29 dezembro 2011

Bichos que existem e que não existem, e uma tradição natalina


Bichos que existem e bichos que não existem
texto: Arthur Nestrovski
ilustrações: Maria Eugênia
editora: Cosac Naify

Eu amo os livros infantis e estou sempre empolgada com eles - ok! Mas tem uma questão que não consigo responder: qual o limite para presentear crianças com livros? Sem limite? Alternando livro e brinquedo? O máximo possível? O mínimo possível? NDA?

Eu adoro presentear com livros, fico pensando no presenteado, suas preferências, se já sabe ler, quem lê para ele, como receberia aquele livro, como ouviria aquela história, enfim, viajo completamente (quando vou escolher um brinquedo ou uma roupa, geralmente se envolvo bem menos, olhando apenas o indicativo de idade e o preço...) Bom, o fato é que se eu não me controlar, só dou livros. E aí bate aquele medinho de virar "a tia chata que só dá livro"... risco concreto. Então eu procuro alternar, dando brinquedos de vez em quando.

Esse ano, entretanto, percebi que eu estava seguindo um padrão, pelo menos com minha filha: dar livro no natal. Ela pede o presente do Papai Noel, inevitavelmente um brinquedo, e eu sempre compro algo como nosso presente (meu e do pai), e nos últimos quatro natais esse algo tem sido livro. Só percebi isso este ano, e aí decidi, para aquelas crianças mais próximas, que ganham presentes nossos no aniversário, no natal e às vezes no dia das crianças (filha, sobrinhos e afilhados, basicamente), o natal é a hora de ganhar livro. Nas outras datas escolho outras coisas. Quando percebi que sempre dou livros a minha filha no natal, resolvi trazer aqui os quatro últimos livros que a presenteamos, começando do primeiro, de modo que na semana do natal trouxesse o deste ano... bom, nem preciso dizer que não deu, né? Então vou fazer o movimento contrário, e trazer hoje o deste ano, e os outros depois, até chegar ao que inaugurou essa nossa tradição natalina.

Bichos que existem e bichos que não existem me foi indicado por Mari dos Viciados há meses, numa compra louca que fizemos naquela promoção da livraria Cultura e da Cosac Naify- eu indiquei uns a ela e ela outros a mim. Ficou guardadinho, aguardando a hora certa, e quando eu percebi, há uma semana do natal, que o livro que eu havia escolhido tem uma história complexa demais para minha pequena (vai ficar para o ano que vem), foi nele que imediatamente pensei. A ideia do livro é fantástica, e tem tudo a ver com a fase que Cachinhos está, me perguntando a todo instante o que existe e o que não existe. Bruxa existe? Fada existe? Rinoceronte existe? Dragão existe? O livro é assim, desfila uma série de bichos, que existem e que não existem, e fala um pouquinho sobre cada um deles. O jabuti que é feio de rosto, mas bonito de corpo. O vírus que é o menor bicho que existe. O lobisomen que só aparece nas noites de lua cheia. O abominável homem das neves que vive abominavelmente sozinho. O dinossauro que não existe, mas já existiu, e muitos outros. A dedicatória ficou assim:

"Para nossa filha,
um bicho que existe, mas que de vez em quando parece até que não existe... de tão especial que ela é.
Com amor,
Mamãe e Papai."

A Mari já tinha falado sobre ele no Viciados em colo, e há pouco vi que a Lu Conti também colocou ele no Gato de Sofá. Dá uma olhada que vale a pena.

FELIZ 2012!!!

24 dezembro 2011

Nessa noite sem igual...

Uma noite sem igual
texto: Ana Maria Machado
ilustrações: Fabiana Salomão
Editora: FTD

Daqui a pouco será noite de natal, e do meio do meu sumiço, eu precisava vir desejar um feliz natal a todos vocês. Teve o aniversário da filhota, visitas de familiares, viagem para outro estado, batizado de afilhada, casamento em outra cidade - com a filha de daminha, espetáculo de final de ano do ballet, da escola, confraternizações do trabalho, do trabalho do marido, do prédio, dos coleguinhas da filha, novena de natal dos amigos, ufaaaa!!! Foi bom, mas foi cansativo. E não sobrou tempo para muita coisa. Não é desculpa pelo meu sumiço, mas é parte de uma justificativa. Aguns ajustes estão sendo necessários. Vou trabalhar neles com afinco.

Mas agora é natal, é hora de confraternizar, e lembrar do sentido maior dessa festa. Por isso trago hoje um livro que veio no meio dos presentes de aniversário. Foi o único desse ano, mas valeu por muitos. Presente de uma prima querida, muito especial, que esteve ao meu lado nos primeiros dias da Cachinhos. Uma noite sem igual, de Ana Maria Machado, conta a história mais lida no mundo na visão de um personagem "pequeno": um menino pastor que seguiu uma estrela que o levou a uma manjedoura que guardava um recém-nascido. Benjamin, o pastorzinho, é amigo do anjo Gabriel, e queria dar um presente especial ao menino da manjedoura. Uma maneira lúdica e delicada de recontar o nascimento de Jesus.

Não vou resistir e copiar o texto da contracapa, escrito pela autora:

"Sabe o que mais me atrai nesse Menino Jesus que quando crescer vai ser o Cristo? A capacidade de botar o outro em primeiro lugar. Ou seja, meu Natal tem mais a ver com presépio do que com sacolas de compras. Como sempre foi na minha família, de muitos irmãos e dinheiro curto - e inesquecíveis natais. Nada de muito diferente, mas tudo muito especial. Como essa noite sem igual"
Ana Maria Machado


Sei que nem todos que me lêem (oi, ainda tem gente que me lê, né? rsrs) são cristãos, mas não posso deixar de desejar a todos vocês uma noite realmente sem igual, com esse menino Jesus abençoando cada lar, suas vidas e as crianças que os rodeiam. Essa é a minha crença, e é com o coração repleto de fé que desejo isso a vocês, independente de suas crenças. Boas festas!!!

03 novembro 2011

Ser eu mesma


Quando eu crescer
texto: Anne Faundez
ilustrações: Katherine Lucas
tradução: Silvio Antunha
Editora: Ciranda Cultural

Trago hoje o livro que comprei na bienal. Estava lá, entre outros, a um preço tentador. Folheei um, outro e mais outro, e este me chamou a atenção, por trazer a tona algo que eu gostaria muito que minha filha nunca esquecesse: a importância de sermos nós mesmos. A personagem do livro faz uma série de questionamentos, sobre como as coisas serão quando ela crescer. O que serei? O que vou fazer? Como serei? O que vou comer? Quem viverá comigo? Que roupa vou vestir?  As respostas para as perguntas fazem a imaginação do leitor voar, como ser um pássaro no ar, voar para Marte, passear de rinoceronte ou ser imensa como um hipopótamo, mas foi o final que me fisgou: "quando eu crescer, realmente pouco importa como serei... desde que eu seja eu mesma!" Pronto, botei ele debaixo do braço e o trouxe para casa.

Quase sempre na intuição, é verdade, tento passar para a minha filha a importância de sermos quem somos, de valorizarmos nossas singularidades e autenticidade. Acho esse um valor verdadeiramente importante para ser passado para um filho. A pequena diz que quer ser professora, e me faz lembrar demais eu mesma com sua idade, quando dizia também que queria ser professora "de crianças". Mas já quis ser policial (isso com 2 aninhos), médica de bebê e cozinheira. O que mais quero é que ela entenda que poderá ser o que desejar, mas nunca deixará de ser quem ela é. Sei que haverá uma época aborrecente em que ser "apenas" do jeito que ela é parecerá muito pouco e bobo, e uma mãe dizendo que assim, "apenas", ela será uma das pessoas mais interessantes que há, não ajudará em nada. Por isso aproveito o agora para dizer-lhe isso, numa época em que ela ainda acredita e considera o que digo sobre ela rsrs Li o livro para a pequena e ao final fiz a pergunta clássica "e então, o que você vai ser quando crescer?" e ela respondeu "eu mesma"...

A bienal do livro

Até o dia 06 de novembro acontece em Salvador a X Bienal do Livro da Bahia. Com base nas versões anteriores do evento, fui ao Centro de Convenções com expectativas baixas, e infelizmente, confirmei-as.

