09 dezembro 2019

A morte, a vida e um desabafo

O urso e o gato-montês
texto: Kazumi Yumoto
ilustrações: Komako Sakai
editora: Outono

Como abordar com uma criança um tema tão difícil para nós, ocidentais, quanto a morte? Talvez a maioria até pense que isso seria desnecessário, afinal, infância não combina com algo tão triste assim. Eu mesma já pensei isso. Logo eu, que tive que conviver com a morte de forma tão próxima no início da adolescência. É como se negar a finitude da vida e do que está ao nosso redor os tornasse infinitos.

Mas não torna. Afinal, a morte é a única certeza, não é? E seguimos ignorando esse princípio básico, quase uma cláusula pétrea no contrato da vida. Preferimos esquecer tudo o que tivemos enquanto houve vida, e só pensar no que perderemos pelo seu fim. Isso dificulta um bocado as coisas, e por isso acho que esse livro deveria ser lido por todos, independente da idade.

Ele foi escrito e ilustrado por japoneses, e gosto de pensar que talvez por isso tenha uma dose tão equilibrada de sensibilidade e lucidez na abordagem do tema. Ele traz a trajetória que o urso teve que percorrer para passar pelo luto da perda de seu melhor amigo, e sair do outro lado para seguir sua vida. Um livro que fala da morte sem rodeios, mas também sobre amizade, companheirismo e lealdade, e sobre algo que é imprescindível para superar a dor de uma perda: o reconhecimento desse sentimento. O luto faz parte da vida, e por mais doloroso que seja, qualquer que seja a idade, precisa ser vivido.

Eu tinha 13 anos quando minha mãe se foi. Minha irmã caçula tinha 4 anos, e coube a mim, por uma circunstância, explicar a ela que não, a mamãe não voltaria, nós não a veríamos. Nunca mais. Ela já sabia da morte, mas não tinha conseguido entender o que aquilo significava. Eu poderia ter chamado um adulto, eles estavam no cômodo ao lado, mas preferi explicar eu mesma, da maneira que me foi possível. E consolar o choro sofrido que veio com a minha resposta. Já não lembro exatamente o que disse, mas sei que continha céu e estrelinhas.

Eu também sentia falta da mamãe, e também não entendia muito bem onde aquilo nos levaria. Talvez não devesse ser assim, mas foi. Por isso ressignificar o luto e a perda é essencial para seguir vivendo - assim como fez o urso. Porque toda perda envolve uma parte que vai e outra que fica. E se algo ficou é porque a vida precisa continuar...

22 novembro 2019

Malévola e o poder das sombras

Vou, com esse post, retomar a sessão O que os cachinhos assistem, que acabou sendo tão pouco usada. Sim, no cabeçalho do blog temos as sessões O que os cachinhos leem, O que cachinhosouvem, O que os cachinhos assistem, O que os cachinhos curtem, possibilitando que eu traga percepções sobre obras escritas, cantadas, filmadas e o que mais nos movimentar.


Tenho que admitir que Malévola mexe muito comigo. Ainda lembro do dia que decidi assistir seu primeiro filme. Estava indo para o trabalho e vi um outdoor no caminho com aquela foto impactante de Angelina Jolie com chifres e um olhar perturbador. Não tinha a menor ideia do que se tratava, mas arrastei o marido ao cinema naquele mesmo dia. Foi já assistindo o filme que me dei conta que a protagonista era a fada má que amaldiçoa a Bela Adormecida.

Adoro quando um personagem de ficção faz isso comigo. Acho a história do filme interessante, de fato, mas é ela, Malévola, quem rouba toda a minha atenção. Os fatos e personagens só dão os contornos necessários para que ela se mostre. E isso acontece, claro, porque rola comigo uma identificação clara e imediata com essa figura tão controversa quanto encantadora.

Como Malévola se deixa tomar por seus instintos mais perversos e traz a tona pela primeira vez toda a sombra que há em si. E como Malévola, apesar de toda a dor e mágoa, se permite, no seu íntimo, fazer o amor renascer. No segundo filme, o claro dilema entre o bem e o mal, a luz e a sombra, encarnado dentro da mesma personagem, fica ainda mais forte. Malévola me traz a difícil lembrança de que somos, cada um de nós, o encontro dessas duas poderosas forças. E que fugir ou esconder essa realidade, por mais dolorosa que seja, só causa mais sofrimento e dor.


Há algum tempo ouvi no canal de Rossandro Klinjey sobre quanta energia gastamos para esconder de nós mesmos as nossas sombras. Energia que nos falta para agir positivamente sobre elas. Energia que podia ser usada para encará-las com serenidade, com acolhimento, com autoaceitação. Perceba que isso é mais do que reconhecer-se imperfeito, assumir defeitos. Minha inveja, meu ciúme, minha mesquinharia, meu egoísmo (e vou parar por aqui para não assustar ninguém)... são parte do que sou, ajudam a estruturar meu eu, e se podem me colocar em atitudes reprováveis, podem também me movimentar para atitudes positivas e amorosas – comigo mesma ou na relação com os demais.

Porque nossas sombras são forças poderosas, assim como as de Malévola, que podem destruir, amaldiçoar e ferir profundamente - e escondê-las só potencializa seu poder destrutivo. Mas quando são levadas à luz, olhadas e acolhidas, podem ser usadas para construir e prosperar. Só quando você se olha como um todo, como sombra e luz, é capaz de fazer o exercício que Malévola é levada ao final do filme: “nunca esquecer quem você é”.


Desse ponto em diante esse texto traz alguns spoilers sobre o segundo filme, Malévola: Dona do Mal. Se não assistiu o filme ainda, talvez seja melhor não avançar com a leitura.

No segundo filme, identifico a simbologia dessas questões claramente no momento em que Malévola é levada a esconder quem é, suas origens e suas sombras, e se mostrar como os outros (os humanos) esperam que ela seja. Entretanto, é aí que ela é confrontada e tem suas fragilidades expostas com crueldade – fazendo com que suas sombras a dominem e sua reação seja feroz. Para mim, uma clara alusão ao poder nefasto que surge quando as sombras são escondidas.

A partir desse momento, todos, inclusive Aurora, a enxergam apenas por suas sombras. Ela é o mal, a treva, a destruição – e precisa ser aniquilada. Mas a história dá uma reviravolta quando Malévola se reencontra com sua ancestralidade, suas origens. Encontra outros seres alados e de chifres, como ela, percebe de onde vem, entende a origem de muitas de suas sombras. Não é um encontro fácil. Há dor e ressentimentos, e a ideia de vingança parece em alguns momentos ser a única saída.


Reconhecer nossa ancestralidade e a origem das sombras que carregamos, é fundamental no processo de autoconhecimento. É a partir daí que passa a ser possível entender e acolher o nosso verdadeiro EU, e fica muito mais claro escolher o caminho a seguir. Malévola faz sua escolha, e então a transformação pode acontecer. A simbologia desse momento no filme me tocou profundamente, pois utiliza a figura da fênix, o pássaro que ao morrer, queima e ressurge das próprias cinzas.

Há muitos anos, quando ainda estava na faculdade, participei de uma atividade terapêutica e ouvi de um colega do grupo que eu o fazia lembrar a fênix, com meus processos de recomeço e transformação, e isso me marcou profundamente e de maneira muito positiva. Desde aí a figura da fênix sempre me inspira. Ver Malévola, morta pelo ódio que despertou, queimar e ressurgir das cinzas na forma de uma fênix gigante foi para mim o ápice dessa intrigante viagem pela personalidade e conflitos da personagem.

O final do filme, quem assistiu sabe, deixa claro que Malévola constrói um equilíbrio entre suas luzes e sombras, e pode finalmente transitar livremente entre os papéis que escolheu assumir: a mãe da humana Aurora e um ser das trevas.

