci, Max deixa isso claro para a namorada, afinal, se ela quiser dar um beijo nele que vá ao lugar onde ele estiver. E não é que é exatamente isso que Ceci faz? E Max ganha um belo beijo na bochecha. Ah, a crueldade dos apaixonados, se desfaz rapidinho quando há o risco de perder o ser amado rsrs

Adoro a forma como Max se rebela contra a tirania de Ceci! E adoro o jeito que ela corre atrás do namorado: "Na verdade, Max, prefiro você deste jeito!" Tiranias desse tipo são tão comuns numa fase da infância, inclusive com crianças do mesmo sexo. São normais, eu sei, fazem parte do crescimento, eu sei, mas gosto da ideia de dizer a elas que se dá valor a quem se dá valor... eu queria te aprendido isso bem mais cedo...

22 julho 2013

Para ter um bebê!

Ceci quer um bebê
texto: Thierry Lenain
ilustrações: Delphine Durand
tradução: Paulo Werneck
editora: Companhia das Letrinhas

Depois de conhecer Ceci tem pipi? eu só pensava em conhecer os outros livros da série. E como nunca os encontrei em livrarias ou bibliotecas, o jeito foi pedir pela internet. E aí preciso confessar a vocês que Ceci quer um bebê me causou espanto, e não tive coragem de entregá-lo a filha. Pois é, excesso de moralismo, provavelmente. Fiquei viajando que aquele ainda não era o momento para Letícia conhecê-lo, que era melhor esperar ela crescer um pouquinho mais - tolinha. Rá, mas a vida se encarregou de driblar meus medos pudicos, e um dia, sem querer, ela viu sua capa dentro do meu armário, e gritou logo "Ceci! Tem outro livro de Ceci?" Aí já era, não tinha mais nada a fazer senão entregá-lo rsrs

Do jeito direto de Thierry abordar os temas, Ceci começa esse livro perguntando a Max se ele a ama, e ao ouvir uma afirmativa, faz a proposta sem pestanejar "Vem cá. Vamos fazer um bebê." E ele vai, apesar do susto e do medo que sente - filho é coisa séria, né? Mas nem pense em cegonhas ou repolhos, Ceci não é boba rsrsrs Ela sabe que para fazer um bebê o papai e a mamãe têm que deitar na cama e se abraçar forte, não sem antes fechar bem a porta do quarto - para fazer um bebê, a porta do quarto tem que estar bem fechada. Depois do abraço apertado, os dois vão lanchar - e Ceci acha que já pode até sentir o bebê!

No dia seguinte é carnaval, e Ceci e Max vão à escola fantasiados. Max vai de guerreiro das estrelas. Ceci vai apenas com um barrigão. A professora elogia sua fantasia de mamãe grávida e a escuta dizer que não está fantasiada. No dia seguinte não é mais carnaval, mas Ceci continua de barrigão. Hum, Max começa a ficar preocupado. E fica mais ainda quando, alguns dias depois, vê Ceci chegar sem barrigão e com um bebê... de verdade. A história é muito divertida, e fala de sexo e da chegada de irmãozinhos de forma leve, além de trazer o desejo das crianças de viverem experiências adultas, como namorar, casar e ter filhos. Uma forma muito legal de abordar esses assuntos, principalmente se as curiosidades já começaram.

19 julho 2013

Sem-pipi ou Com-perereca?

Em abril do ano passado, escrevi um post sobre um livro que adoro: Ceci tem pipi? Ele é o primeiro de uma série, e na época planejava escrever logo na sequência sobre os outros dois. Bom, nem preciso dizer que acabei não escrevendo... E nesse tempo, o quarto livro foi lançado no Brasil, e recentemente consegui comprá-lo. E aí que me deu uma vontade enorme de escrever sobre eles, inclusive sobre aquele primeiro, que já escrevi. Foi assim que nasceram esses quatro posts, que começo a publicar hoje, sobre os títulos da deliciosa série do francês Thierry Lenain (bom, os títulos já traduzidos e lançados no Brasil).