Olhei a programação com atencedência, e fiquei a princípio sem entender direito a programação infantil. É que o público infantil tem um espaço específico denominado Ciranda de Livros, mas a sua programação resume-se ao espetáculo Colcha de Retalhos, de A Outra Companhia de Teatro. Entendam o que vou falar, o espetáculo é muito bom, aqui em casa todos adoramos. São três contos apresentados com teatro e música, e só por ele já valeu a nossa ida a bienal. Mas veja bem, a programação infantil oficial do evento resume-se a esse espetáculo, que se repete quatro ou cinco vezes todos os dias do evento. Não, não há para o público infantil contação de histórias, lançamento de livros, sessão de autógrafos, recitais, ou qualquer outra atividade de interação das crianças com os livros e seus autores, pelo menos programadas e divulgados pela organização do evento. Digo isso porque compramos um livro autografado pelo autor simplesmente porque ele se anunciou como tal quando nos viu folheando a sua obra. Hoje também vi Antonio Cedraz, criador da Turma do Xaxado, autografando, mas não vi isso divulgado em nenhum lugar. Olhando o site pela quarta ou quinta vez (sim, sou psicótica e reconfiro tudo) descobri que na chamada Programação dos Expositores há uma parte dedicada exclusivamente a programação infantil com algumas poucas contações de história e sessões de autógrafos (mas nenhuma das que vi lá). Entretanto, além de não ser uma informação fácil de se localizar no site (ou sou eu que sou muito burra?!?!?!), as únicas informações que constam lá são o horário e o estande do evento. Não, não diz qual o livro a ser contado nem qual será o contador, muito menos qual o livro que será lançado e quem é o autor!!!

Agora diz, qual seria o motivo para alguém levar suas crianças mais de uma vez a essa bienal? Fui ver a programação na intensão de escolher o(s) dia(s) mais interessante(s) para minha pequena. Haha!!! Ah, as entradas no início estavam custando 8 reais inteira e 4 reais meia, com estacionamento de 8 reais - em SP, no Ceará e em Porto Alegre (ah, como eu queria estar em POA agora) são gratuitas. Ha!!! A pergunta fica ainda mais sem motivo, né? Agora todos pagam 4 reais e as crianças até 12 anos não pagam. Fico matutando o que os levou a essa "promoção".

Sinto vontade de escrever que este evento não foi pensado para o público infantil, mas definitivamente não posso dizer isso. Não com a quantidade de livros infantis servindo de isca por todos os cantos e estandes. Livros para colorir por R$ 0,50, pacotinho com cinco livros, cada um com duas histórias, por R$ 3,00 (esse minha filha comprou com as moedas de sua carteira, apesar dos meus argumentos contrários...), livros cartonados por R$ 5,00, aqueles livros enormes e fininhos por menos de R$ 10,00 e por aí ia... E claro, a quantidade de crianças por todo o lado. Ah, esse foi um evento pensado para crianças sim. Mas, desculpem minha sinceridade, elas não foram pensadas com o respeito que merecem.

Antes que alguém grite daí, claro que haviam livros de excelente qualidade, embora fosse uma minoria. Em relação a eles tenho duas coisas a dizer: além de raros estavam "mau distribuídos", e seus preços não estavam muito diferentes das livrarias. O estande da LDM estava de babar, mas não encontrei um único exemplar com valor abaixo ou mesmo igual ao dos que vejo nas maiores livrarias (dos que me recordo o preço, claro). Também gostei dos estandes da Paulinas, da Selecta e da Paulus, com algumas promoções. As melhores promoções que vi foram no da Saraiva, embora não tenha me interessado por nada. É claro que não vou dizer que o evento não vale a pena para as crianças. Levei minha filha, mesmo ciente da programação, mesmo ela tendo sido fisgada pelo colorido de um pacotinho vagabundo que condensa dez clássicos infantis em 40 páginas (isso mesmo, quatro para cada clássico - quatro versos, viu?). As crianças estavam lá entre os livros, pegando, sentindo, lendo. Os pais e responsáveis estavam lá com elas, interagindo nesse momento. E isso é bom, sempre. Mas temos mesmo que nos contentar com tão pouco? Temos mesmo que pensar "oh, somos uma cidade tão pobre de opções culturais para as crianças, devemos apenas agradecer por esta oportunidade". Não sei, creio que não.

Desculpem o desabafo, é muito sincero. É sentido. Não esperava muita coisa, mas fiquei triste ao constatar que nossa realidade é esta mesmo. Nossa cidade é linda, grande, diversa, múltipla, rica. Nosso povo tem sede de cultura - peguei uma fila quilométrica, debaixo de chuva, para entrar na bienal hoje. Mas as coisas aqui ainda patinam. Apesar disso tenho esperança. Se não tivesse, simplesmente calava.

PS.: falei da programação e dos livros infantis porque esse é o mundo desse blog. A programação adulta foi bem mais interessante, com os espaços Livro Encenado e a Praça de Cordel e Poesia, além dos debates no Café Literário (assisti a um sobre literatura infantil "A infância é o meu mundo", que pretendo comentar aqui no futuro). Quanto aos livros, tinha de tudo. Desde uma criatura gritando no corredor "qualquer livro e revista a 3 reais" até obras bem interessantes a realmente baixos preços. Sem dúvidas os adultos foram tratados com bem mais respeito.

25 outubro 2011

Tem certeza? Como sabe?

A sorte de Ozu
texto: Claudia Rueda
ilustrações: Fabio Weintraub
editora: Los Primeríssimos

O livro dessa semana foi mais uma grata surpresa da ciranda do livro da escola da filhota. Peguei ele na mochila meio desconfiada. Pequeno, fininho, realmente imaginei que fosse apenas mais um livro bobinho que não tem nada interessante para contar. Ledo engano. Sua história é grandiosa, embora simples, como a maioria das coisas realmente boas.

Na verdade, a história é baseada em um conto taoísta, que apresenta uma sucessão de acontecimentos que atingem a vida do menino Ozu, fazendo-o sentir-se ora o mais azarado, ora o mais sortudo menino do mundo. A cada novo acontecimento, Ozu achava que aquela tinha sido a melhor - ou a pior - coisa que poderia ter-lhe acontecido, e sempre ouvia de seu sábio pai: "tem certeza? como sabe?". E o acontecimento seguinte mostrava o quanto o menino estava enganado. Foi assim quando seu cavalo fugiu, e ele se sentiu o mais azarado dos azarados, e voltou acompanhado de outros cavalos, e ele se sentiu o mais sortudo dos sortudos, até que... outro acontecimento virou toda a história. Para nossos pequenos ansiosos, que querem tudo agora, definido, e encaram tudo com toda intensidade possível, é uma boa forma de fazê-los refletir sobre as imprevisibilidades da vida.

Aliás, taí um livro infantil que me botou pra pensar. Sempre tenho uma tendência a querer racionalizar e definir tudo que acontece em minha vida como BOM ou RUIM, esquecendo que tudo que acontece tem consequências, algumas boas, outras não. E como a vida dá voltas, e transforma coisas boas em ruins, e as ruins em boas. Que vontade de ter a sabedoria do pai de Ozu, e também saber esperar com tranquilidade as consequências de tudo que a vida me traz. Sem desespero, sem descuido. Porque a vida é essa que vivemos, e boa ou ruim, ela pode mudar.

Eita, que hoje eu viajei, né? Mas procurem o livro, tenho certeza que vão gostar.

20 outubro 2011

Hora do banho!!!

Chuveiro
texto: Karen Acioly
ilustrações: Nathália Sá Cavalcante
Editora: Rocco

Aqui em casa a hora do banho é sem dúvida o momento mais tumultuado com a pequena Cachinhos. Em geral ela não dá trabalho para comer, fazer as atividades da escola, arrumar suas bagunças, mas falou em banho... a coisa se complica. E isso é desde bem pequenina, quando ainda nem falava direito. Já me disseram que era fase, mas uma fase de quatro anos, não é exatamente uma fase, né? Já me disseram para dar banho com a ducha, depois para trocar a ducha. Já me disseram para levar brinquedinhos para o banho, canetinhas laváveis para escrever nas paredes do box, esponjinhas de personagens. Já apelei até para o quadro de adesivos no estilo supernanny, mas o fato é que a figurinha percebeu que esse é um ponto fraco para nós, pois não temos ajudantes em casa e nossos horários são bem apertados, e deita e rola com isso. Todas estas táticas funcionaram temporariamente, mas logo os gritos de "não!!!", "não queroooo!!!", "não gostoooo!!!", ou os argumentos "depois eu vou", "preciso (?!?!) brincar só mais um pouquinho", "estou com sono", "mas eu nem estou suja", recomeçam.

Comentei sobre isso com uma amiga alguns dias antes do aniversário de minha filha do ano passado, e no dia da festinha nos deparamos com este divertido livro de Karen Acioly entre os presentes. Os desenhos são engraçados e coloridos. O texto curto brinca com as palavras e com situações que envolve o banho e o ato de limpar-se dos personagens. Aqui em casa as risadas são certas quando leio "o ciricutico da Nina" ou "a pindamonhangaba do Pedro", mas as gargalhadas vêem mesmo com "a bundoca da Clara". Nem sei ao certo porque, mas ela acha o termo bundoca incontrolavelmente "gargalhante"... Eu que adoro jogo de palavras me divirto horrores com a diversão dela.