11 novembro 2019

As delícias e desafios de se reinventar

Malvina
textos e ilustrações: André Neves
editora: DCL

O aniversário da pequena está chegando, e como todos os anos, isso me deixa sensível, saudosa e reflexiva. Será seu 13º aniversário, de pequena ela já não tem nada, mas a sensação de renascimento em mim permanece. Lembro do quanto ela foi aguardada e desejada. Lembro do quanto tive medo de não dar conta. Lembro de quantas alegrias e tristezas já vivemos juntas. Lembro do quanto tive que aprender. Aliás, desaprender para aprender diferente, na maior parte das vezes. Foi um aprendizado imenso para nós duas. E por isso acho que renasço a cada novembro que vivo.

Este ano, dentre as muitas reflexões que fiz, me peguei pensando o quanto já errei com ela. Sim, errar era e continua sendo a única certeza que tenho deste que embarquei nessa de ser mãe. Mas essa certeza não reduz o desejo de errar pouco, ou pelo menos de acertar mais. E a culpa materna, essa implacável que está quase sempre presente, mesmo que sutilmente, fica do meu lado nessas horas, me ajudando a lembrar que ela passa tempo demais nas telas, que ao longo desse ano eu fiquei ausente muitas noites trabalhando e que já não tenho o mesmo ânimo do passado para atividades culturais ou ao ar livre com ela... pffff... verdades difíceis de assumir.

Estava perdida nos meus pensamentos quando, passando pela estante, Malvina me sorriu alegre. Por que Malvina é assim, um sopro de alegria. Ela é uma menina que vive a inventar coisas legais, como o aparador de sorvete, o guarda-chuva para sapatos e o chapéu ventilador. Uma menina com tanta criatividade e imaginação que contagia a todos. Bom, a quase todos. É que se Malvina é boa em inventar, a mãe de Malvina é boa em se preocupar. Ela fica preocupada com as invenções da filha, claro, mas nem tem tempo de se demorar muito nessa preocupação, porque ela tem muitas outras, como a casa, as notícias do jornal e em não pisar em formigas. E ela se preocupa principalmente com o que os vizinhos pensam das suas preocupações - o que é muito comum em pessoas preocupadas.

Foi por isso que Malvina decidiu inventar a maior das suas invenções: uma máquina de despreocupação! Uma máquina para resolver todos os problemas do mundo, e então deixar sua mãe despreocupada. Mas a máquina não funcionou. E pior, aconteceu algo terrível com Malvina: ela perdeu todas as suas ideias, e ficou com a cabeça completamente vazia. E agora, o que ela faria sem invenções? Foi quando a mãe viu Malvina preocupada de verdade pela primeira vez na vida que ela resolveu que tinha que inventar algo para ajudar a filha, e fez uma invenção que realmente funcionou. E terminou o dia sem preocupação alguma.

Malvina diz tanto sobre essa relação mãe e filha, desse jeito simples e encantador que apenas bons livros infantis são capazes. Hoje foi ela quem me aqueceu o coração, ao me lembrar o quanto propiciei criatividade e imaginação nos primeiros anos da minha pequena adolescente. As brincadeiras com caixas, tintas, tampas de panelas e o que mais surgisse. As ideias para o natal ou para presentear os primos. As histórias, os teatrinhos, as conversas viajantes. Tantas risadas contagiantes. Inventar sempre foi uma prioridade respeitada nessa casa.

Mas como a mãe de Malvina, em alguma curva da vida, me deixei inundar com preocupações, inclusive aquela inevitável para os preocupados. As vezes sinto que não consigo parar as preocupações, que elas se emendam umas nas outras. É, vou ter que inventar a maior invenção de todas: me reinventar! Quem sabe assim eu não termino o dia sem uma preocupação sequer?

03 novembro 2019

Para nunca esquecer...

Elefantes nunca esquecem!
texto: Anuska Ravishankar
ilustrações: Christiane Pieper
editora: Manati

Um grande e assustador temporal faz um filhotinho de elefante perder-se de sua manada, deixando-o sozinho na floresta, assustado e indefeso. As coisas iam muito mal até que ele chega a um rio onde uma manada de búfalos se refresca e mata a sede. Mesmo assustado no início, ele começa a interagir e se divertir com um filhote de búfalo, mas um perigo aparece e todos precisam fugir. É nesse momento de fragilidade que os búfalos o acolhem, e daquele momento em diante o elefantinho perdido passa a fazer parte da manada de búfalo. Mesmo tendo orelhas muito grandes, focinho comprido demais, cor esquisita e não conseguindo mugir, foi com os búfalos que ele se sentiu em casa, pertencente a uma família.



Até o dia em que, já adulto, se refrescando com os búfalos em um rio, uma manada de elefantes se aproxima. E entre BARRRAAAM e MUUUUUUU ele fica dividido sobre quem ele é afinal: elefante ou búfalo? Ah, mas, no fim, a resposta era uma só...

Fiquei apaixonada por essa história, contada pela indiana Anuska Ravishankar desde a primeira vez que a li, de pé numa livraria. E na mesma hora me veio à mente como ela poderia ajudar numa conversa sobre inclusão e adoção. Por isso ele foi o presente para uma menininha muito querida por nós, e que faz parte de uma família por meio de laços muito mais fortes e importantes que os de sangue: os feitos pelo amor!

Acho que os livros infantis são instrumentos maravilhosos para nos ajudar a ter conversas por vezes difíceis - muitas vezes mais difíceis para nós, adultos, que para eles, crianças. Ou mesmo que não haja exatamente uma conversa, pode ajudar a fazer pensar e processar coisas que ficam quietinhas e doídas no peito. Foi assim com Menina Bonita do Laço de Fita, livro maravilhoso que fala sobre diferenças raciais e que eu contei aqui como nos ajudou.



Elefantes nunca esquecem! é um livro para nos lembrar o que realmente importa ser lembrado nessa vida, o que faz sentido na nossa trajetória. A resposta pode ser muito simples, mesmo que seja na contramão do que se convencionou achar...



28 outubro 2019

Não julgue um livro pela capa... Não julgue um menino pela cara...

Extraordinário
texto: R. J. Palacio
ilustrações/Capa: Tad Carpenter
tradução: Rachel Agavino
editora: Intrinseca

Sei que esse é um livro que a maioria já conhece, e se não o leu ainda provavelmente já assistiu sua adaptação para o cinema. Mesmo assim, sei que ele é perfeito para o meu retorno ao Cachinhos. Extraordinário é especial demais para mim, e não faltam motivos para isso.

Eu já tinha visto sua capa algumas vezes nas livrarias, físicas e virtuais, mas confesso que nunca me interessei por ele. Novamente meus preconceitos idiotas! Associei, sabe-se lá porquê, a algumas coleções de livros bobos para adolescentes que tinha tido contato antes. Tem muita coisa ruim sendo publicada para esse público, não muito diferente do que acontece com os infantis, e o motivo é quase sempre o mesmo: subestimar as crianças e adolescentes, tratando-os como incapazes de compreender ou aproveitar uma leitura inteligente e/ou sensível. Nem tenho paciência para isso. De qualquer modo, no final das contas, a boba fui eu, de ter perdido a oportunidade de conhecer antes esse livro lindo. Ainda bem que a vida deu uma mãozinha e arranjou um jeito maravilhoso dele chegar até mim.

A filha e um coleguinha da escola estavam fazendo um curso juntos nas manhãs de sábado. Nós e a mãe do menino nos revesávamos numa carona solidária, e naquele dia acertamos que seríamos nós a levá-los e buscá-los, já que precisávamos levar o carro à oficina que ficava perto do curso. Pois bem, os deixamos na porta do curso, e ele acabou deixando no carro um livro que tinha pego na biblioteca da escola, e eu o fiquei folheando enquanto o marido dirigia até a oficina. Seriam algumas horas até o serviço terminar e irmos pegá-los novamente. E foi por puro tédio que comecei a ler Extraordinário, sentada em um banquinho de plástico, entre mecânicos e peças de carros.

O livro traz a história de August, um menino diferente. Portador de mutações raras, ele tem uma síndrome que deixou seu rosto disforme. Para além da sua aparência, Auggie teve que lutar pela vida desde que nasceu, e as diversas cirurgias que fez, além de garantir melhor qualidade para sua vida, como a capacidade de respirar e se alimentar sem a ajuda de aparelhos, o deixaram longe da escola durante os seus primeiros 10 anos. É nesse ponto que a história começa, com a estabilidade do seu quadro clínico e a possibilidade de ele ingressar numa escola regular.

