31 dezembro 2014

Para terminar 2014...



2014 foi para mim, dos anos mais intensos e complexos. Daqueles que passam e parece que vivemos pelo menos uma década nele. Teve de tudo um pouco - ou muito. Riso, choro, desesperança, fé, garra. Bom, teoricamente todo ano é assim, mas em 2014 tudo foi muito forte. Não necessariamente ruim nem bom, mas intenso.

Foram muitos desafios enfrentados nesse ano, algumas batalhas perdidas, mas muitas vitórias também. Assim, termino o ano muito feliz, porque apesar dos percausos estou fortalecida, comigo mesma, com minha família e amigos, e com minha vida. Foi um ano de muitas descobertas e aprendizados!

E foi um ano em que o Cachinhos Leitores silenciou... Foram apenas quatro posts além desse último, nenhum no segundo semestre. Estava com a cabeça a mil, vivendo as emoções do ano, por isso me dei esse tempo. Ainda não sei o que esperar de 2015, por isso não farei promessas de final de ano. Por enquanto ele é um animal selvagem a espreitar e espiar, mas está tão perto que logo me dirá a que veio. Então, venho apenas desejar a todos um 2015 de esperança e saúde! Porque sem elas não dá. Ah, e se possível, de muitos livros!!!

21 maio 2014

poesias, cordeis e frutas!

O riso da melancia
texto: Maria Augusta de Medeiros
ilustrações: Bruna Assis Brasil
editora: FTD

Quem não gosta de frutas? Aqui em casa nós adoramos! E quem não gosta de poesia? Agora imagine juntar tudo em um livro com as delicadas e divertidas ilustrações de Bruna Assis Brasil? O riso da melancia foi uma gostosa surpresa que veio da biblioteca da escola, e nos conquistou de cara. A autora, Maria Augusta de Medeiros, classifica o livro como cordel, e é dessa forma, em estrofes de seis a oito versos, que ele apresenta 12 deliciosas frutas bem brasileiras, além da salada de fruta que encerra o livro. Duas estrofes para cada fruta, e elas são apresentadas com suas características, características de suas árvores e histórias engraçadas as envolvendo!

Tem a jabuticaba, a amora, a melancia, a carambola, a manga, o açaí, a graviola, o melão, a goiaba, o abacaxi, o mamão e a seriguela, além da salada de frutas! Eita, quanta delícia. Nem sei de qual eu gosto mais... Quanto ao poema, meu favorito é mesmo o da melancia, que brinca com o fato da fatia da melancia, cortada corretamente, lembrar um largo sorriso...



Ah, mas eu não poderia deixar de destacar também a seriguela, que como o poema lembra, nasce no Ceará, minha terra natal... e como esquecer as tardes sentada nos galhos carregados chupando os frutinhos amarelos e avermelhados? Alegria da criançada é um pé de seriguela carregado no quintal!


Não é lindo?

Hum, frutas e boa leitura: taí uma dupla que não devia falta na vida de ninguém! Principalmente de um alguém criança!!!

16 maio 2014

A magia de Oz!

O mágico de Oz
Warner Bros

Dizem que uma boa história jamais envelhece, e essa é uma grande verdade... Lembro tão bem do quanto fiquei encantada ao assistir O mágico de Oz, filme lançado antes mesmo de minha mãe nascer - 1939! Assisti muitas vezes e nem pestanejei antes de comprá-lo para a filha, então com 4 anos. E a menina, nascida no século XXI, se apaixonou, e este foi sem dúvidas o filme mais assistido até hoje nesta casa! Ela assistiu tanto que chegou a pedir para assistir apenas em inglês ou espanhol, acho que para variar um pouco rsrsrs

A história também foi assistida no teatro (uma versão linda de uma trupe cearense) e virou até tema da festinha de 6 anos, comemorada na escola. Não demorou muito pra pequena pedir uma versão em livro, o que já era esperado. O que me surpreendeu foi a versão escolhida por uma menina tão pequena - e ela sempre fez questão de lê-lo sozinha. São 223 páginas, embora numa versão reduzida. Foi o primeiro livro "grosso e de poucas figuras" que ela ganhou. Foi o primeiro livro a não ser lido de "uma sentada só". A primeira vez que ela usou um marcador de livros (suspeito que esse tenha sido o real motivo da escolha kkkk). Tá, a leitura ainda não terminou, e está esquecida há meses, mas o marcador parou além da metade, e suspeito que embora ainda vá demorar, ele ainda será lembrado e concluído...