E agora a hora do banho aqui em casa... bem, agora a hora do banho permanece como nosso conflito diário. Cada dia uma nova argumentação, uma nova estratégia, para ela e para nós. Mas os banhos acontecem, SEMPRE. Brinco que deve ser angustiante para uma fã do Cascão tomar tantos banho como a filhota toma (2 em casa e 2 na escola). Pode ser preguiça ou omissão minha, mas eu parei de tentar encontrar uma solução para isso de qualquer jeito. Estou encarando mais como um processo de protesto dela, uma necessidade de dizer não a algo que sabe que é importante para nós - certamente, se não fizessemos tanta pressão, a situação seria diferente. Por isso, agora, o banho antes de dormir só acontece quando realmente necessário, ou quando ela está mais receptiva. Do banho ao acordar eu não abro mão.

Quanto a Chuveiro, posso dizer que ele cumpre perfeitamente seu papel aqui em casa: nos divertir e lembrar que a hora do banho pode ser muito, muito divertida. Os livros são mágicos, mas somos nós quem escolhemos a magia que queremos deles.

13 outubro 2011

Somos todos brasileirinhos!!!



Brasileirinhos (2001)
Novos Brasileirinhos (2002)
Mais Brasileirinhos! (2003)
Bem Brasileirinhos (2004)
texto: Lalau
ilustrações: Laurabeatriz
editora: Cosac Naify

Ontem foi o dia das crianças, um dia tão especial para quem tem por perto um desses serzinhos fantásticos, capazes de transformar nossa vida e virar tudo de ponta cabeça. Foi ainda o dia nacional da leitura, instituído em 2009. Foi um dia especial aqui em casa, com direito a sessão de culinária entre mãe e filha, piscina e churrasco com melhores amigos, teatro no final da tarde e muita leitura. O presente da minha cachinhos foi escolhido a dedo e com muito carinho: os quatro livros da coleção Brasileirinhos e o cd produzido a partir dos livros.

A parceria entre Lalau e Laurabeatriz já produziu excelentes livros, muitos abordando a diversidade e os riscos da nossa fauna, mas para mim nenhum é tão especial quanto os da coleção Brasileirinhos. Foram selecinados 50 animais dentre os que estão na lista de risco de instinção do IBAMA, e cada um deles ganhou de Lalau uma linda e divertida poesia, de Laurabeatriz uma belíssima ilustração, além de uma pequeno texto com algumas de suas curiosidades, como habitat, alimentação e reprodução. Editados pela Cosac Naify, o resultado é encantador. Ah, e há algumas surpresinhas nos livros, como um jogo da memória e uma cartela de adesivos com as ilustrações usadas, e um cd com alguns poemas musicados. Pois é, é que o músico Paulo Bira, encantado com as poesias de Lalau resolveu transformar em músicas alguns de seus poemas, e o resultado é muito gostoso. No último livro da coleção (Bem Brasileirinhos) vem encartado um cd com oito destas músicas, mas o cd com as 15 produzidas pode ser comprado separadamente - foi o que eu fiz. Ah, mas as músicas são interpretadas por artistas diversos, como Zeca Baleiro, Paulo Tatit, Suzana Salles, Marisa Orth, entre outros.



A filhota adorou ouvir as músicas, riu muito com a do mico-de-cheiro, brincar com o jogo da memória e os adesivos liiiindos, e saber um pouco mais sobre os bichos que correm o risco de desaparecer. Não tenho dúvidas que este presente ainda nos renderá muitos momentos de diversão e aprendizagem. Para deixar um gostinho em vocês, segue abaixo o poema e o texto sobre o mico-de-cheiro:

Mico-de-cheiro

Fez xixi na árvore.
Fez xixi na moita.
Fez xixi na folha.
Fez xixi na plantação.

Fez xixi no galho.
Fez xixi no tronco.
Fez xixi na planta.
Fez xixi no chão.

Mico-de-cheiro,
Já para o banheiro!


Vive na Amazônia. Usa a própria urina para marcar seu território na mata. Anda em bandos e sua dieta é muito variada: insetos, frutas, sementes, folhas, flores, ovos e passarinhos. Por ano, milhares são capturados para laboratórios de pesquisa ou lojas de animais de estimação. Além destas, outra causa de sua extinção é a destruição de seu hábitat.

29 setembro 2011

A história da Princesa do Reino da Pedra Fina


A história da Princesa do Reino da Pedra Fina
texto: Rosinha Campos (adaptado do cordel de Leandro G. Barros)
ilustrações: Rosinha Campos
editora: Projeto


A mesma amiga que me apresentou "Guilherme Augusto Araújo Fernandes" me apresentou também o livro que trago hoje - vejam a importância de boas amizades... A escola de sua filha desenvolveu recentemente um projeto incrível, que abordou a literatura de cordel e a xilogravura. Sabendo que eu ia me apaixonar, ela me emprestou o livro, que na verdade faz parte de uma coleção composta por três títulos.

O projeto desenvolvido por Rosinha e a Projeto Editora é fascinante. Foram selecionados três cordeis de Leandro Gomes de Barros, cordelista paraibano, que viveu de 1865 a 1918, e produziu mais de 600 folhetos com milhares de edições. Leandro é considerado "o mais importante poeta popular de todos os tempos". A Coleção Palavra Rimada com Imagem reconta estes três romances com textos curtos e lindas imagens em xilogravura. A intenção da coleção, segunda a própria Rosinha é "colocar na mão das crianças a poesia popular". Por isso, ao final de cada livro, está encartado o livreto de cordel com a versão integral e original da história.

Fiquei lembrando de quando tinha a idade de minha filha, e de como era comum, naquela época, encontrar livretos de cordel a venda em bancas de revista, arrumados em expositores plástico, ou na forma original, pendurados em cordas esticadas, presos por prendedores de roupa. Nos dias de hoje é pouco comum encontrarmos bancas de revistas nas ruas, e os cordéis, em muitas cidades, praticamente entraram em extinção. A possibilidade de minha filha ter acesso e conhecer uma expressão cultural tão importante e marcante na construção cultural da nossa sociedade, principalmente para nós, nordestinos, me deixa imensamente feliz.

Falando na minha figurinha, embora o livro seja mais indicado para os maiorzinhos (acho que a partir dos 6 ou 7 aninhos seja o ideal) ela gostou bastante do livro. A história é mais longa e cheia situações diversas,  o que geralmente cansa os pequeninos, mas é também muito atraente, com elementos que garantem o envolvimento deles, com princesas, vilão e mocinho. A história, cheia de encantamentos, fala de um corajoso rapaz, e uma princesa que com sua inteligência consegue enganar o vilão que queria mandar o rapaz ao inferno.

No final do livro existem duas sessões, uma sobre a literatura de cordel e o cordelista Leandro Barros e outra sobre a técnica da xilogravura, onde Rosinha reune informações muito interessantes. Tirei de lá os trechos que destaco abaixo.

Cordel: 
"Formato pequeno, resultado da dobra em quatro do papel tamanho ofício, poucas páginas e papel barato". 

"No Brasil a literatura de folheto cria características próprias quando herda os versos da tradição oral, dos nossos violeiros e repentistas, em forma de poesia, linguagem que favorece a memorização por meio das rimas, do ritmo, das repetições e da musicalidade. Os versos mais usuais são as redondilhas, que se assemelham a cantigas de roda."

"Em geral, o folheto é escrito em versos setissílabos ou decassílabos, com estrofes que variam entre seis, sete e dez versos. Deve seguir um esquema fixo de rimas e apresentar um conteúdo claro e linear. Os romances são geralmente escritos em sextilhas, com rimas ABCBDB.
Daqui a cinquenta léguas   A
Existe um grande reinado   B
Que passou mais de cem anos  C
Sendo o povo devorado  B
Por um monstro horrendo e feio   D
Misterioso encantado   B"

"O folheto impresso no Brasil mais antigo de que se tem registro é "Saudade do Sertão", de autoria de Francisco das Chagas Batista, de 1902."

Xilogravura:  

"Palavra composta pelos termos gregos xylon (madeira) e graphien (escrever), significa escrever ou gravar tendo a madeira como matriz. A técnica consiste em talhar na madeira o desenho ou texto que se deseja reproduzir. Entinta-se a superfície que ficou em relevo e, em seguida, é prensado o papel ou outro suporte. No Nordeste, a madeira tradicionalmente utilizada pe a umburana, assim como o cedro, a cerejeira, o pinhyo e a cajá."

"O registro mais antigo de xilogravura em cordel é no folheto "A história de Antonio Silvino", do poeta Francisco das Chagas Batista, em 1907, e não foi impressa na capa, mas no seu interior"

Aviso Importante: por indicação da leitora Ana Paula, gostaria de divulgar o projeto Ler faz crescer do Itaú. Para participar e receber pelo correio a Coleção de livros infantis disponibilizada pelo projeto basta fazer seu cadastro no site http://www.itau.com.br/itaucrianca/

PS: viagem a trabalho e o post da semana atrasado... vou tentando regularizar nossa programação normal.

20 setembro 2011

Fazendo o planeta dormir...