Mesmo quem não leu o livro ou assistiu o filme pode imaginar os desafios que um menino de 10 anos que até então só tinha tido aulas em casa com a mãe e tem um rosto que causa reações de medo, repulsa e até nojo, teve ao entrar no 5º ano de uma escola tradicional. Mas preciso contar o que me deixou mais encantada com a história de R. J. Palacio: a proposta de contar uma história tão forte quanto essa pela versão dos seus diferentes personagens. Simplesmente amo esse tipo de abordagem. Assim, o livro é estruturado em oito partes, três com a narração de August, e cinco a partir da visão de outros personagens, como sua irmã Via; o namorado dela, Justin; a amiga de Via, Miranda; e Summer e Jack, amigos novos da escola de Auggie. Perceba que nenhum dos narradores é adulto! Toda a história é contada por personagens na infância e adolescência.

Achei essa proposta fantástica por dois motivos. Primeiro porque nos lembra que tudo que acontece tem sempre pelo menos dois lados - na verdade tantos lados quanto forem as pessoas envolvidas naquilo. Então é possível entender melhor o que leva alguém a uma atitude cruel ou egoísta, ou a uma atitude de fraqueza ou covardia. Me fez lembrar como precisamos de muito mais empatia para entender os acontecimentos da vida sem julgamentos e injustiças.

O segundo motivo é porque, embora a história toda gire em torno de August e sua trajetória pelo seu primeiro ano de escola, cada personagem traz sua versão cheia de questões próprias, e então o foco não fica tão pesado sobre ele. A história é leve e cheia de possibilidades. Não é a síndrome ou o rosto de Auggie, é como cada um, de acordo com suas memórias e bagagens, medos e angustias, encara a sua relação com ele, e como isso se conecta com diversos outros fatos de suas vidas. Não é simplesmente um livro sobre bullying, ou sobre os sofrimentos de uma pessoa com uma síndrome rara, é um livro sobre sentimentos, sobre relacionamentos, e sobre exercitar se colocar no lugar do outro. Adoro lembrar que esse emaranhado tão sensível e complexo foi pensado para o público infanto-juvenil, com todo o respeito e seriedade que eles merecem!

Fonte: www.intrinsica.com.br

Preciso dizer que a história de August rendeu outros três ótimos livros. Auggie e Eu eu comprei logo depois de ler o primeiro, absolutamente empolgada com a história. Mas como bem destaca a autora, não se trata de uma continuação do primeiro livro, mas a versão da mesma história contada por três personagens importantes que não tiveram voz na primeira publicação: Julian, o garoto que desencadeia uma sequência de crueldades com Auggie; Christopher, o seu primeiro amigo e Charlote, uma amiga da escola que sempre se manteve "neutra". O  Somos Todos Extraordinários é uma versão mais infantil, abordando o tema de uma maneira ainda mais leve para os menorzinhos. Já o 365 dias extraordinários traz 365 preceitos do sr. Browne, o maravilhoso professor de Auggie. Nem preciso dizer que ele rendeu também um filme, que é lindo, emocionante, e fico feliz em dizer, extremamente fiel ao livro.

Por fim, queria dividir com vocês o que sem sombra de dúvidas mais me emocionou no livro e me fez chorar copiosamente no meio de uma oficina mecânica - nem tentem imaginar a cena. Os conflitos de Isabel e Nate, pais de Auggie, sobre mandar o filho para a escola ou não. Os receios dele sofrer, o desejo de vê-lo trilhando seu caminho como um menino comum, o medo de errar. Acho que só um coração de mãe/pai pode ter dimensão do que tudo isso significa, e o meu se conectou completamente com os deles...

25 outubro 2019

Voltei!

5 anos.
5 anos! Na quase totalidade desse tempo tive certeza absoluta que jamais voltaria a escrever aqui. Não tirei o blog do ar porque tenho um carinho imenso por tudo que deixei aqui registrado, e porque sei que seu conteúdo pode ajudar muita gente por aí. Mas a sensação quase sempre era que não havia sentido em voltar...

Posso dizer que foi porque a filha parecia cansada dos livros, porque eu comecei a trabalhar demais, porque outros interesses me sugaram, mas sendo sincera, sei que embora tudo isso seja verdade, foram dois os principais motivos. O primeiro eu até já falei em um post aqui, que é o meu perfeccionismo (ou seria autosabotagem?). O texto tinha que surgir com uma inspiração maravilhosa, e se ela não vinha do jeito que eu idealizava, era melhor nem começar. E se começava ficava parado em busca desse ou daquele detalhe, às vezes uma frase, às vezes uma foto ou imagem. Então, quando um certo desgaste veio (e o que nessa vida não passa por desgaste com o tempo?) e a inspiração rareou, eu simplesmente não conseguia mais escrever, paralisada nos meus ideais de "perfeição".

O segundo motivo é que a exposição me incomoda. Eu viro e reviro, mas a verdade é que a exposição das redes sociais é um desafio enorme para mim. Uma relação de amor e ódio, sabe? Tenho tanto a falar, e tanta vontade de falar, mas temo me expor. Não é a toa que esse blog foi por dois anos um blog anônimo. De certa forma os dois motivos se entrelaçam, e falam muito sobre a minha insegurança, meu medo de não ser boa o suficiente. Sim, eu já fiz muita terapia kkkkk

Mas o fato é que alguma coisa mudou nestes últimos cinco anos. E gosto de pensar que, além de coisas práticas como a terapia, a meditação e outros esforços de autoconhecimento, tem algo com um peso enorme nisso tudo: a idade! Pois é, estou mesmo ficando velha, e junto com os fios grisalhos que eu adoro desfilar, tem surgido a sensação de que não tenho mais muito tempo para medos e inseguranças. Mais que isso, a sensação de que estou no melhor momento da minha vida! Veja só: ainda tenho vitalidade e força física, acredito que estou no auge da minha clareza mental, e já acumulo os benefícios que só as experiências e vivências nos dão. Não tem depois, a melhor hora é agora!

Por isso voltei! E embora seja uma pena que esses cinco anos já não possam ser resgatados, sei que ainda tenho muito a dizer sobre livros infanto-juvenis. Sim, porque talvez a mudança mais significativa que tive nesse período é que agora sou mãe de adolescente! Geeente! Quase treze anos e nem consigo acreditar nisso. Morro de saudades das bochechinhas e da vozinha infantil, mas morro de amores com essa menina que já calça os meus sapatos e prepara o jantar, e tem questionamentos e posicionamentos que me enchem de orgulho. Sim, claro que tem as birras e as chatices também, e os momentos de só querer seguir a manada, que me enlouquecem, mas a verdade é que tem sido incrível descobrirmos como viver esses papéis de mãe e filha nesse mundo misterioso da adolescência.

E é isso. Voltei. Ainda não sei como será, se vou conseguir ficar, se vou fugir novamente, se trarei mais livros infantis ou adolescentes (quem sabe adultos?), se manterei o formato de sempre trazer alguma história com a minha cachinhos (agora ela é uma adolescente, né gente? tenho que ter muito mais cuidado com a sua privacidade). Certo é que manterei o mesmo papo franco e o mesmo cuidado com o que recomendo e comento, o mesmo amor pelas palavras, e o mesmo carinho com quem me ler. Já estou preparando o texto para um livro mega especial para nós, e logo ele estará publicado.

Obrigada por estar aqui comigo. Mesmo que você não tenha cachinhos, mesmo que você nem goste tanto assim de ler, vai ficando... os livros infanto-juvenis podem te surpreender!

Fonte: pixabay.com

31 dezembro 2014

Para terminar 2014...



2014 foi para mim, dos anos mais intensos e complexos. Daqueles que passam e parece que vivemos pelo menos uma década nele. Teve de tudo um pouco - ou muito. Riso, choro, desesperança, fé, garra. Bom, teoricamente todo ano é assim, mas em 2014 tudo foi muito forte. Não necessariamente ruim nem bom, mas intenso.