O mágico de Oz
texto: L. Frank Baum
ilustrações: W. W. Denslow
tradução: Sérgio Flaksman
editora: Zahar

E em meados do ano passado, com a pequena encantada com as aulas de teatro da escola nova, me rendi a tentação de comprar mais uma versão linda dessa história imortal: a adaptação para o teatro de Tatiana Belinky. Dividida em atos, e com descrições das cenas, a história está toda contada em forma de diálogo entre os personagens, pronta para ser encenada. Ah, e as ilustrações são de André Neves! Preciso dizer mais alguma coisa? Vale a pena conhecer!

O mágico de Oz
adaptação: Tatiana Belinky
ilustrações: André Neves
editora: Paulinas

Bom, na verdade há ainda uma outra versão aqui em casa. Essa foi comprada em um sebo da minha cidade há muitos anos, quando a filha ainda era um bebezinho. Li e guardei entre os meus livros, imaginando que ainda demoraria muito para apresentá-lo à Letícia. Pois bem, numa ida ao shopping com o pai, surgiu o pedido e ele foi atendido com a versão verde lá de cima. Ah, ser mãe é viver sendo surpreendida mesmo...

O mágico de Oz
texto: L. Frank Baum
ilustrações: Marcelo Pacheco
tradução: Luciano Machado
editora: Ática

Para encerrar vou deixar uma foto da minha pequena Doroty comemorando seus 6 aninhos!


21 abril 2014

Uma amizade improvável e os riscos do "PRÉ-CONCEITO"

Trudi e Kiki
texto e ilustrações: Eva Furnari
editora: Moderna

Preciso confessar algo quase inconfessável para um amante da literatura infantil brasileira: eu não gostava de Eva Furnari (o verbo no passado talvez me ajude a ter quem termine de ler este post). Pois é. Quando comecei a querer conhecer e ler um pouco mais sobre literatura infantil, fui com enorme ânsia buscar as referências da área. Claro, queria conhecer os grandes autores e ilustradores, reconhecer seu estilo, seu traço. E foi assim que cheguei aos livros de Eva Furnari - é, eu devo ter tido contato com eles quando criança, mas confesso, não me recordava.

Bom, comecei como ela começou, pelos livros ilustrados, sem textos. Minha filha era uma bebezona e eles eram perfeitos para ela. Mas confesso, nunca fizeram muito sucesso, nem com ela, nem comigo. Embora as imagens e as histórias fossem bastante engraçadas, eu achava chato, e o pouco interesse da filhota não me animava muito. Fiquei um tempo sem lembrar deles, até que, com a filha conseguindo se concentrar em leitura, procurei seus livros com texto. Tentei um, dois e resolvi dar meu veredito: eu não gostava dos livros de Eva Furnari! E isso era um segredo secretíssimo, afinal, era certo que o problema estava comigo, não com suas obras, sempre tão admiradas e alardeadas. Segui com isso na cabeça e passei a ignorar os seus livros, onde quer que estivessem.

Até que a filha, sempre mais sábia que a mãe, resolveu trazer Trudi e Kiki na mochila da escola. Bom, não dava para ignorá-lo, principalmente porque a pequena estava interessadíssima em ouvir sua história. E eu li. E não acreditei em como o livro era tão, tão, tão bom. Li várias vezes, acho que para ter certeza. E tratei de catar outros na minha livraria favorita, e li vários, um após o outro, sentadinha entre as estantes. Sim! Eu gostava de Eva Furnari! Gostava muito! E sabe, a filha também!

Trudi e Kiki nem é o nosso favorito, mas achei justo introduzir Eva Furnari aqui no Cachinhos por ele, afinal, foi com a história divertidíssima dessas duas meninas, tão parecidas e tão diferentes, que deixei meu PRÉ-CONCEITO de lado e me dei uma nova chance de conhecer suas maravilhosas obras!