Todas as noites do mundo
texto: Dominique Demers
tradução: Irami B. Silva
ilustrações: Nicolas Debon
editora: Companhia Editora Nacional

O livro que trago hoje chegou até mim de um jeito muito especial: através de um post do delicioso blog Gato de Sofá, de Luciana Conti. O blog de Luciana foi para mim, sem dúvidas, a maior inspiração para criar o Cachinhos Leitores, e nele peguei muitas e excelentes dicas de livros, como a que trago hoje. Fiquei super curiosa para ler Todas as noites do mundo, e algum tempo depois, quando a oportunidade surgiu, eu a agarrei na hora.

Todas as noites do mundo são iguais para o menino Simão: seu pai o coloca para dormir, e a todo o planeta. Uma a uma, todas as criaturas, de cada região do globo, rendem-se ao sono e à fórmula mágica pronunciada pelo pai de Simão, adormecendo enfim. Enquanto isso, Simão enxerga tudo com a sua imaginação. Aliás, imaginar o que o livro narra não é uma tarefa difícil. Seu texto e suas ilustrações conseguem sim, fazer nossa imaginação voar. Vou comprovar isso reproduzindo a página que mais gosto no livro:

"Os leões enormes sacodem a juba soltando rugidos lancinantes. Os baobás se arrepiam. Então todos os leões, os elefantes, as zebras, os rinocerontes, as girafas, as gazelas, as panteras e os outros animais, grandes e pequenos, de todas as matas dos trópicos, fogem à luz da lua. Eles partem às pressas para seus abrigos, seus covis, suas tocas. Correm para se lançarem nos braços da noite."

Sei que a foto ficou bem mequetrefe, mas dá para ver o quanto é legal, né? Toda vez que leio fico imaginando a juba do leão balançando e seus rugidos anunciando o final de mais um dia. Adoro ler para minha filha na hora de dormir, principalmente porque quando ela era menorzinha esse era um joguinho que eu repetia todas as noites: ir anunciando quem naquele momento já estava dormindo, dos seus coleguinhas da escola, familiares e amigos, aos passarinhos, cavalos, gatos, e todos os bichinhos que conseguisse lembrar. Ela sempre dormia no meio da lista.

Dêem uma olhadinha também no post da Lu Conti, ela identifica outros pontos do livro, como a deliciosa relação de Simão com o pai, o que vivenciamos tantas vezes em nossas casas.

15 setembro 2011

Livros para os pequenininhos

foto: getty images

Atendendo a alguns pedidos, hoje trago sugestões de livros para os menorzinhos. Já fui mãe de bebê e sei quantas são as dúvidas sobre quais as melhores opções para eles, e o melhor momento para apresentar-lhes o mundo dos livros. Muito já foi dito sobre o assunto, e com muito mais propriedade, por isso vou deixar apenas a minha opinião.

Não li livros infantis na gravidez, mas depois que minha filha nasceu e eu descobri a internet como ferramenta de troca de experiências maternas, conheci muitas mães que tiveram como hábito ler para a barriga desde que se descobriram grávidas. Achei a idéia sensacional, e sinceramente, se tivesse outra gravidez adoraria fazer isso. A criança vai acostumando com seu tom de voz, a entonação e acima de tudo, aquele momento de leitura vira um momento de contato da mãe com o bebê que ainda nem nasceu.

Mas é claro que é quando o bebê começa a interagir com o mundo que o contato com os livros torna-se realmente precioso. Vou dar como exemplo a minha experiência pessoal com a introdução musical da minha filha. Eu comprei e ganhei vários cd para ouvir durante a gravidez: Beatles for babies, Mozart for babies, Canções de ninar do Palavra Cantada, dentre outros, todos de excelente qualidade. Comprei um aparelho de cd portátil e coloquei no quartinho dela, e ela só dormia com um sonzinho de fundo, o barulhinho da barriga, do coraçãozinho batendo, etc. Bom, a verdade é que essa prática durou pouco mais que o seu primeiro ano de vida, e outro dia até pensei que o aparelho estava quebrado, mas era apenas falta de uso :o. Embora goste de música, não tenho lá muita paciência para parar e ouvir um cd em casa, e embora eu esteja sempre catando as melhores opções musicais para minha filha (principalmente para fugir do que as grandes produtoras têm a oferecer às nossas crianças), esse definitivamente não é um hábito da nossa família. Sem dúvida paramos muito mais vezes para ler um livro que para ouvir um cd.

O que quero dizer é que de nada adiantou ouvir músicas para bebês durante a gravidez e seus primeiros meses, se quando ela realmente começou a interagir e a formar suas preferências musicais essa prática desapareceu na nossa casa. Hoje se alguém pedir para ela cantar uma música ela certamente cantará algo que aprendeu na escola, embora sua estante estejam cheia das melhores opções musicais para crianças no Brasil (ainda bem que a escola dela tem uma excelente professora de música - thank god...) .

Então, eu ouso repetir o que já ouvi de expecialistas diversos: quanto mais cedo melhor, simples assim. Sem neuras do tipo "já era para ter começado?" ou "estamos atrasados?". Comecem, e será o melhor momento. Quando o bebê é ainda bem pequeno o que se lê é irrelevante. Ele ainda não compreende o significado das palavras e ainda não se fixa nas imagens. O que importa é a sua voz, a sua presença ali, inteira, lendo para ele.
Livro de Pano - A abelha esperta
Editora: Ciranda Cultural

A medida que cresce o bebê passa a se interessar pelas imagens, as texturas, e vai desejar tocar e provar o livro como faz com qualquer brinquedo. Nessa fase então, os livros brinquedos são importantíssimos. Adoro os de tecido e de plástico para banheira, porque podem ser amassados, mordidos, babados e depois devidamente lavados. E é ótimo que as crianças façam tudo isso, que se familiarizem com os livros assim.


Coleção Livro de banho Balance e Brinque
Editora: Ciranda Cultural

Por volta do primeiro aninho os livros ainda precisam ser mais resistentes, capazes de suportar a voracidade das mãozinhas curiosas, mas já podem ser cartonados, principalmente se a criança não tiver muita tendência a colocar tudo na boca (foi o caso da minha filha). Os livros com bichinhos sempre fazem muito sucesso entre os pequenos, principalmente se o texto tiver muuuus, miaus e auaus - que eles começam a imitar e identificar. O colorido é importante, assim como as texturas. Um artifício que gosto bastante são os livros com dedoches, brincadeira simples que encanta as crianças pequenas.



Patinho quer brincar
Editora: Sextante / Gmt 

Com mais de dois anos a criança começa a conseguir concentrar-se para acompanhar historinhas curtas, e, na minha opinião, ler para eles fica muuuito mais interessante.




Coleção Carinhas Engraçadas
Editora: Caramelo

Os livros que coloquei aqui são os que mais gosto, que usei com minha filha ou tive contato mais recentemente, mas existem outras excelentes opções no mercado. Eu gostaria de destacar apenas que nem sempre os livros mais caros e com mais efeitos especiais são os melhores. Eu particularmente costumo torcer o nariz para livros caros e cheios de artifícios rebuscados, ou personagens televisivos. Eu acho que nessa fase os animais são mesmo os melhores personagens...

PS1: desculpem o atraso no post. Eu sempre soube que atrasos assim seriam possíveis, mas vou tentar sempre me manter fiel às terças-feiras.

PS2: simmm, eu preciso oferecer mais as boas opções musicais que dispomos para minha filha. Mas eu preciso descobrir o verdadeiro prazer de fazer isso, para então mostrar o quão prazeroso pode ser para ela. Não foi assim com os livros???

06 setembro 2011

Roedores sem juízo

Cadê o juízo do menino?
texto: Tino Freitas
ilustrações: Mariana Massarani
editora: Manati

Eu conheci o Tino em meados da década de 90, na época da faculdade, quando eu frequentava o barzinho em que ele tocava. Nunca trocamos mais do que algumas palavras, mas como tínhamos uma amiga em comum, lembro bem do nascimento do seu filho e da sua ida para Brasília. Passaram-se muitos anos, minha vida deu algumas voltas, e eu nunca mais tive notícias de Tino. Até pouco mais de 2 anos, quando descobri na net, nas minhas primeiras pesquisas sobre literatura infantil, os Roedores de Livros – e que descoberta especial.

O grupo foi criado por Tino e sua esposa Ana Paula, e leva a literatura infantil às crianças da Ceilândia, nos arredores da capital nacional. Os encontros acontecem nas manhãs de sábado, com mediações de leitura, inclusive com as crianças maiores lendo para as menores, leituras individuais e os brinquedos cantados de Tino. No final de cada encontro as crianças escolhem os livros que querem levar para ler em casa, e os devolvem no encontro seguinte. Eu acompanho o blog desde que o descobri e sempre fiquei encantada com o delicioso clima de aconchego presente nos encontros do grupo, me reportando para uma época longínqua, quando eu passava minhas tardes de sábado entre as crianças de uma comunidade da minha cidade. O trabalho dos roedores é um lindo exemplo de como os livros podem aproximar pessoas, encantar e motivar nossas crianças, e plantar sementinhas que certamente brotarão no futuro – visite o blog e você vai entender a que me refiro. Por tudo isso, foi imensa minha alegria ao saber da premiação dos roedores no 16˚ Concurso FNLIJ Os melhores Programas de Incentivo à Leitura Junto a Crianças e Jovens de Todo o Brasil, que aconteceu no início de junho. Como prêmio, um acervo especial com 500 livros. Não tenho dúvida que melhor premio não haveria para a toca dos roedores.