Foram muitos desafios enfrentados nesse ano, algumas batalhas perdidas, mas muitas vitórias também. Assim, termino o ano muito feliz, porque apesar dos percausos estou fortalecida, comigo mesma, com minha família e amigos, e com minha vida. Foi um ano de muitas descobertas e aprendizados!

E foi um ano em que o Cachinhos Leitores silenciou... Foram apenas quatro posts além desse último, nenhum no segundo semestre. Estava com a cabeça a mil, vivendo as emoções do ano, por isso me dei esse tempo. Ainda não sei o que esperar de 2015, por isso não farei promessas de final de ano. Por enquanto ele é um animal selvagem a espreitar e espiar, mas está tão perto que logo me dirá a que veio. Então, venho apenas desejar a todos um 2015 de esperança e saúde! Porque sem elas não dá. Ah, e se possível, de muitos livros!!!

21 maio 2014

poesias, cordeis e frutas!

O riso da melancia
texto: Maria Augusta de Medeiros
ilustrações: Bruna Assis Brasil
editora: FTD

Quem não gosta de frutas? Aqui em casa nós adoramos! E quem não gosta de poesia? Agora imagine juntar tudo em um livro com as delicadas e divertidas ilustrações de Bruna Assis Brasil? O riso da melancia foi uma gostosa surpresa que veio da biblioteca da escola, e nos conquistou de cara. A autora, Maria Augusta de Medeiros, classifica o livro como cordel, e é dessa forma, em estrofes de seis a oito versos, que ele apresenta 12 deliciosas frutas bem brasileiras, além da salada de fruta que encerra o livro. Duas estrofes para cada fruta, e elas são apresentadas com suas características, características de suas árvores e histórias engraçadas as envolvendo!

Tem a jabuticaba, a amora, a melancia, a carambola, a manga, o açaí, a graviola, o melão, a goiaba, o abacaxi, o mamão e a seriguela, além da salada de frutas! Eita, quanta delícia. Nem sei de qual eu gosto mais... Quanto ao poema, meu favorito é mesmo o da melancia, que brinca com o fato da fatia da melancia, cortada corretamente, lembrar um largo sorriso...



Ah, mas eu não poderia deixar de destacar também a seriguela, que como o poema lembra, nasce no Ceará, minha terra natal... e como esquecer as tardes sentada nos galhos carregados chupando os frutinhos amarelos e avermelhados? Alegria da criançada é um pé de seriguela carregado no quintal!


Não é lindo?

Hum, frutas e boa leitura: taí uma dupla que não devia falta na vida de ninguém! Principalmente de um alguém criança!!!

16 maio 2014

A magia de Oz!

O mágico de Oz
Warner Bros

Dizem que uma boa história jamais envelhece, e essa é uma grande verdade... Lembro tão bem do quanto fiquei encantada ao assistir O mágico de Oz, filme lançado antes mesmo de minha mãe nascer - 1939! Assisti muitas vezes e nem pestanejei antes de comprá-lo para a filha, então com 4 anos. E a menina, nascida no século XXI, se apaixonou, e este foi sem dúvidas o filme mais assistido até hoje nesta casa! Ela assistiu tanto que chegou a pedir para assistir apenas em inglês ou espanhol, acho que para variar um pouco rsrsrs

A história também foi assistida no teatro (uma versão linda de uma trupe cearense) e virou até tema da festinha de 6 anos, comemorada na escola. Não demorou muito pra pequena pedir uma versão em livro, o que já era esperado. O que me surpreendeu foi a versão escolhida por uma menina tão pequena - e ela sempre fez questão de lê-lo sozinha. São 223 páginas, embora numa versão reduzida. Foi o primeiro livro "grosso e de poucas figuras" que ela ganhou. Foi o primeiro livro a não ser lido de "uma sentada só". A primeira vez que ela usou um marcador de livros (suspeito que esse tenha sido o real motivo da escolha kkkk). Tá, a leitura ainda não terminou, e está esquecida há meses, mas o marcador parou além da metade, e suspeito que embora ainda vá demorar, ele ainda será lembrado e concluído...

O mágico de Oz
texto: L. Frank Baum
ilustrações: W. W. Denslow
tradução: Sérgio Flaksman
editora: Zahar

E em meados do ano passado, com a pequena encantada com as aulas de teatro da escola nova, me rendi a tentação de comprar mais uma versão linda dessa história imortal: a adaptação para o teatro de Tatiana Belinky. Dividida em atos, e com descrições das cenas, a história está toda contada em forma de diálogo entre os personagens, pronta para ser encenada. Ah, e as ilustrações são de André Neves! Preciso dizer mais alguma coisa? Vale a pena conhecer!

O mágico de Oz
adaptação: Tatiana Belinky
ilustrações: André Neves
editora: Paulinas

Bom, na verdade há ainda uma outra versão aqui em casa. Essa foi comprada em um sebo da minha cidade há muitos anos, quando a filha ainda era um bebezinho. Li e guardei entre os meus livros, imaginando que ainda demoraria muito para apresentá-lo à Letícia. Pois bem, numa ida ao shopping com o pai, surgiu o pedido e ele foi atendido com a versão verde lá de cima. Ah, ser mãe é viver sendo surpreendida mesmo...

O mágico de Oz
texto: L. Frank Baum
ilustrações: Marcelo Pacheco
tradução: Luciano Machado
editora: Ática

Para encerrar vou deixar uma foto da minha pequena Doroty comemorando seus 6 aninhos!


21 abril 2014

Uma amizade improvável e os riscos do "PRÉ-CONCEITO"

Trudi e Kiki
texto e ilustrações: Eva Furnari
editora: Moderna

Preciso confessar algo quase inconfessável para um amante da literatura infantil brasileira: eu não gostava de Eva Furnari (o verbo no passado talvez me ajude a ter quem termine de ler este post). Pois é. Quando comecei a querer conhecer e ler um pouco mais sobre literatura infantil, fui com enorme ânsia buscar as referências da área. Claro, queria conhecer os grandes autores e ilustradores, reconhecer seu estilo, seu traço. E foi assim que cheguei aos livros de Eva Furnari - é, eu devo ter tido contato com eles quando criança, mas confesso, não me recordava.

Bom, comecei como ela começou, pelos livros ilustrados, sem textos. Minha filha era uma bebezona e eles eram perfeitos para ela. Mas confesso, nunca fizeram muito sucesso, nem com ela, nem comigo. Embora as imagens e as histórias fossem bastante engraçadas, eu achava chato, e o pouco interesse da filhota não me animava muito. Fiquei um tempo sem lembrar deles, até que, com a filha conseguindo se concentrar em leitura, procurei seus livros com texto. Tentei um, dois e resolvi dar meu veredito: eu não gostava dos livros de Eva Furnari! E isso era um segredo secretíssimo, afinal, era certo que o problema estava comigo, não com suas obras, sempre tão admiradas e alardeadas. Segui com isso na cabeça e passei a ignorar os seus livros, onde quer que estivessem.

Até que a filha, sempre mais sábia que a mãe, resolveu trazer Trudi e Kiki na mochila da escola. Bom, não dava para ignorá-lo, principalmente porque a pequena estava interessadíssima em ouvir sua história. E eu li. E não acreditei em como o livro era tão, tão, tão bom. Li várias vezes, acho que para ter certeza. E tratei de catar outros na minha livraria favorita, e li vários, um após o outro, sentadinha entre as estantes. Sim! Eu gostava de Eva Furnari! Gostava muito! E sabe, a filha também!

Trudi e Kiki nem é o nosso favorito, mas achei justo introduzir Eva Furnari aqui no Cachinhos por ele, afinal, foi com a história divertidíssima dessas duas meninas, tão parecidas e tão diferentes, que deixei meu PRÉ-CONCEITO de lado e me dei uma nova chance de conhecer suas maravilhosas obras!