Ceci tem pipi?
texto: Thierry Lenain
ilustrações: Delphine Durand
tradução: Heloisa Jahn
editora: Companhia das Letrinhas

Como o próprio Thierry afirma, ele é um escritor que escreve histórias que defendem as meninas. Na verdade, suas histórias abordam questões da sexualidade para as crianças, falando para elas, na sua linguagem, e buscam desconstruir algumas ideias machista e sexista. Mas esqueça se te veio à mente "livros endereçados", desses que tem como objetivo principal ensinar algo ou passar uma mensagem, e só por acaso têm uma história condutora. As histórias de Ceci são muito boas, sensacionais, eu diria. E o que eu mais gosto nelas é que Thierry não caiu nas armadilhas mais comuns, como falar sobre sexo para crianças usando metáforas bobinhas ou uma porção de termos técnicos, ou ainda abordando o sexismo com um discurso moralista. Suas histórias são diretas, claras, e na linguagem do pequeno leitor - tratando a criança com respeito - e como eu gosto disso...

Pela editora francesa, já são oito* os títulos da série da dupla Zazie e Max. Aqui no Brasil, Zazie virou Ceci, e já estão lançados os quatro primeiros títulos. E é nesse primeiro livro que a duplinha se conhece, quando Ceci vai estudar na sala de Max, e causa uma verdadeira revolução na vida do colega. Tudo isso porque a chegada de Ceci faz pela primeira vez Max repensar algo que já estava muito bem formatado em sua cabeça: no mundo existem as pessoas Com-pipi e as Sem-pipi, e é claro que as Com-pipi são mais fortes - elas têm pipi, não é mesmo? E nem foi Max quem inventou isso, sempre foi assim, desde a época dos mamutes. Por isso, Max nem liga quando a professora apresenta Ceci - ela é uma Sem-pipi!

O mundo para Max antes de Ceci.

Ah, mas Ceci não é menina que se possa ignorar! Ela desenha mamutes ao invés de florzinhas fofinhas, joga futebol, não tem medo de subir em árvores e sempre vence nas lutas. Ceci simplesmente não cabia no formato arrumadinho de Com-pipi e Sem-pipi que norteava a cabeça de Max. Tinha alguma coisa diferente naquela garota... será que Ceci é uma Sem-pipi que tem pipi? Mas isso seria trapaça, não? E essa dúvida não sai da cabeça de Max...
Ceci e Max devem ter uns 5 anos, e é mesmo mais ou menos nessa fase que as crianças começam a realmente incorporar que meninos e meninas precisam ser diferentes, e não apenas por terem ou não pipi. Menino gosta de bola, menina gosta de boneca. Menina não pode gostar de bola, menino não pode gostar de boneca. E claro, meninos e meninas não devem se gostar... pffff... que chatice.

Mas a sacada do livro é sensacional! Nunca tinha visto um livro infantil tratar a questão do sexismo na infância de forma tão direta e acessível à criança! Ele traz a ideia freudiana de castração e inferioridade das meninas de uma forma simples e sem rodeios. E ao final da história, quando finalmente Max reconstrói sua ideia das diferenças entre meninos e meninas - já que a primeira foi detonada por Ceci - percebe que, na verdade, existem os Com-pipi e as Com-perereca! Sim, somos diferentes... mas não tem nada faltando nas meninas!

O mundo para Max depois de Ceci

* além de um exemplar com cinco histórias, as quatro primeiras, já lançadas no Brasil, e uma inédita.

11 julho 2013

Olhos que veem o que ninguém mais ver...

O menino que espiava pra dentro
texto: Ana Maria Machado
ilustrações: Alê Abreu
editora: Global


Esse não foi um livro que me conquistou de cara. Li a primeira vez, gostei, mas achei ele um pouco confuso, longo demais para minha filha aproveitar. Depois surgiu a oportunidade de lê-lo novamente, e fui então me encantando com sua história. O texto de Ana Maria Machado trata de um dos assuntos mais incríveis para mim: o faz de conta infantil!