Mas isso não é tudo. O trabalho dos roedores deu outros frutos, e eu tive o prazer de conhecer também o Tino escritor, que está encantando a todos, crianças e adultos. Soube do “Cadê o juízo do menino” quando ele ainda estava no prelo, pelo blog dos roedores, e só sosseguei quando o tive nas mãos. Estávamos esparramados nos almofadões da Cultura da Paulista e nos rendeu muitas risadas a história do menino que não sabia onde deixou seu juízo e saiu fazendo muitas maluquices pela casa e na escola. O texto é todo rimado, as ilustrações de Mariana Massarani são divertidíssimas, e no final do livro o leitor é convidado a voltar para o começo e tentar descobrir onde se escondem os parafusos do juízo do menino... brincadeira que só poderia ter sido criada na cachola de um menino sem juízo, como o Tino.

O livro também é um belo exemplo de como o trabalho harmonioso entre escritor e ilustrador trás um resultado diferenciado. Tino escreveu os versos e pensou na brincadeira visual, que ganhou vida nos traços de Mariana. Quem mais ganhou fomos nós, leitores, é claro. Ah, e o juízo de Tino não sossegou, não. Outros livros estão saindo da cabeça desse roedor, e eles certamente aparecerão por aqui.

Outro dia o livro rendeu boas risadas aqui em casa, porque ao entrar em meu quarto flagrei minha filhota deitada em minha cama com o livro aberto sobre as pernas procurando os parafusos. Perguntei o que fazia e ela nem pestanejou: "Estou lendo O MENINO DO JUÍZO". 

30 agosto 2011

Enfrentando medos e desafios sobre uma bicicleta.


Julieta de bicicleta
texto: Liana Leão
ilustração: Márcia Széliga
editora: Cortez

Na escola da minha filha, sexta-feira é dia de ciranda do livro. As crianças escolhem um livro para ficar no final de semana e devem, na segunda-feira, devolvê-lo com um desenho inspirado nele. No início do ano é solicitado no material escolar três livros próprios a idade, de escolha livre, com base em uma lista de sugestões de editoras – quase nunca seguida. São esses livros que vão para a dita ciranda, e tenho que confessar que raramente me encanto com algum... para ser bem educada. Resumos mal feitos de contos infantis, livros cheios de recursos visuais e vazios de conteúdo, e algumas vezes me passando a impressão de que o único critério para a escolha foi o preço. Já tive algumas - poucas - agradáveis surpresas, mas nenhuma igual a de algumas semanas, quando chegou na mochila Julieta de bicicleta, das paranaenses Liana Leão e Márcia Széliga. E a pequena veio empolgadíssima com ele, mostrando que já sabe reconhecer quando tem algo realmente bom nas mãos.

Julieta é uma menina muito, muito meticulosa, que gosta de fazer tudo sempre i-gual-zi-nho. A hora de acordar, o número de passos até o banheiro, a ordem dos movimentos de sua escova de dente, e por aí vai. Além disso, ela gosta de tudo muito perfeito, da sua roupa à sua postura, e só sabe andar em linha reta. Isso mesmo, uma pedra no caminho, que atrapalhe seu andar linear, pode transformar-se em um tormento para Julieta, afinal, ela não está acostumada a imprevistos e a ter que tomar decisões rápidas. Com tudo aparentemente sob controle, ela parece se sentir segura e feliz, vivendo sem surpresas. Até que no seu aniversário a menina ganha uma bicicleta, e vai bicicletar no parque. Tudo ia bem até que ela se depara com uma curva muito encurvada, e paralisa, invadida por seus temores.

Adorei a forma inteligente e direta como a autora abordou o medo do novo, do desconhecido. Cheio de exageros, o texto ficou leve e divertido, mas faz questão de tratar a criança com o respeito devido, como alguém capaz de entender e superar seus desafios. Aqui em casa, estamos vivendo uma fase de muitos medos povoando o dia a dia da Cachinhos. Fico com o coração doído quando vejo a minha menina ansiosa e com o coração acelerado diante de situações e pessoas desconhecidas... sobretudo porque me faz lembrar a menina que fui um dia. Por experiência própria sei do grande desafio que é vencer os medos e ansiedades da vida, e da importância de fazê-lo. Quem hoje me vê falante (até demais) e encarando desafios talvez não suspeite do longo trajeto que segui, e do coração acelerado que vez ou outra tenho que disfarçar. Por isso, mesmo com o coração doído, aguardo, paciente e ao seu lado, que ela também descubra seus próprios caminhos de superação.

E daí que o livro me fez conhecer um pouco mais de Liana Leão, que é doutora em letras, professora da UFPR, e tem outros livros publicados, aparentemente com a mesma competência ao abordar temas às vezes difíceis e relacionados aos desafios do crescer. Estou pesquisando com empolgação, e os resultados serão divididos aqui, claro. Mas o livro me reservava ainda uma surpresa: um prefácio escrito por Bárbara Heliodora, que definiu bem o cuidado e o respeito da autora com os pequenos leitores e faz uma boa reflexão sobre o processo de aprendizagem e formação infantil. Leia abaixo:

Isaac Azimov disse uma vez que não sabia qual o mistério que levava o processo de educação a sufocar a curiosidade natural das crianças, e é contra isso que se coloca Liana Leão quando escreve seus livros. Para ela, na formação da criança, não se pode tratá-la como um receptáculo vazio a ser entulhado de informações, é necessário desafiá-la, estimular sua curiosidade e seu raciocínio.

No pré-primário, como no 3o grau, não há nada pior do que transformar o que deve ser aprendido em inimigo, que pode tomar a forma de um dragão só vencido por heróis, ou em risco do fracasso na elaboração de uma tese. Há qualquer coisa de errado em qualquer processo de educação que não comporte o bom humor e o riso.

Há muito que aprender em Julieta de Bicicleta, principalmente a necessidade de ter, ao mesmo tempo, rumo e flexibilidade, convicção e curiosidade. Acreditar que a criança tem sua personalidade e merece ser respeitada para poder crescer tanto em conhecimento (e não decoreba) quanto em auto-confiança (e não capricho gratuito) parece ser a estrela-guia de Liana, em suas lindas incursões pelo universo infantil, onde tudo que tem para dar é trocado pelo prazer das descobertas de quem está vendo as coisas pela primeira vez, sem ares de superioridade ou de concessão.

Julieta de bicicleta é um prazer para todos nós, e convida-nos a entrar nesse doce processo de formação infantil.


Dra. Barbara Heliodora – crítica de teatro, professora de drama, tradutora e maior especialista brasileira em Shakespeare


Não poderia terminar esse post sem falar sobre as ilustrações de Márcia Széliga, que criou uma Julieta ruiva, de grandes óculos redondos, e tão entediante quanto a personagem merece. Para quebrar esse clima, figuras divertidíssimas, no melhor estilo nonsense, estão espalhadas por todo o livro, como uma ratinha fazendo pipocas que viram o contorno do balão dos pensamentos de Julieta, uma tartaruga de patins, um caracol de skate, peixes voadores com bexigas ou balões de ar quente, e um lindo canguru ciclista, que tem o corpo pintado de flores, e solta os passarinhos de uma gaiola enquanto pedala .

25 agosto 2011

Outras sugestões de livros de culinária para crianças.

Como prometido, hoje estou trazendo os livros infantis de culinária que não foram escolhidos por mim, mas que são tão bons que não poderia deixar de trazê-los aqui. Não há ordem de importância ou preferência, ok?

Dia de Festa - histórias e receitas para comemorar
texto: Gisela Tomanik
ilustrações: Luciana Schiller
editora: Nacional
 
Adorei a proposta deste livro: apresentar às crianças receitas e histórias gastronômicas associadas às diversas festividades e comemorações que nos rodeiam. Foi um daqueles livros que me fizeram parar e pensar “putz, que idéia fantástica, como nunca pensei nisso?” rsrs É fácil perceber que as nossas melhores lembranças gastronômicas (gustativas, olfativas, visuais e/ou auditivas), estão ligadas a comemorações, ou a momentos muito especiais. Aquele bolo de milho que sua mãe fazia no São João, o burburinho da família inteira enrolando docinhos para suas festas de aniversário, o cheiro das feijoadas ou churrascos nas comemorações de aniversário da turma, e por aí vai. Historicamente a humanidade celebra suas festas com comida, ao redor da mesa, em torno do fogão, e os textos do livro procuram mostrar essas associações entre as festas e a gastronomia. As ilustrações merecem ser comentadas a parte, pois dão um toque muito especial ao livro. Criativas e delicadas, elas são formadas por contornos bordados e uma série de elementos, como botões, tecidos, grãos etc. A estrutura do livro é dividida pelos vários tipos de festas, da nossa (casamento, aniversário, páscoa, Cosme e Damião) e de outras sociedades (ano novo chinês, halloween, festa das meninas - Japão). As receitas estão no final de cada capítulo, e são classificadas por faixa etária (3 a 6 anos, 6 a 10 anos e mais de 10 anos).