Trudi e Kiki são duas meninas muito parecidas, elas têm a mesma idade e a mesma altura, além do mesmo estilo de cabelo: ruivo e chanel. Trudi e Kiki são duas meninas muito diferentes, e a maior diferença entre elas é que... uma é bruxa e a outra não. Uma mora em Biribin e fala biribês. A outra mora em Burux, uma cidade de bruxos, e fala buruxês (que se fala fazendo biquinho com a boca). As montanhas separam as duas cidades, mas um dia, o convite de uma festa de dia das bruxas voou de uma para a outra, por cima das montanhas, e causou uma grande confusão. O livro é muito divertido e sua história pra lá de interessante. Mas o mais divertido mesmo são os convites e os diálogos que se estabelecem nas línguas das duas cidades. Um barato! A pequena bolava de rir! Clica na imagem para ler os convites:

imagem tirada daqui


Bom, mas depois de muita confusão, Trudi e Kiki descobrem que continuam com seus gostos e desgostos parecidos, e pela primeira vez, uma garota de Biribin virou amiga de uma bruxinha de Burux, e elas passaram a falar o biriburux, uma língua que só elas mesmas entendiam. Um ótimo livro para abrir espaço para uma conversa sobre amizades, sobre o que nos aproxima e nos diferencia. Sobre tolerância e PRÉ-CONCEITOS. Espero ter aprendido minha lição... não disse que os livros infantis podem nos surpreender?

Ah, e Trudi e Kiki ganharam uma versão em vídeo. Advinha? Maravilhosa também. É uma parceria linda de Eva Furnari com Kodo, apoiada pelo Governo de São Paulo. E o vídeo ganhou o terceiro lugar no Festival Prix Jeunesse em 2011! Imperdível! 


E o melhor é que vem mais Eva Furnari em vídeo por aí - confere uma entrevista onde ela explica tudinho aqui.

08 fevereiro 2014

Ruth Rocha e o fim do Papai Noel


Almanaque Ruth Rocha
texto: Ruth Rocha
ilustrações: Alberto Linares, Cláudio Martins, Elisabeth Teixeira, Miadaira, Suppa, Teresa Berlinck, Walter Ono
editora: Salamandra

Quando Letícia ainda era uma bebezona, comecei a falar a ela sobre o bom velhinho que traz presentes às crianças no natal. Fiz isso muito mais por uma pressão social, devo admitir. Eu fui uma criança que nunca acreditou em papai noel, acho - se acreditei era tão pequena que não tenho a menor recordação disso. Meus pais sempre acharam uma bobagem fazer as crianças acreditarem em papai noel e coelhinho da páscoa. E bem no fundo, sempre achei isso também. Mas mãe é mesmo um bicho meio bobo e extremamente influenciável, que tem pavor absurdo de errar, e quando me tornei uma tive muitas e muitas influências ao meu redor, sempre dizendo que papai noel representa a fantasia e o sonho da infância, que dizer que papai noel não existe é negar à criança o direito à fantasia e ao sonho (oi?) e etc. Bom, quando ela ainda estava na produção de garatujas, comecei a perguntar o que queria de papai noel e ajudá-la a produzir as famosas cartinhas. Não falava muito, não fazia as habituais chantagens "papai noel só traz presente para bons meninos", mas todo ano tinha o presente do bom velhinho aqui em casa.

Quem me acompanha deve saber também que comecei, ainda no seu segundo natal, a comprar um livro para ela como um presente de papai e mamãe. Então, tinha o presente do papai noel, e o presente de papai e mamãe, sempre um livro. Em 2012, uns 40 dias antes do natal, a pequena me fez a pergunta bombástica: "Mamãe, papai noel existe?" Eu já andava incomodada com o fato dela acreditar nele, e pensava como seria o desfecho dessa história, mas a pergunta assim, nua e crua?!?! Respirei fundo um tive um lampejo de inspiração que me fez responder com outra pergunta: "filha, você acha que ele existe ou não existe?". A resposta dela foi um enfático "acho que existe" e só me restou emendar um "então pronto, filha! Se você acha que ele existe, é claro que ele existe". E tudo seguiu sua programação normal, com cartinha e presente deixado embaixo da árvore.

Rá, mas ano passado, mais ou menos na mesma época, a pergunta se repetiu. E a minha resposta-pergunta também. Mas a minha menina me devolveu um sonoro "Não! Acho que ele não existe, não". Ah! Ela, ainda em 2012, tinha visto o presente da prima, deixado por papai noel, na mala do carro da tia, na noite anterior. Juntou a isso a revelação de alguns coleguinhas da escola, e o quebra-cabeça estava formado. Aliviada, respondi "ah, filha, então não deve existir mesmo, né? Mas... quem então dá os presentes às crianças?" "O pai e a mãe, claro!". Ufa, última peça encaixada! E foi assim que a minha menina descobriu "sozinha" (ela se orgulha muito de ter sido sozinha) que papai noel não existe. Sem dramas, sem choros, sem velas. Ah, o fato de ter garantido a ela que nada mudaria nos seus natal ajudou bastante! kkkk

Ela ganhou o presente que pediu a papai e mamãe, e o livro que mamãe escolheu, como todos os anos. E o livro deste ano foi pra lá de especial. Muitos livros de Ruth Rocha já são nossos velhos conhecidos, e adoramos todos. Mas o Almanaque é diferente! Dividido pelos 12 meses do ano, ele traz histórias, curiosidades, anedotas, adivinhações, festas populares, brincadeiras e experiências. Uma delícia. Ainda mais nessa fase da filha, que adora inventar novas brincadeiras. Para as férias pode ser um ótimo companheiro. Recomendo muito, muito mesmo, principalmente por ser um livro para se usar, literalmente, o ano todo, e por muitos anos.



PS: em dezembro vi algumas postagens em redes sociais criticando a pressão CONTRA a "magia do natal" e a fantasia do papai noel. Engraçado observar isso, porque sempre senti a pressão contrária, a favor da tal magia e do papai noel, como se não "jogar pirlimpimpim" sobre a festa seria quase um crime contra a infância - veja bem, não falo da festa, que eu adoro, mas de fantasia-la, como o mercado tanto gosta. Por isso pensei em mostrar o meu ponto de vista, e dizer que o melhor é que cada família decida como viver suas festas, de preferência bem conscientes do que é válido ou não à ela.

12 dezembro 2013

Agora assine...


O ponto
texto e ilustrações: Peter H. Reynolds
tradução: Monica Stahel
editora: Martins Fontes


Letícia adora desenhar, pintar, colar e cortar desde sempre. É sem dúvidas a brincadeira preferida dela, aquela que ela nunca se cansa. Lembro de quando aos 2 anos ela pediu uma cola bastão ao papai noel - na época ela chamava de "cola igual da minha pró". E é também a brincadeira que eu mais libero, aquela que mesmo cansada, mesmo sabendo que vou ficar muito tempo depois da pequena dormir limpando, não consigo dizer não (exceção para uso de tinta nas noites que antecedem dias úteis, que eu sou doida mas tenho juízo). E é um tal de guardar papel de presente, embalagens mil, fitinhas, botões, tecidos. Cola bastão e durex são coisas que tenho que esconder o que quero usar para garantir ter quando precisar rsrsrs A porta do seu quarto é colada de cima a baixo com artes suas e dos amigos mais próximos. Há alguns meses, separei as artes em papel mais queridas e arrumei em uma pasta catálogo (aquela com sacos plásticos) - ficou lindo. Adoro, apesar da sensação de caos que fica.

E desde sempre procuro não tolher suas iniciativas por motivos estéticos. Interfiro o mínimo possível, na verdade. Não lembro mais onde eu li ou ouvi, quando Let ainda era uma bebezinha, sobre a importância de permitir à criança, principalmente em seus primeiros anos, expressar sua criatividade e suas emoções na arte da forma que quiserem. E mesmo esteticamente não muito aceitável, incentivamos e utilizamos sempre que possível. Aliás, o seu micro-bolinho de aniversário na escola, feito em novembro, teve aranhas, seu nome e idade, feitos por ela, espetados no bolo (reparem no seu nome, com aranhinhas nos pingos dos is). 