As crianças são mesmo incríveis na arte de fazer de conta, e o Lucas é craque dos craques. Por isso, sua avó costuma dizer, quando ele está distraído, sem ver nem ouvir ninguém, que ele está espiando para dentro. E está mesmo! Todo mundo espia pra dentro quando está dormindo, sonhando. Mas Lucas consegue espiar para dentro mesmo bem acordado. E num instante o espaço embaixo da mesa vira uma grande floresta, com árvores e animais selvagens, e o balançar numa rede, um veleiro enfrentando um mar agitado, com tempestades e piratas. Ah, e como eu sei como é isso... Letícia também adora espiar para dentro, e muitas vezes temos que atravessar a sala pulando em pedras invisíveis para não cair no rio perigoso, ou esconder debaixo do lençol para não ser capturados por um leão feroz. Eu adoro essa fantasia que ainda reside nela, e que já não acho tão facilmente em mim. Enquanto ainda está nela, incentivo sempre que posso, da melhor forma que posso, e quase sempre me divirto muito junto.

Ah, e Lucas tem um amigo imaginário, embora não use essa expressão. O amigo mora nos lugares para onde Lucas vai quando espia pra dentro, e juntos vivem todas as aventuras. Tatá, de Talento ou Tamanco, é mesmo seu fiel amigo. Contam os mais velhos que eu tive muitos amigos imaginários. Amigas, na verdade. Todas tinham nome e características bem claras. Coisa de filho único, diziam. Bom, só fui filha única por dois aninhos. Já minha filha, única aos seis, nunca teve amigos imaginários, ou pelo menos, nunca os dividiu conosco. Sempre brincou muito com suas bonecas, dava nomes a elas, atribuía atitudes humanas, mas suas amigas eram todas palpáveis. Aliás, sua boneca favorita é quase um membro da nossa família, sua amiga inseparável.

Mas bem, brincar com Tatá é tão divertido, que Lucas decide bolar um plano para ficar espiando pra dentro para sempre, ou pelos próximos 100 anos! Uma história divertida e viajante, sobre onde a imaginação infantil podem nos levar. No final do livro, Tatá vira um amigo real para Lucas, e eu suspeito que espiar para dentro ficou para ele ainda mais divertido.

As ilustrações são maravilhosas, cheia de encantos e fantasias. A capa já traz a brincadeira dos olhos vazados de Lucas, integrados com imagens "espiadas pra dentro" na primeira página, uma ótima sacada! A ilustração abaixo, tirada do blog do ilustrador, acompanha um texto lindo, que faço questão de transcrever para vocês:



"Tatá não respondeu logo. Como nesse dia eles tinham ido para um bosque cheio de fadas, elfos, duendes e gnomos, ele se distraia observando a atividade de todas essas criaturinhas. Quem estivesse olhando para fora só veria um menino contemplando abelhas, borboletas, lavadeiras e outros insetos, pelo meio das flores. Mas, espiando pra dentro, havia dois amigos e uma quantidade enorme de seres miúdos e diferentes escorregando em cogumelos, morando entre raízes, se pendurando em balanços de teia de aranha, viajando em favas ou brincando em cascas de nozes. Tudo muito longe daqui."

Como disse antes, é um livro com um texto extenso, uma história mais longa, mas que certamente empolga os pequenos. Aqui em casa, as vezes o lemos em etapas, mas ele sempre é bem aceito. Aliás, impossível esquecer a primeira vez que o li para Letícia, de uma vez só, e ao final ela me disse: "mamãe, eu também adoro espiar para dentro, né?". Não posso negar que fiquei espantada com a identificação tão imediata dela...

07 julho 2013

mais Suzy Lee...