Um tico-tico no fubá - sabores da nossa história
texto: Gisela Tomanik
ilustrações: Camila de Godoy Teixeira e Rodolfo Zalla
editora: Nacional (coleção Dona Benta Comer Bem)

Como o primeiro, esse livro apresenta uma associação entre a gastronomia e a construção de sociedades, mas nesse caso a perspectiva é outra: a história antiga do Brasil, a partir do descobrimento. A idéia do livro é simples e envolvente, como todas as boas idéias. Em cada capítulo há um texto curto sobre a história do nosso país e a indicação de ingredientes ou tipos de pratos, seguidos pelas receitas, que possuem classificação etária (3 a 6 anos, 6 a 10 anos e mais de 10 anos). Por exemplo, o primeiro capítulo destaca o descobrimento do Brasil, ilustrado com imagem das caravelas, portugueses e índios. Depois do texto sobre o descobrimento, são apresentados outros com curiosidades sobre o palmito, a mandioca e o milho, e em seguida as receitas utilizando esses ingredientes. Outros capítulos falam sobre o ciclo do ouro, o ciclo do café, os bandeirantes etc. Uma forma deliciosa e divertida de, além de estimular o interesse pela culinária, ilustrar como se formou a história gastronômica de nosso país e seu povo.


 Doçuras de longe, sabores de monte. 
texto: Corinne Albaut
ilustrações: Aurelie Guillerey
editora: Nacional (coleção Dona Benta Comer Bem)

Outro livro da coleção Dona Benta. Desta vez as histórias gastronômicas e as receitas se reportam a países e regiões da Europa. Assim, cada capítulo do livro trata de uma região ou país, como Alemanha e Áustria, Espanha e Portugal, França, Itália. Uma viagem pela Europa, suas histórias e sabores. Para cada região, um texto com informações e curiosidades sobre as suas tradições culinárias, seguidas de receitas fáceis de serem repetidas pelas crianças.



Fogãozinho: culinária infantil em histórias
texto: Frei Betto e Maria Stella Libanio Christo
ilustrações: Regina Renó
editora: Mercuryo Jovem

Este é um livro especial por vários motivos. Mas para mim, o principal é que trata-se de um projeto de mãe e filho. A mãe, Maria Stella, foi autora de vários livros de culinária, e reconhecida como uma das maiores especialistas da culinária mineira. O filho, frei Betto, dispensa apresentações, pela sua militância pelos direitos humanos e a frente da mobilização social do programa Fome Zero. Pois bem, juntos eles criaram este livro que é perfeito para os que já estão na fase da leitura e dos questionamentos e reflexões sociais. O livro traz as histórias da turma do fogãozinho, e do menino João Limonada, que sente desde cedo a marca das injustiças sociais. As histórias da turma, contadas por frei Betto, são intensas e reflexivas, mas ao mesmo tempo fluidas e divertidas. As receitas trazidas por Maria Stella são fáceis e dispensam faca e fogão, própria para pequenos cozinheiros. Mas o que mais me chamou a atenção no livro foi a forma que os autores encontraram para juntar esses dois mundos. O livro se desenrola com as histórias da turma do fogãozinho e as receitas vão surgindo ao longo dela de uma forma muito gostosa e natural. Estou ansiosa para minha filha ter idade para ele, mas sei que não aguentarei esperar e o comprarei antes para mim rsrs


A panela amarela de alice: memórias de cozinha e maternidade
texto: Tatiana Damberg
ilustração da capa: Jana Magalhães
editora: Memória Visual

Esse, na verdade, não é um livro destinado às crianças, mas às mamães, tanto que nas livrarias está localizado na seção de puericultura. Mas achei que valeria a pena trazê-lo aqui, principalmente para as recém chegadas à maternidade. Ele e o da Juju eram os únicos que eu já conhecia, por conta das minhas pesquisas e aventuras gastronômicas, embora não os tivesse lido ainda. Tatiana Damberg, a Tatu, que mantem o Mixirica, um dos blogs de culinária mais badalados da net, escreveu este livro para dividir as suas experiências com a chegada da sua pequena Alice. Em tamanho mignon, o livro traz suas histórias desde o momento em que se descobriu como futura mamãe, e o desenrolar dessa doce (e louca...)* aventura. Para quem está embarcando nessa, o livro está cheio de receitas e dicas. Recomendo bastante para quem deseja formar uma experiência bacana do filho com a comida, criando um paladar diversificado e apurado desde cedo.

* parênteses por minha conta.

23 agosto 2011

Livros na cozinha


Juju na cozinha do Carlota
texto: Carla Pernambuco
ilustrações: Pinky Wainer
editora: Caramelo

A escola de minha filha trabalha com projetos trimestrais. Os projetos são abordados de forma multidisciplinar, ou seja, trabalham a linguagem, a escrita, a matemática, a história, e outras abordagens, e sempre há um convite de participação dos pais. Nesse trimestre, o tema do projeto me cativou de cara: Lápis, papel e garfo na mão. Embora eu tenha mais curiosidade que habilidade na cozinha, estou sempre buscando novas receitas e arriscando algumas coisas em casa, inclusive com ajuda de bons livros. E desde muito cedo estimulo a pequena a se aventurar também. De vez em quando eu solicito sua ajuda, e ela sempre vibra com isso. Despeja os ingredientes já medidos ou pesados, quebra os ovos, mistura com a colher, liga e desliga, com minha supervisão, os eletrodomésticos, dentre outras coisas. Quando a receita inclui palavras como “amassar”, “enrolar” ou “modelar”, vira farra pura. Procuro seguir um pequeno ritual: ela pega seu banquinho, eu pego a receita escrita, “lemos”, separamos, medimos e pesamos os ingredientes, preparamos e depois conferimos na receita se tudo foi feito certinho.

Por isso, quando tive conhecimento do novo projeto o desejo de comprar-lhe um livro infantil de receitas tomou conta de mim. Lembrei de já ter visto alguns em livrarias, e outros na net, mas não sabia ainda qual escolher. Assim, numa tarde tranqüila, fui sozinha a  uma livraria e olhei calmamente alguns livros no tema. O que começou como a despretensiosa escolha de um livro, terminou como uma divertida pesquisa sobre esse ramo da literatura infantil. Para minha surpresa, encontrei obras interessantíssimas, muito bem cuidadas, tanto no aspecto literário, como nas ilustrações, organização, e aspectos físicos, como tipo do papel e impressão. Alguns me fisgaram em cheio, e eu não poderia deixar de dividi-los aqui, mas eu tinha que escolher um, e devo confessar que apesar da qualidade das opções, essa não foi uma escolha difícil. Por isso, hoje irei apresentar o Juju na cozinha do Carlota, que foi meu escolhido, e na quinta-feira, excepcionalmente, trarei uma pequena resenha de outros livros do tema que merecem ser mencionados.

A minha escolha teve como critério principal a qualidade das receitas, e por isso afirmo que não foi uma escolha difícil. Como a autora faz questão de destacar, esse não é um livro de receitas infantis, mas um livro infantil de receitas. Aliás, a autora é a conceituada chef de cozinha Carla Pernambuco, proprietária do Carlota, um dos mais bacanas restaurantes paulistanos, e sua observação é perfeita. O livro traz receitas de fácil reprodução, que dispensam o uso de equipamentos complexos ou perigosos, mas não receitas "bobas" ou feitas para paladares pouco apurados. Pelo contrário, suas receitas exploram ingredientes e sabores diversos, possibilitando que os pequenos cozinheiros apurem e refinem seu paladar. E foi exatamente isso que me conquistou, pois era isso que buscava despertar em minha filha.

Carla escreveu o livro para sua filha Júlia, a Juju, que apresenta interesse pela culinária desde os 4 aninhos. Antes das receitas, o livro traz duas apresentações, uma da Juju e outra da Carla, ambas deliciosas de serem lidas com as crianças. São 29 receitas agrupadas em três capítulos: Salgados, Doces e Bebidas, e todas possuem classificação relativa ao seu grau de dificuldade, utilizando a ilustração de semáforos: verde para fácil, amarelo para médio e vermelho para difícil. O livro também tem uma apresentação sensacional, com ótimas ilustrações, inclusive para o passo a passo das receitas. Achei divertidíssimo observar minha filha, que ainda não lê, tentar decifrar as etapas de algumas receitas pelas suas ilustrações, e acertar a maioria. Ah, e no final o livro traz uma cartela de adesivos com algumas de suas ilustrações, o que deixou a Cachinhos, que adora adesivos, enlouquecida.