E eu tinha que fazer essa introdução para falar do livro O ponto que me encantou desde o primeiro dia que o vi. Com traços simples e expressivos, utilizando cores primárias para expressar os sentimentos dos personagens, a história fala de quando Vashti deixa seu papel em branco até o final da aula de artes. Ela não sabe desenhar!!! Mas a professora de Vashti, com imensa habilidade (e como é importante ter educadores com esta habilidade), consegue fazer a menina deixar a sua marca, e depois pede: "agora assine". Vashti achou tudo aquilo uma grande bobagem, afinal, ela tinha feito apenas um ponto com caneta. Mas, na semana seguinte, era o ponto de Vashti que estava emoldurado sobre a mesa da professora.

Hummmm, Vashti conseguia fazer um ponto melhor que aquele, e fez! Muitos! Pontos amarelos, verdes, vermelhos e azuis. Pontos pequenos, grandes, enormes, e até um ponto sem pintar. E assim, a menina que não sabia desenhar, descobre uma forma inusitada de expressar-se artisticamente, e motivar outras crianças.

Adoro este livro porque ele me lembra o quanto é importante para qualquer um ter uma expressão artística. Eu, que já repeti no passado tantas vezes: "tenho duas mãos esquerdas", na gravidez descobri que poderia dar vazão a minha criatividade com arte, começando pelo enxoval da filhota, e seguindo por uma porção de outras coisas, principalmente nos seus aniversários. Queria ter sido mais estimulada na infância a deixar minha marca e assiná-la... demorei a perceber que poderia fazer isso. Tento acertar com a filhota.

Por fim, alguns dos últimos desenhos que ela fez, dos personagens de Caillou: Gilbert, Caillou e Rosie, copiados de imagens da internet, recortados e colados com cola bastão rsrsrs



25 novembro 2013

Menino faz futsal! Menina faz GR!

O rei da sola
texto: Márcia Frazão
ilustrações: Mariana Massarani
editora: Cosac Naify


O livro de hoje tornou-se imediatamente um dos favoritos de Letícia logo que chegou às suas mãos. E ela pediu para relê-lo infinitas vezes. E é claro, tem uma história por trás.

Ela, que frequenta creche desde os quatro meses e meio, desde que fez 1 aninho teve aulas de capoeira (sim, na Bahia é assim). Aos 2 anos começou a pedir incessantemente para ter aulas de balé, influenciada pela coleguinhas que saiam da escola de coque, tutu e sapatilha para as tais aulas. Não começou logo porque ainda não tinha idade, depois foi o nosso bolso o impeditivo, até que aos 4 anos começou as aulas e as frequentou até final do ano passado, quando ela mesma pediu para sair. Aí veio a escola nova, que inclui natação no horário normal da aula – e ela adora. E no contraturno, me foi dito durante a pré-matrícula, ela teria direito a mais um esporte a escolher: futsal ou ginástica rítmica (GR). Perguntei a ela o que preferia e a resposta foi imediata: futsal! E na semana seguinte: GR. E na seguinte a seguinte: futsal. Ainda era agosto, então decidimos que, quando as aulas começassem, ela faria uma aula de cada e decidiria.

Entretanto, na matrícula, em dezembro, fui informada por uma funcionária da escola que não havia o que escolher: menino faz futsal, menina faz GR. Exatamente assim. Fiquei revoltada, acima de tudo porque, a escola que escolhi com tanto cuidado e por tantos meses, tinha um posicionamento claramente sexista em relação aos esportes – aliás, até onde esse posicionamento se estendia??? Mas ao iniciar as aulas, a filha parecia decidida a fazer GR, achei melhor deixar para conversar com a escola em outro momento. Com quase dois meses de aula, juntei este a outros assuntos e marquei um horário com a direção. Alguns dias antes do dia marcado, o seguinte diálogo se estabeleceu:

- Mamãe, eu posso fazer futsal?
- Pode sim filha. (falei, sem nem pensar duas vezes)
- Então eu quero fazer futsal!
- Mas filha, se você for fazer futsal, terá que sair do GR. Você quer sair do GR?
- Quero. Não tem problema sair do GR.
- Você não gosta de fazer GR?
- Gosto. Mas gosto mais de jogar futebol.

Pronto, fui conversar com a diretora. Na verdade, eu achava que tudo não passava de um mal entendido, afinal, havia sido a vice-diretora quem tinha me dada a informação da possibilidade de escolha dos esportes. Mas não, a diretora confirmou a informação: menino faz futsal, menina faz GR. Simples assim. Perguntei o porquê e a resposta foi: “já tivemos meninas jogando futsal aqui, mas os meninos são muito truculentos e as meninas sempre se machucavam. O futebol é um esporte de muito contato, por isso restringimos, e hoje só os meninos fazem futsal”. Indignada não define bem a sensação que tive naquele momento. Fiquei arrasada. Mas saí da sala com a promessa de uma avaliação do assunto com a equipe de esporte e uma resposta breve... que não veio, mesmo depois de semanas.

Pus as mãos a obra, e busquei literaturas que abordassem o assunto. Pensava talvez num artigo científico, mas achei algo muito melhor: o capítulo 7 dos “Parâmetros Curriculares Nacionais” elaborado pela Secretaria de Educação Fundamental do Ministério da Educação – MEC, que dedica-se exclusivamente à Educação Física nas quatro primeiras séries da Educação Fundamental. O documento, que se destina aos professores da área, deve ser norteador para a prática do ensino da educação física entre crianças do ensino fundamental do país. E ele claramente incentiva a prática mistas (meninos e meninas) de esportes, destacando inclusive o futebol, como forma de desincentivo ao sexismo. Fiz uma carta à escola incluindo alguns trechos do documento do MEC, trechos que transcrevo ao final deste post. Ao final da carta, incluí ainda a lista de algumas instituições de ensino e/ou esporte que oferecem aulas mistas de futsal para a faixa etária de minha filha em nossa cidade. A carta foi entregue com cópia à direção, à coordenação de esportes e aos professores de futsal.

Várias semanas se passaram e a resposta continuava não vindo. Apenas quando decidi tirar minha filha do GR e matriculá-la na escolinha de futsal de um clube próximo de casa, a resposta veio. Encurtando a história, ela está fazendo futsal há alguns meses na escola e tem adorado. Os meninos estranharam, e ela ouviu coisas como “Eca, menina fazendo futsal?!?!” ou “Meninas não sabem jogar futebol, meninas só sabem dançar balé”, mas tem driblado bem estas questões. Não é uma exímia jogadora, mas nem ela, nem nós, estamos preocupados com isso. Como aprendi com o próprio documento do MEC e conversando com profissionais da área, ela está na fase de experimentar, buscar novas possibilidades, e a última coisa que precisa agora é que digam que ela não pode fazer algo, principalmente por ser menina.

Aliás, um dia, depois de perguntar várias vezes quando poderia começar o futsal, ela me perguntou se demoraria tanto se fosse um menino, e ao ouvir de mim a resposta sincera de que não, não demoraria tanto, que estava demorando porque ela era a primeira menina e a escola ainda estava avaliando como recebê-la (quanta baboseira a gente é obrigada a dizer a um filho...) ela desabafou “mamãe, eu queria ser menino. Ser menina é muito chato, a gente não pode fazer um monte de coisas!”. Pfff... E acho que foi por tudo isso que ela gostou tanto de O Rei da Sola. O livro conta a história de Claudinha, a artilheira do time de futebol da rua do Sobe e Não Desce. É que dias antes da grande final do campeonato, a sola do tênis de Claudinha descolou, e ficou igual boca de jacaré. Ah, mas aquele não era um tênis qualquer, era o tênis amarelo de Claudinha, seu tênis da sorte, que a ajudava a fazer tantos dribles perfeitos. Decididos a salvar o time, Claudinha e seus amigos procuram a bruxa Vitalina e o grandioso Rei da Sola para resolver aquele problema.

O que tem de especial nessa história? O time de Claudinha é formado por meninos e meninas, e em nenhum momento isso é tratado como um tabu. Meninas e meninos jogam juntos e isso é só. Simples assim. Mais que isso, a principal jogadora do time é Claudinha, uma menina, e a possibilidade da melhor jogadora não jogar com seu tênis da sorte mexe com todos do time, inclusive os meninos. Um livro fantástico, que trata a igualdade de gênero como algo tão corriqueiro e normal que não tem como as crianças não se encantarem.