Trudi e Kiki são duas meninas muito parecidas, elas têm a mesma idade e a mesma altura, além do mesmo estilo de cabelo: ruivo e chanel. Trudi e Kiki são duas meninas muito diferentes, e a maior diferença entre elas é que... uma é bruxa e a outra não. Uma mora em Biribin e fala biribês. A outra mora em Burux, uma cidade de bruxos, e fala buruxês (que se fala fazendo biquinho com a boca). As montanhas separam as duas cidades, mas um dia, o convite de uma festa de dia das bruxas voou de uma para a outra, por cima das montanhas, e causou uma grande confusão. O livro é muito divertido e sua história pra lá de interessante. Mas o mais divertido mesmo são os convites e os diálogos que se estabelecem nas línguas das duas cidades. Um barato! A pequena bolava de rir! Clica na imagem para ler os convites:

imagem tirada daqui


Bom, mas depois de muita confusão, Trudi e Kiki descobrem que continuam com seus gostos e desgostos parecidos, e pela primeira vez, uma garota de Biribin virou amiga de uma bruxinha de Burux, e elas passaram a falar o biriburux, uma língua que só elas mesmas entendiam. Um ótimo livro para abrir espaço para uma conversa sobre amizades, sobre o que nos aproxima e nos diferencia. Sobre tolerância e PRÉ-CONCEITOS. Espero ter aprendido minha lição... não disse que os livros infantis podem nos surpreender?

Ah, e Trudi e Kiki ganharam uma versão em vídeo. Advinha? Maravilhosa também. É uma parceria linda de Eva Furnari com Kodo, apoiada pelo Governo de São Paulo. E o vídeo ganhou o terceiro lugar no Festival Prix Jeunesse em 2011! Imperdível! 


E o melhor é que vem mais Eva Furnari em vídeo por aí - confere uma entrevista onde ela explica tudinho aqui.

08 fevereiro 2014

Ruth Rocha e o fim do Papai Noel


Almanaque Ruth Rocha
texto: Ruth Rocha
ilustrações: Alberto Linares, Cláudio Martins, Elisabeth Teixeira, Miadaira, Suppa, Teresa Berlinck, Walter Ono
editora: Salamandra

Quando Letícia ainda era uma bebezona, comecei a falar a ela sobre o bom velhinho que traz presentes às crianças no natal. Fiz isso muito mais por uma pressão social, devo admitir. Eu fui uma criança que nunca acreditou em papai noel, acho - se acreditei era tão pequena que não tenho a menor recordação disso. Meus pais sempre acharam uma bobagem fazer as crianças acreditarem em papai noel e coelhinho da páscoa. E bem no fundo, sempre achei isso também. Mas mãe é mesmo um bicho meio bobo e extremamente influenciável, que tem pavor absurdo de errar, e quando me tornei uma tive muitas e muitas influências ao meu redor, sempre dizendo que papai noel representa a fantasia e o sonho da infância, que dizer que papai noel não existe é negar à criança o direito à fantasia e ao sonho (oi?) e etc. Bom, quando ela ainda estava na produção de garatujas, comecei a perguntar o que queria de papai noel e ajudá-la a produzir as famosas cartinhas. Não falava muito, não fazia as habituais chantagens "papai noel só traz presente para bons meninos", mas todo ano tinha o presente do bom velhinho aqui em casa.

Quem me acompanha deve saber também que comecei, ainda no seu segundo natal, a comprar um livro para ela como um presente de papai e mamãe. Então, tinha o presente do papai noel, e o presente de papai e mamãe, sempre um livro. Em 2012, uns 40 dias antes do natal, a pequena me fez a pergunta bombástica: "Mamãe, papai noel existe?" Eu já andava incomodada com o fato dela acreditar nele, e pensava como seria o desfecho dessa história, mas a pergunta assim, nua e crua?!?! Respirei fundo um tive um lampejo de inspiração que me fez responder com outra pergunta: "filha, você acha que ele existe ou não existe?". A resposta dela foi um enfático "acho que existe" e só me restou emendar um "então pronto, filha! Se você acha que ele existe, é claro que ele existe". E tudo seguiu sua programação normal, com cartinha e presente deixado embaixo da árvore.