O livro é indicado para crianças a partir de 7 anos, idade da Juju quando o livro foi lançado, mas eu acho que com supervisão de um adulto e dependendo da desenvoltura da criança na cozinha, essa idade pode ser reduzida. Minha filha tem 4 anos e meio, e nós já fizemos 3 receitas: pão de queijo, (o pão pão queijo queijo), pasteis de banana, maçã e passas (os pastéis assados da Gabriela) e chocolate quente (o chocolate quente da fazenda). A massa do pão de queijo é feita no liquidificador, a massa dos pasteis é a comprada pronta e ele é assado no forno. Ela despejou todos os ingredientes do pão de queijo depois de me observar medi-los, junto comigo despejou a massa nas forminhas e sob minha supervisão assistiu encantada, pelo vidro do forno, os danadinhos crescendo lá dentro, segurou em minha mão para cortar as frutas, recheou, fechou e selou com um garfo os pasteis que eu coloquei no forno. Mas sem dúvidas o que mais curtiu foi mexer o chocolate quente quando estava no fogo: coloquei seu banquinho ao lado do fogão e fiquei ao seu lado, recomendando que ela levantasse mais o braço para que ele não encostasse na panela quente, segurasse na parte mais alta da colher de pau etc. Foi tudo muito gostoso, e o orgulho que ela sentiu ao servir o lanche ao papai foi impagável, assim como o que ouvi de sua boca outro dia: "Mamãe, eu decidi que não vou mais ser palhaço de circo (!!!) quando crescer, vou ser cozinheira, porque eu já sei cozinhar... ou eu posso ser palhaço de circo de manhã e cozinheira a tarde, né?"

Aqui em casa o livro está guardado na cozinha, junto com meus livros de culinária, e tem uma dedicatória que diz muito sobre minha relação com a cozinha:

Filha,
eu demorei muito tempo para descobrir que não nos sentamos à mesa apenas para matar a fome, e que as misturas em uma panela têm mais a ver com alquimia que com trabalho braçal. Torço que você demore menos tempo que eu para descobrir essas e outras verdades.
com amor,
Mamãe

 
Pastéis assados da Gabriela e Chocolate quente da fazenda:

Enviei o livro também para a escola, e a professora ao apresentá-lo para a turminha propôs uma votação para escolher uma receita para ser feita na sala. O chocolate quente ganhou e já foi feito pelos pequenos, que adoraram a experiência.

16 agosto 2011

As aparências enganam...

Guilherme Augusto Araújo Fernandes
texto: Mem Fox
ilustrações: Julie Vivas
editora: Brinque Book

O livro dessa semana é muito especial para mim, e eu estava louca para traze-lo aqui. Guilherme Augusto Araujo Fernandes é sem dúvidas um dos livros mais lindos que eu já tive o prazer de ler, daqueles que me emocionam e alegram a cada leitura. O interessante é que eu já o tinha visto nas prateleiras e sites das livrarias algumas vezes, mas seu título inusitado, confesso, nunca me atraiu. Uma capa de fundo branco, a imagem de uma velhinha e um garotinho de skate, e um título formado de quatro nomes próprios me parecia um conjunto nada atraente. Há pouco mais de um ano, entretanto, uma amiga me emprestou o exemplar de sua filha, junto com outros livros que ela havia utilizado na escola, e eu não pude acreditar que ele tinha uma história tão envolvente...

Guilherme Augusto Araújo Fernandes é um menino que mora ao lado de um asilo, e embora tenha um nome tão comprido, nem é tão velho assim. Ele é amigo de muitos velhinhos do asilo, especialmente de Dona Antônia, que perdeu a memória. Ao saber disso o menino sai numa busca para, primeiro descobrir o que é memória, depois encontrá-la para devolvê-la a sua amiga. Ajudado pelas percepções que outros moradores do asilo têm do que seja memória, o garoto consegue seus objetivos de uma forma ao mesmo tempo divertida e emocionante, sem se afastar da sua visão de criança. Além disso, o livro aborda a velhice de uma maneira muito doce, e o encontro de gerações com muita naturalidade. Eu, que fui uma criança que sempre gostou das histórias contadas por quem já viveu bem mais, fico particularmente emocionada com essa.

E o fato é que o  livro pouco atraente, que nunca ganhou sequer uma folheada minha nas livrarias, em minutos transformou-se em um dos meus favoritos, aliás, um do nossos favoritos. As aparências realmente enganam, e embora continue sendo atraída por elementos visuais e conceitos pré-definidos, depois de "Guilherme Augusto", estou muito mais atenta ao lado surpreendente dos livros infantis.

PS: comadre, obrigada por ter me apresentado essa pérola.

09 agosto 2011

Pai seta... Pai meta

Pê de pai
texto: Isabel Minhós Martins
ilustrações: Bernardo Campos
editora: Cosac Naify

O dia dos pais está chegando, e resolvi fazer uma pequena homenagem a eles. O livro Pê de pai descreve em suas páginas 24 “tipos” de pais. Na verdade nem são tipos de pai, são facetas que eles assumem no dia a dia, em suas relações com os filhos, e é impossível não se reconhecer, ou reconhecer alguém querido, em pelo menos algumas delas. O incrível é que o seu texto é formado apenas por expressões curtas, a maioria composta por duas palavras, e suas ilustrações, em poucas cores básicas, assemelham-se a sombras, quase sem detalhes e com poucos traços, e mesmo assim o livro transmite uma enorme sensibilidade. Acho que seu segredo está no fato da relação pai e filho ser tão intensa e presente na vida das pessoas, permitindo a compreensão e o encantamento assim, com elementos simples. Aliás, eu que sou assumidamente fã do que é simples mas carregado de significados, acho que é exatamente a simplicidade que dá o tom de encantamento ao livro, permitindo que cada leitor faça suas próprias associações e reconhecimentos.

Aqui em casa ele será uma homenagem ao pai da Cachinhos, no próximo domingo, que além de um companheirão para mim, é pai bóia, pai esfregão, pai colchão, pai doutor, pai freio de mão (meu favorito), pai chocolate e muito mais. Também reconheci nas páginas do livro o meu querido pai, que sempre foi meu pai casaco, meu pai escada, meu pai despertador, e hoje continua sendo meu pai cofre e meu pai motor.


Feliz dia dos pais!!! Para todos os pais, ou avós, ou tios, parentes ou aderentes, que conseguem ser para os filhos, ao mesmo tempo, pai seta e pai meta.

02 agosto 2011

A estrela de Neruda... uma indicação maravilhosa e estratégias maternas

Ode a uma estrela.
texto: Pablo Neruda
ilustrações: Elena Odriozola
tradução: Carlito Azevedo
editora: Cosac Naify

Lembro de ter tomado conhecimento da poesia de Pablo Neruda já no final do ensino médio, e lembro do impacto que ela me causou. Naquela fase ultra romântica da minha vida, sua forma de falar do amor me encantava e embalava. Tempos depois descobri que Neruda tinha falado de bem mais do que amor, e mais recentemente que ele também falou às crianças. E fico muito feliz em pensar que minha filha poderá conhecer a poesia de Neruda ainda na infância.

Ode a uma estrela é tão lindo quanto o título sugere. É poesia, mas contém uma história com início, meio e fim, o que é importante para prender a atenção e o entusiasmo das crianças. Contada em primeira pessoa, a história fala de um homem que, do alto de um arranha-céu, toca a abóbada noturna e apodera-se de uma estrela. Expressões como altíssimo e aflitivo para o arranha-céu e amor extraordinário para o ato de pegar a estrela, expressam o tom intenso do poeta. A história se desenrola pelas dificuldades que surgem com a posse da estrela, cuja luz atrai a atenção de muitos e dificulta as tarefas mais simples na vida de seu "dono", que afinal a liberta. A possibilidade surreal de pegar uma estrela e carregá-la no bolso, ou guardá-la debaixo de sua cama, o texto cuidadoso e as ilustrações sensacionais - que quase nos fazem tocar a luz da estrela - garantem o encantamento dos pequenos. Para os adultos, cabe uma boa reflexão sobre "pegar e guardar para si" um ser amado, que no fundo, queria retornar para a noite, e sem dúvida, tinha muito mais a oferecer estando livre. Em suma, livro para a família toda.