Para finalizar, seguem alguns trechos do documento do MEC mencionado acima, com algumas considerações minhas:

Em sua página 33 o documento lista os objetivos gerais de educação física no ensino fundamental, e os dois primeiros são: “participar de atividades corporais, estabelecendo relações equilibradas e construtivas com os outros, reconhecendo e respeitando características físicas e de desempenho de si próprio e dos outros, sem discriminar por características pessoais, físicas, sexuais ou sociais” e “adotar atitudes de respeito mútuo, dignidade e solidariedade em situações lúdicas e esportivas, repudiando qualquer espécie de violência”.

Na página 25, o documento expõe explicitamente sua recomendação pela formação de equipes mistas nas aulas de educação física: “No que tange à questão do gênero, as aulas mistas de Educação Física podem dar oportunidade para que meninos e meninas convivam, observem-se, descubram-se e possam aprender a ser tolerantes, a não discriminar e a compreender as diferenças, de forma a não reproduzir estereotipadamente relações sociais autoritárias”.

Já nas páginas 58 a 63, o documento trata de orientações gerais para o ensino da educação física, destinando a segunda para “Diferenças entre meninos e meninas”, que inicia-se com o seguinte parágrafo: “Particularmente no que diz respeito às diferenças entre as competências de meninos e meninas deve-se ter um cuidado especial. Muitas dessas diferenças são determinadas social e culturalmente e decorrem, para além das vivências anteriores de cada aluno, de preconceitos e comportamentos estereotipados. As habilidades com a bola, por exemplo, um dos objetos centrais da cultura lúdica, estabelecem-se com a possibilidade de prática e experiência com esse material. Socialmente essa prática é mais proporcionada aos meninos que, portanto, desenvolvem-se mais do que meninas e, assim, brincar com bola se transforma em “brincadeira de menino”.” O documento também diz em sua pág. 52: “Se tiver havido um trabalho para diminuir as diferenças entre as competências de meninos e meninas no primeiro ciclo[1], o desempenho será quantitativamente mais semelhante. Nesse momento, também, as crianças estão mais cientes das diferenças entre os sexos; portanto, há que se tomar cuidado em relação às estereotipias, principalmente no que se refere aos tipos de movimento tradicionalmente considerados”.




[1] Segundo o documento, o primeiro ciclo do ensino fundamental vai até o 3º ano deste.

17 novembro 2013

Época de mudanças e um programa russo...


A vida é cheia de surpresas e mudanças, a maioria acontecendo em momentos diferentes. Mas de vez em quando ela resolve juntar uma porção de surpresas e mudanças para um mesmo momento. Foi o que aconteceu comigo nas últimas semanas. Nada muito radical, mas pequenas mudanças que juntas me tiraram do chão, por assim dizer. Algumas mudanças dentro de mim, outras do lado de fora. Algumas mudanças no trabalho, outras em casa. Algumas mudanças boas e outras nem tanto. Mas o tumulto está passando, e está ficando uma sensação boa de que quando as coisas se reajustarem, vai ser tudo muito melhor do que era antes!

Estou cheia de livros e coisas para contar aqui, mas antes queria fazer esse post assim, bem leve e descontraído, corrigindo um descompasso que causei no blog: não tenho nenhum post na sessão O que os cachinhos assistem! E temos visto tanta coisa boa... elas virão depois, mas hoje quero dividir com vocês a nossa mais nova descoberta. Descoberta feita pela filhota, diga-se de passagem.

Ela adora o youtube, principalmente pela possibilidade de ver seus programas favoritos seguidas vezes e no horário que desejar. Mas eu me preocupo muito com seu acesso não acompanhado a esse site... agora que ela já lê e escreve, adora fazer buscas no youtube por palavras-chaves, mas uma palavra-chave, como se sabe, pode levar a conteúdos bem distintos na internet... Por isso procuro supervisionar bem de perto quando ela está navegando no youtube. Bom, apesar disso, só vi A Menina e o Urso quando a pequena já tinha assistido vários episódios e estava irremediavelmente apaixonada. Tive sorte – ufa!!! – foi uma ótima descoberta.

Маша и Медведь, ou Masha e o Urso, é um desenho russo sensacional, que conta as aventuras de um urso enorme e amoroso, e uma menininha do tipo mais apimentado que há. Ela sempre se mete em confusões ou arranja problemas para o amigo urso resolver... mas tudo bem, eles se adoram, e apesar de todos os problemas que a menina arranja eles são mesmo ótimos amigos. Um programa absolutamente fofo e divertido, que deve agradar a todos.

Os episódios não são traduzidos para o português, mas têm tão poucas falas, que não há qualquer dificuldade em se acompanhar seu desenrolar. Aliás, assistir vídeos em outras línguas tem sido uma constante pra Letícia. Ela quer assistir um programa, digita na busca, e aparecem episódios em inglês, espanhol, croata ou chinês??? What´s the problem??? Ela assiste assim mesmo. E isso sempre me deixa pensando em como essa nova geração está mesmo anos luz da minha... na sua idade, e mesmo bem mais velha que ela, nunca tive esse tipo de estímulo, de ouvir línguas diversas (no máximo as músicas em inglês que eventualmente ouvia no rádio rsrsrs). 

O episódio abaixo foi o primeiro que assisti, e o meu favorito. Quando vi a primeira vez fiquei pensando que era uma pena não ter tradução para o português, mas depois percebi o quanto é legal assisti-lo assim, no original. Tem vários episódios disponíveis, e sabe, adorei toooodos!


05 outubro 2013

Criança, consumismo e troca - parte 2

O giz vermelho
texto: Iris van der Heide
ilustrações: Marije Tolman
tradutora: Monica Stahel
editora: Martins Fontes

"Sara esta aborrecida. Queria desenhar no chão, com giz vermelho, mas a calçada era muito irregular. Todos os seus desenhos davam errado. Já ia jogar o giz fora quando viu Tim do outro lado da rua. Ele estava brincando com suas bolas de gude. "Deve ser divertido", Sara pensou."

É assim que começa O giz vermelho, um livro que conheci numa compra "às cegas" de uma mega promoção em uma loja on line. Havia me apaixonado pela sinopse, que parecia refletir exatamente a ideia da Troca de Brinquedos. E o livro não decepcionou. É que Sara tenta resolver seu tédio propondo a Tim uma troca: seu giz vermelho pelas bolas de gude de Tim. "É um giz mágico. Tudo que você desenha com ele cria vida." E Tim na mesma hora desenhou um dragão - veja a ilustração:

imagem tirada daqui (blog Imensa Vida) 

Pois é, para Tim o giz é mesmo mágico, e seu dragão ganha vida! Mas logo Sara fica insatisfeita com as bolas de gude também - "Não tem graça nenhuma." A solução? Novas trocas! E as bolas de gude sem graça viram pérolas do mar na mão de Sam, e a flauta desafinada, faz todos os ratos da cidade seguirem Ben. Mas Sara continua trocando, porque ela não consegue perceber que o que faz um brinquedo especial não está no brinquedo, mas no significado que damos a ele. O brinquedo sem a pitada da criatividade e da imaginação, não garante diversão alguma. Na verdade, o brinquedo, assim como o livro, é tão somente um instrumento. É o BRINCAR, o SENTIR, o SONHAR e o IMAGINAR que fazem a brincadeira.

No final do livro, e de tantas trocas, adivinha qual o último brinquedo que Sara trocou??? Pois é, o seu giz vermelho, que tinha virado uma amarelinha na mão de Ben. Só então Sara percebe que especial mesmo é brincar junto com seus amigos.

imagem tirada daqui (blog Imensa Vida)

Hoje nós realizamos a terceira Feira de Troca de Brinquedos e Livros de Salvador, e a imensa alegria se repetiu. O Palacete das Artes é um lugar lindo, acolhedor e onde se respira cultura. Novamente, foi simplesmente mágico ver as crianças interagindo, negociando, trocando, sorrindo, brincando, e às vezes chorando. Tudo é aprendizado. Letícia, que nunca tinha tido problemas em suas trocas, hoje chateou-se pela primeira vez e chorou: queria um trenzinho, e quando a troca já estava quase estabelecida, uma outra criança fez uma oferta que agradou mais e levou seu objeto de desejo. Ficou chateada, chorosa, mas logo aceitou que não se pode controlar tudo, e saiu de lá muito feliz com suas trocas.