Espelho
texto e ilustrações: Suzy Lee
editora: Cosac Naify


Sombra
ilustrações: Suzy Lee
editora: Cosac Naify


Ontem chegou pelo correio o livro que faltava para concluir a trilogia de Suzy Lee aqui em casa - os três títulos lançados no Brasil pela Cosac Naify. Embora valham muito a pena, seus preços são salgados, e eu tive que ter paciência para conseguir oportunidades de preços mais palatáveis e tê-los juntos comigo. Primeiro comprei Onda, depois Espelho, e agora chegou Sombra. Estou numa fase de fascínio com os livros de imagem. Fico encantada com a capacidade que alguns ilustradores têm de expressar sentimentos e situações com seus traços. Eu, que embora tenha algumas habilidades manuais sou um desastre com desenhos, fico babando com quem tem este talento. E talento, Suzy Lee tem de sobra.

O meu predileto é mesmo Onda. Pelo movimento, pelo azul, pelo respeito e admiração que tenho pelo mar, e pela possibilidade de imaginar a primeira vez de alguém diante do mar. Mas os outros também são sensacionais. Em Espelho, a menina depara-se pela primeira vez com seu reflexo no espelho: susto, medo, desconfiança e farra - muita farra - até que o reflexo cria vida própria. Na página do livro na Cosac Naify, além do link para ver a animação do livro, há, no final da página, algumas versões de narração para suas primeiras imagens, feitas pelos alunos da escola Carandá. Achei sensacional!
imagem do livro Espelho do site da Cosac Naify

Sombra traz as surpresas de uma menina descobrindo como sua sombra e a de outros objetos podem ser surpreendentes. Adoro este livro por ele abordar o faz de conta infantil, o que eu não me canso de admirar - sei que já perguntei antes, mas porque mesmo perdemos essa capacidade ao longo da vida? 

imagem do livro Sombra do site da Cosac Naify

E então uma maçã mordida no alto da cabeça transforma-se em uma coroa em sua sombra. Um aspirador de pó e algumas caixas, um elefante. Até que surge um lobo, e o real e as sombras começam a interagir. Não deixem de ver a animação do livro, aqui. Aliás, no ano passado, no festival SESI bonecos do mundo, tivemos a oportunidade de assistir ao lindíssimo espetáculo Sombras de Mão do grupo japonês Kakashi-za, e foi muito emocionando ver o que sombras são capazes de fazer.

Acho que os livros de Suzy Lee extrapolam qualquer tentativa de classificação etária. São indicados para qualquer idade - do bebê ao idoso - para criar e contar histórias, para brincar ou simplesmente para admirar. Agora juntinhos, os meus vão ganhar lugar de destaque em casa, para serem manuseados sempre que os olhos quiserem sonhar...

01 julho 2013

Distribuindo poesia...

A caligrafia de dona Sofia
texto e ilustrações: André Neves
editora: Paulinas

Como vocês sabem, Letícia trocou de escola este ano, e tem sido... digamos... um pouco difícil PARA MIM processar algumas mudanças. Algumas posturas em relação a alimentação e a condução de outras questões têm me deixado com o pé atrás - sorry, essa introdução é só um desabafo...

Apesar disso, no que se refere às questões pedagógicas, tenho ficado muito feliz com a condução das coisas. Letícia está muito bem adaptada e seus progressos em várias áreas são notórios. E o primeiro projeto do ano, que tratou de poesias e parlendas, me deixou muito feliz. Mais ainda com o fechamento dele, que se deu com um recital de poesias para o dia das mães. Emocionante define.

"O poeta
escreve poesia
para ser criança
todo dia"

Fernando Paixão

Com a pequena estudando poemas e poetas, lembrei-me deste livro e tratei de enviá-lo para a sala de aula. Acho que este foi o primeiro livro que comprei de André Neves - quando minha pequena ainda era uma bebezona - e depois vieram muitos outros. Hoje em dia, quando vejo seu nome numa capa, como autor ou como ilustrador, agarro logo o livro para conhecer, e quase sempre me apaixono. Acho surpreendente a estabilidade de André, como suas obras mantêm um excelente padrão, sempre - pelo menos na minha opinião. Acompanho muitos autores e ilustradores, gosto de seguir suas trajetórias, e para mim, poucos conseguem alcançar a estabilidade de qualidade dele.