O livro foi comprado na farra que fiz na Livraria Cultura semana passada, mas estava na minha lista de COMPRAR URGENTE desde que o vi/ouvi na lista dos 30 melhores livros infantis de 2011, e eu quero falar um pouco sobre essa maravilhosa publicação da revista Crescer. Aliás, quero principalmente destacar o trabalho cuidadoso e apaixonado de Cristiane Rogério, que é editora de Educação e Cultura da revista, mantem a coluna semanal "Ler para Crescer" e é responsável pela área Livros para uma Cuca Bacana (que além de resenhas de livros agrupados por indicação de idade - uma excelente fonte de pesquisa para bons livros - traz entrevistas com escritores e ilustradores, contos de convidados especiais e os geniais vídeos da série Livro Contado) e pela seleção anual de "Os 30 melhores livros infantis do ano" - ufaaaa... Sou fã do trabalho de Cristiane e o acompanho há anos, sempre esperando ansiosa a divulgação dos "30 melhores", que está na sexta edição e cada vez melhor. Em 2010 e 2011 a apresentação dos 30 escolhidos incluiu um audio com a leitura do início das obras e um videozinho que mostra uma criança o manuseando. Um deleite para quem gosta de livros infantis. Clique aqui para ouvir e ver Ode a uma estrela.

O livro está aqui do meu lado, mas ainda não foi apresentado a minha filha, e isso tem dois motivos principais: eu escolho o melhor momento para apresentar livros a ela, e eu evito passar-lhe a ideia de consumismo, mesmo que seja com livros. Adoro escolher livros para minha Cachinhos, porque adoro imaginar como cada palavra, cada história, chegará ao seu ouvido, por isso procuro escolher o melhor momento para apresentar esse ou aquele livro. Na verdade, quero que os livros tenham o melhor impacto possível sobre ela, e embora erre algumas vezes (as vezes ela só vai se interessar por um livro meses ou anos depois de ter ganho), ainda prefiro seguir tentando acertar. O outro motivo tem a ver com o consumismo, do qual eu prefiro preservá-la. É fato que não sou uma pessoa consumista, mas tenho meus momentos de exageros, principalmente quando o assunto é livros. Compro muito mais livros que brinquedos para ela, e embora ache importantíssimo que ela tenha variedade e qualidade de livros em casa, não quero passar a ideia de descontrole, nem que os livros são comprados sem sacrifícios, o que não é verdade, MESMO. Enfim, sempre tenho livros guardados em uma caixa que mantenho no alto do armário do meu banheiro, aguardando o tal "momento oportuno" para chegarem a suas pequenas mãos. O momento pode ser dado por ela, ou simplesmente pelo espaçamento de tempo entre um livro e outro. Assim, Ode a uma estrela vai para a dita caixa, mas prometo voltar para contar quando ela "ler" pela primeira vez Neruda... precinto que será um grande momento.

28 julho 2011

PROMOÇÃO!!!

Aviso aos navegantes: até o final do dia, todos os livros da Cosac Naify estão pela metade do preço na Livraria Cultura - lojas físicas e internet. A editora tem excelentes títulos, todos com apresentação impecável, e preços geralmente mais salgados que as demais, ou seja, uma ótima oportunidade. Eu já fiz a festa na sessão infantil, claro...

dica: a livraria Cultura, assim como a livraria Saraiva, possui a opção de entrega dos livros comprados pela internet nas lojas físicas sem a cobrança de frete. Basta selecionar a opção "Retirar em loja" como opção de entrega, a livraria vai te ligar para avisar que os livros chegaram e você retira na loja física. Para quem mora em cidades com livraria Cultura e está sem tempo de ir hoje, é uma boa alternativa.

26 julho 2011

Menina bonita do laço de fita



Menina bonita do laço de fita
texto: Ana Maria Machado
ilustrações: Claudius
editora: Ática

Para quem não sabe, a minha é uma família colorida. Isso na prática, porque na teoria, usando como referência o censo demográfico do IBGE, estamos os três na enigmática categoria dos pardos. Em relação ao tom de pele, sou o que se costuma chamar de morena clara, com olhos e cabelos escuros, e como se sabe, muitos cachos. Meu marido, seguindo a mesma linha de raciocínio, é moreno escuro, com alguns traços afros: cabelo de carapinha, nariz largo, lábios grossos. Nossa filha puxou o tom de pele do pai, com traços mais misturados, como lábios mais finos e cachos bem definidos, embora menos largos que os meus.

Quando ela ainda era um bebê, eu comecei a imaginar que em um determinado momento de sua vida ela começaria a fazer questionamentos relacionados a sua cor, e foi nessa época que me deparei, em uma livraria, com esse livro que já é quase um clássico da literatura brasileira: Menina bonita do laço de fita, da maravilhosa Ana Maria Machado. Naquela primeira leitura tive certeza que, quando o momento das perguntas chegasse, eu o leria para minha filha. Mas o fato é que o tempo foi passando, e nenhum questionamento surgiu. Mais que isso, a pequena demonstrava muita consciência em relação a sua cor, e tranqüilidade com nossas diferenças, tanto em conversas quanto em desenhos. Eu comecei a imaginar que ela era mesmo muito bem resolvida, e tais questionamentos nunca chegariam... mas chegaram, explicitamente na forma de uma insatisfação: “eu não quero ser pretinha, eu quero ser branquinha como você, mamãe”. Assim mesmo, direta, sem rodeios, como acontece com as crianças que não têm medo de mostrar seus sentimentos. E continuou “vou me pintar de branco, misturar tinta e passar com pincel”. Eu disse que não podemos mudar nossa cor, que tinta não muda quem somos, que sua cor é linda, como a do papai. Mas ela falou mais: “mas eu não gosto de ser pretinha, e não quero ter a cor do papai”. Disse a ela que tudo bem ela querer ser diferente, mas deixei claro que nem ela nem ninguém poderia mudar de cor (espero que ela demore a saber de Michael Jackson rsrs).

Tentei ser o mais tranqüila e clara possível nessa conversa, mas não posso negar as apreensões que me rondaram. Meus medos, anseios e culpas maternas ficaram querendo encontrar uma brechinha para chegar, e é maravilhoso saber que também nesses momentos os livros infantis estão a postos para nos ajudar. Assim, no dia seguinte a uma segunda rodada de questionamentos, iniciada novamente por ela, dei-lhe o livro. Ela que adora presentes e adora livros, ficou eufórica e pediu que eu o lesse imediatamente. Deitamos em minha cama e fui lendo a história de um coelhinho branquinho, branquinho, que admira muito sua vizinha, uma menina de pele escura e lustrosa como o pelo de uma pantera negra na chuva. Ele a considera a pessoa mais linda que já vira, e deseja ter uma filhinha pretinha como ela. Depois de várias tentativas de ficar preto(inclusive pintar-se de tinta preta), ele percebe que não poderia mudar sua cor, e a única forma de ter uma filha pretinha seria casar-se com uma coelhinha pretinha.

Um pouco depois da leitura, quando estávamos juntas na cozinha, falei para minha filha imitando o coelhinho da história: “menina bonita do laço de fita, qual é teu segredo para ser tão pretinha?” e ela, decidida, respondeu: “eu não sou a menina bonita do laço de fita!”. Reformulei a pergunta e a repeti, começando dessa vez com o seu nome, e ela respondeu “é porque meu pai é pretinho”. Nossa, quanto alívio com essa resposta... Sei que os questionamentos continuarão, a insatisfação também, mas percebi que ela começou a entender suas origens, e tenho certeza que um dia terá muito orgulho delas, mesmo que prefira ter isso ou aquilo diferente (quem não prefere?). Bom, fato é que já relemos o livro várias vezes, e há meses novos questionamentos não surgem.

Para mim é um consolo saber que posso contar com bons livros como aliados. Falando nisso, desde então tenho me sentido muito próxima de Ana Maria Machado, como se formássemos uma parceria rsrs Delírios secretos que os livros infantis nos proporcionam.

19 julho 2011

Na arca, de A a Z...

Boa Noite, Noé
texto e ilustrações: Molly Schaar Idle
tradução: David e Elisiane Araújo
editora: Mundo Cristão


Minha filha começou a conhecer as letras pela inicial dos nomes das pessoas. Primeiro a do seu próprio nome, depois do nome de seus colegas, então dos pais de todos os colegas da sala, das professoras, outros colegas da escola, e por aí seguiu, até conhecer todas as 26. Por isso não pude resisti quando vi Boa Noite, Noé na prateleira de uma livraria.

O livro conta como, em sua arca, Noé coloca para dormir cada casal de hóspedes. No texto rimado, cada bichinho tem um jeito diferente de dizer boa noite - alguns bem conhecidos dos pais e mães de filhos pequenos - de acordo com as características de cada um. Aliás, os animais são bastante variados, e alguns pouco conhecidos, o que é muito interessante. O livro tem também uma apresentação ótima, com capa dura e ilustrações fofas dos vários bichinhos e de um gorducho e simpático Noé.

Mas o que me encantou foi que cada animal é chamado pelo nome, e os nomes seguem a ordem alfabética, desde Ana e André, os jacarés, que escovam e escovam até que cada dente fique bem branquinho, até Yasmin e Yuri, os iaques, que bocejam e mais uma vez dormem como desejam. O Z? Ahhhh, leia o livro para descobrir...