Para ver mais fotos clique aqui.

E você, já pensou em organizar uma feira de troca? Não precisa ser nada grandioso - basta ver as fotos das feiras de troca entre primos que organizamos na minha família. Então, por que não entre as crianças do prédio? Ou da sala de aula do seu filho? Que tal propor uma feira de troca na escola? Na sua igreja? Entre as crianças que frequentam a pracinha ou o parque? Entre os primos? As possibilidades são infinitas! Cada grupo pode fazer suas próprias regras. O importante é que as crianças estabeleçam o valor de cada brinquedo e livro sem usar a lógica monetária, e tenham liberdade para estabelecer suas negociações. Garanto que será gratificante.


03 outubro 2013

Criança, consumismo e troca - parte 1


Há alguns anos, fiz uma viagem à Irecê, no semiárido baiano, como parte de uma disciplina do mestrado. Em dupla deveríamos escolher uma propriedade de agricultura familiar, entrevistar seus proprietários e desenvolver uma análise de viabilidade das mesmas. Eu e um colega escolhemos a propriedade de um senhorzinho que era uma simpatia, e foi mesmo uma ótima escolha. Logo no primeiro dia, estávamos os três em frente à casa da família, onde havia, além do banco de madeira em que sentamos, uma árvore e sob esta, uma montanha de ramas de cenoura. Assim como a maioria dos agricultores da redondeza, ele se dedicava ao plantio de cenoura e beterraba. Lá pelas tantas, o colega perguntou o que ele faria com tanta rama. Ele respondeu: “ah, usamos pra alimentar os animais. Vou distribuir com meus vizinhos” O colega falou, meio assustado com tal resposta, que ele deveria vender as ramas - já que todos usavam poderia ser uma boa fonte de renda extra. O velhinho riu gostoso e respondeu: “Meu filho, eu não vendo porque semana passada foi o meu vizinho quem fez sua colheita e dividiu suas ramas comigo e com os outros. E na semana que vem será o outro vizinho que fará o mesmo. Assim, os animais de todos têm o que comer”.

Nunca esqueci esse episódio, que provavelmente me trouxe a principal lição de toda a viagem. O contei algumas vezes em sala de aula, quando era professora, ao falar do surgimento do modo de produção capitalista. Sempre achei essa uma ótima forma de mostrar como o modo de pensar capitalista não é único, nem mesmo nos dias de hoje. Já tinha tempo que não lembrava dessa história, mas a proximidade do dia das crianças me fez relembrá-la.


Todo ano é a mesma coisa. Antes mesmo de começar outubro, o comércio e a publicidade voltados ao consumo infantil estão em polvorosa.  Os canais de TV, abertos e fechados, desfilam propagandas com toda sorte de produtos para “alegrar o dia da garotada”. As lojas de venda on line não param de enviar e-mails com oferta de produtos e tentadoras promoções. Outdoors, plotagens em ônibus, publicidades em revistas, redes sociais e até em escolas (oi?) fazem questão de lembrar o quanto um presente no dia das crianças é importante para a felicidade do pequeno – UM presente para quem compra, porque é claro que a criança deve receber presente dos pais, dos tios, dindos, avós, amigos, etc. De que outra forma ela terá certeza do quanto é amada??? E no meio de tudo isso estão as crianças, bombardeadas e alucinadas com as promessas de felicidade e atenção que os famosos “presentes de dia das crianças” trarão. Pffff... Que desânimo isso me dá.

O desânimo é principalmente porque a maioria dos adultos está tão absorto por esta história que realmente acredita que será o presente no dia das crianças que fará a alegria do seu filho, e como todo pai/mãe deseja a alegria de seu filho, o tal presente torna-se, evidentemente, imprescindível. Não estou levantando aqui uma bandeira contra “presentes de dia das crianças”, mas trazendo a reflexão do que realmente isso significa. Será mesmo que para o dia dedicado às nossas crianças tornar-se especial e para que eles se sintam amados é preciso que ganhem presentes, de preferência caros e rapidamente “esquecíveis” como prega a mídia? Acho que nossa sociedade há muito perdeu a noção do que é realmente importante nas relações pessoais, e junto perdeu o bom senso em relação ao como e quanto consumir.


Desde o ano passado estou envolvida com dois movimentos que são muito importantes para mim: o Infância Livre do Consumismo (veja aqui e aqui), que este ano está com uma campanha belíssima em prol de um dia das crianças sem consumismo (ilustrada pela queridíssima Lu Azevedo) e a Feira de Troca de Brinquedos e Livros deSalvador – que terá sua terceira edição no próximo sábado, 05 de outubro, no Palacete das Artes no bairro da Graça. Esses movimentos me trouxeram excelentes reflexões sobre o tema, em especial a feira de troca, que me proporcionou vivenciar uma experiência de dia das crianças não consumista.


A ideia é tão simples quanto genial: as crianças e suas família se reúnem no local escolhido e levam aqueles brinquedos e livros que, embora não estejam mais em uso, possam ser usados por outras crianças. Chegando à feira, escolhem um espaço e expõem o que levaram, analisando também o que o interessa entre o exposto por outras crianças. Quando uma criança encontra um objeto que deseja obter, procura seu atual dono com o que tem a oferecer e a negociação se inicia - e nessa etapa é muito importante que a intervenção adulta seja mínima. O importante é que cada criança atribua aos objetos um valor simbólico, não monetário - assim, um brinquedo eletrônico caro pode ser trocado por um quebra-cabeça e deixar duas crianças felizes (eu vi isso acontecer). Se a troca agradar ambos os lados, se estabelece. Se não, cada um terá que procurar outra negociação.

Lembro de quando organizamos a primeira feira e do medo de como se dariam estas negociações, qual seria o nível de frustração das crianças com as trocas não estabelecidas. O aprendizado foi enorme, de forma resumida a experiência mostrou que:

- como em outros aspectos, subestimamos a capacidade de compreensão das crianças. Embora tenha havido um ou outro episódio de frustração manifestada por choro e revolta, foram raríssimos os casos de crianças que voltaram para casa insatisfeitas. Na grande maioria dos casos, em algum momento da feira, elas encontraram outra oportunidade de troca que se efetivou e saíram satisfeitíssimas;

- os maiores conflitos ocorreram quando o adulto interferiu mais do que deveria (colocando seus interesses pessoais acima dos da criança). Não tenho dúvida, a maior dificuldade de internalizar a proposta da feira é do adulto, que tende muitas vezes em comparar monetariamente os objetos;

- a experiência traz para as crianças lições preciosíssimas: desapego, capacidade de negociação e de lidar com a frustração, e principalmente: que a diversão de um brinquedo não está no fato dele ser novo, ou caro, ou badalado, mas no sentido que você atribui a ele!

- o brinquedo não é necessário para fazer as crianças se divertirem e interagirem (bom, muitas vezes até atrapalha a interação). Várias atividades bacanas são marcadas junto com a feira, e muitas vezes o que vemos são brinquedos largados de lado e crianças sendo felizes juntas!

Ah, e sabe o que foi mais legal? Repliquei a experiência na minha família, e já fizemos duas feiras de troca entre primos. Marcamos numa pracinha, levamos comidinhas para um piquenique, depois fazemos as trocas das crianças e no final a troca dos adultos - pois é, adultos também trocam! Já troquei vestido, bolsa, brinco, colar, maquiagem rsrsrs E quem não tem algo que comprou, usou e enjoou, ou até enjoou antes de usar? Garanto que é uma experiência única, muito rica e muito divertida.


O dia das crianças pode sim ser comemorado com alegria e diversão sem precisar da interferência do consumismo. Pense nisso. Amanhã volto com a segunda parte do post e um livro maravilhoso.