"Ontem à tarde, quando o sol morria,
a natureza era um poema santo."
Castro Alves

Mas voltando para Dona Sofia, naquela época, eu sabia muito pouco sobre André Neves, e li o livro pela primeira vez, de pé em uma livraria, sem grandes expectativas. E foi sua história, tão doce e envolvente, que me conquistou em cheio. A história de Dona Sofia é encantadora: uma professora aposentada que dedica seus dias a cuidar de flores e a decorar as paredes de sua casa com.. poesia. Isso mesmo, seu amor pelos versos transbordava pelas paredes da casa, e ela, com sua linda caligrafia, as escrevia. Até o dia em que, cheias, as paredes não ofereceram mais espaços para poesias. O que faria Dona Sofia? Além das belíssimas ilustrações de André Neves, o livro trás vários trechos de poemas, dos mais variados poetas. Impossível um amante de poesias não se apaixonar.

"Há que se afirmar o corpo até o último sempre.
Exercer-se como instrumento capaz 
de receber a poesia do mundo"
Bartolomeu Campos de Queirós

A saída para o impasse de dona Sofia é o mais lindo possível: ela passa a escrever os versos, que já não cabem nas paredes, em cartões coloridos, decorados com flores prensadas, e os distribui a todos os moradores da cidade. É Seu Ananias, o único carteiro da cidade, quem as entrega. E a partir daí, a vida de Dona Sofia, de Seu Ananias, e dos moradores da cidade, começa a mudar. Todos começam a viver e dividir poesia. Uma história para pensar no prazer de ser lembrado por alguém, no valor do que se divide com amor (que dinheiro nenhum pode pagar), e no quanto pequenos gestos podem trazer efeitos surpreendentes. Eu, fico imaginando no quão delicioso seria um dia receber pelo correio um cartão com a linda caligrafia de Dona Sofia...

"Todos os dias deveríamos ler um
bom poema, ouvir uma linda canção,
contemplar um belo quadro
e dizer algumas bonitas palavras.

Pensar é mais interessante
que saber, mas é menos
interessante que olhar."
Goethe

14 junho 2013

A revolução do pica-pau

Viveiro de Pássaros
texto: Braguinha
ilustrações: Tatiana Paiva
editora: Rocco Pequenos Leitores

Depois de Festa no Céu, tenho descoberto os ótimos livros infantis de Braguinha, e me encantado com seu jeito especial de escrever. Pela editora Rocco, com ilustrações da super talentosa Tatiana Paiva, são três títulos: Festa no Céu, Viveiro de Pássaros e Festival da Primavera (esse último eu ainda não tenho – ó que dica boa de presente pra mim? rsrs). Só de olhar as três capas já fica visível a preferência pelos pássaros que tinha o autor, que além de Braguinha, também era conhecido por João de Barros - nome de pássaro - embora tivesse como nome verdadeiro Carlos Alberto Ferreira Braga.

Viveiro de Pássaros rapidamente se tornou um dos nossos livros preferidos. Todo rimado em versinhos, o texto é envolvente e lindo, possibilitando muitas reflexões. A história se passa no viveiro de pássaros de seu Manduca, que, junto com seu filho Pinduca, caça os passarinhos e os prendem em cativeiro. E “tem patativas, tem sabiá, tem tico-tico, tem tangará, tem pintassilgo, tem curió, tem pintarroxo, tem chororó” e mais um monte de pássaros. Ah, mas um dia, Pinduca pegou um passarinho novo e diferente dos que tinham no viveiro. Seu pai bem que tentou avisar: “Pinduca, solta esse bicho! Esse pássaro não presta. É o moleque mais teimoso que existe em toda floresta. Atrapalha a cantoria, faz barulho, faz berreiro. Vai fazer desarmonia, vai acabar com o viveiro”. Mas Pinduca não deu ouvidos aos avisos do pai, e lá levou o pica-pau para junto dos outros pássaros. Ahaaa, e foi aí que tudo começou a mudar! Porque o pica-pau é mesmo um bichinho tinhoso, e tratou logo de encontrar um jeito de tirar todo mundo do cativeiro. Não vou contar o resto da história, mas posso adiantar que a passarada, ao comando do pica-pau, começou uma revolução no viveiro.

Não posso negar o quanto livros que falam sobre a liberdade dos animais me encantam. Aliás, já falei sobre isso aqui, com o maravilhoso Para Criar Passarinho de Bartolomeu Campos de Queirós, que fala com enorme delicadeza da importância da liberdade, para passarinhos e para toda a gente, e aqui, com Flop, de Laurent Cardon, que não usa uma única palavra para contar a história de um menino e seu peixinho, e do quanto o amor não combina com prisão. E isso me lembra a minha eterna dicotomia em relação aos zoológicos: amo e odeio! Amo porque é um dos únicos lugares em que posso ter e proporcionar à minha filha contato com os animais não domesticados. Odeio pelo imenso pesar que sinto ao ver um pássaro, que teria o infinito do céu, preso em uma gaiola, por maior que esta seja, ou um urso andando de um lado para outro de uma jaula. Que bicho estranho é o homem...


E por falar nas estranhezas do bicho homem, lembrei-me da exposição Brinquedos que moram nos sonhos, que encantou a todos os soteropolitanos nos primeiros meses deste ano. Dentre os vários brinquedos construídos expostos (2 mil, na verdade), um me chamou atenção de um modo especial: o Jardim Humanológico, que apresentava em madeira, diversos animais visitando com seus filhotes, as jaulas em que homens, separados por etnia (brancos, negros e asiáticos) estavam expostos. É mesmo para refletir.

 

Mas Viveiro de Pássaros vai além dessa temática, e fala também sobre como pequenos oprimidos podem se unir com inteligência e persistência contra o opressor. Nesse mundo louco que vivemos, esquecemos tantas vezes disso... perdemos a capacidade de olhar crítico, de perceber o que nos aprisiona e as possibilidades de buscar a liberdade.

Esta semana tivemos manifestações em São Paulo contra o aumento da tarifa de transporte público e em Fortaleza contra a violência urbana, para citar duas que tenho mais proximidade, e as opiniões têm se dividido. Só posso dizer que acredito que juntos somos capazes de muito, e que a não manifestação de insatisfações é a forma mais eficiente de permanecer nelas. E mais, acredito que as novas gerações possam se sair melhor do que nós nessas questões, por isso me alegra tanto ler os lindos versos de Braguinha para minha filha.

Para terminar, como fiz com Festa no Céu, vou colocar o trechinho que foi destacado na contracapa do livro, e que é meu favorito. Digam se não é um livro encantador?


 Viveiro de pássaros,
Bonito de olhar.
Mas quanta tristeza
No alegre cantar.

Menino, nesse mundo
Existe tanta coisa boa para você brincar
Mas as asas dos passarinhos
Foram feitas para voar

Viveiro de pássaros,
Bonito de olhar.
Mas quanta tristeza
No alegre cantar.

Vejam também o texto de Zeca Baleiro sobre o livro: 


SORTEIO!!! ÚLTIMA CHAMADA!!!



Termina hoje, à meia-noite, o prazo para concorrer ao lindo livro Onda de Suzy Lee, no sorteio do Cachinhos Leitores. Basta deixar um comentário neste post com seu nome, cidade e e-mail, contando como chegou ao Cachinhos Leitores. Corre lá gente, vocês têm o dia todo para fazer isso!!! O sorteio será amanhã!