Rá, mas ano passado, mais ou menos na mesma época, a pergunta se repetiu. E a minha resposta-pergunta também. Mas a minha menina me devolveu um sonoro "Não! Acho que ele não existe, não". Ah! Ela, ainda em 2012, tinha visto o presente da prima, deixado por papai noel, na mala do carro da tia, na noite anterior. Juntou a isso a revelação de alguns coleguinhas da escola, e o quebra-cabeça estava formado. Aliviada, respondi "ah, filha, então não deve existir mesmo, né? Mas... quem então dá os presentes às crianças?" "O pai e a mãe, claro!". Ufa, última peça encaixada! E foi assim que a minha menina descobriu "sozinha" (ela se orgulha muito de ter sido sozinha) que papai noel não existe. Sem dramas, sem choros, sem velas. Ah, o fato de ter garantido a ela que nada mudaria nos seus natal ajudou bastante! kkkk

Ela ganhou o presente que pediu a papai e mamãe, e o livro que mamãe escolheu, como todos os anos. E o livro deste ano foi pra lá de especial. Muitos livros de Ruth Rocha já são nossos velhos conhecidos, e adoramos todos. Mas o Almanaque é diferente! Dividido pelos 12 meses do ano, ele traz histórias, curiosidades, anedotas, adivinhações, festas populares, brincadeiras e experiências. Uma delícia. Ainda mais nessa fase da filha, que adora inventar novas brincadeiras. Para as férias pode ser um ótimo companheiro. Recomendo muito, muito mesmo, principalmente por ser um livro para se usar, literalmente, o ano todo, e por muitos anos.



PS: em dezembro vi algumas postagens em redes sociais criticando a pressão CONTRA a "magia do natal" e a fantasia do papai noel. Engraçado observar isso, porque sempre senti a pressão contrária, a favor da tal magia e do papai noel, como se não "jogar pirlimpimpim" sobre a festa seria quase um crime contra a infância - veja bem, não falo da festa, que eu adoro, mas de fantasia-la, como o mercado tanto gosta. Por isso pensei em mostrar o meu ponto de vista, e dizer que o melhor é que cada família decida como viver suas festas, de preferência bem conscientes do que é válido ou não à ela.

12 dezembro 2013

Agora assine...


O ponto
texto e ilustrações: Peter H. Reynolds
tradução: Monica Stahel
editora: Martins Fontes


Letícia adora desenhar, pintar, colar e cortar desde sempre. É sem dúvidas a brincadeira preferida dela, aquela que ela nunca se cansa. Lembro de quando aos 2 anos ela pediu uma cola bastão ao papai noel - na época ela chamava de "cola igual da minha pró". E é também a brincadeira que eu mais libero, aquela que mesmo cansada, mesmo sabendo que vou ficar muito tempo depois da pequena dormir limpando, não consigo dizer não (exceção para uso de tinta nas noites que antecedem dias úteis, que eu sou doida mas tenho juízo). E é um tal de guardar papel de presente, embalagens mil, fitinhas, botões, tecidos. Cola bastão e durex são coisas que tenho que esconder o que quero usar para garantir ter quando precisar rsrsrs A porta do seu quarto é colada de cima a baixo com artes suas e dos amigos mais próximos. Há alguns meses, separei as artes em papel mais queridas e arrumei em uma pasta catálogo (aquela com sacos plásticos) - ficou lindo. Adoro, apesar da sensação de caos que fica.

E desde sempre procuro não tolher suas iniciativas por motivos estéticos. Interfiro o mínimo possível, na verdade. Não lembro mais onde eu li ou ouvi, quando Let ainda era uma bebezinha, sobre a importância de permitir à criança, principalmente em seus primeiros anos, expressar sua criatividade e suas emoções na arte da forma que quiserem. E mesmo esteticamente não muito aceitável, incentivamos e utilizamos sempre que possível. Aliás, o seu micro-bolinho de aniversário na escola, feito em novembro, teve aranhas, seu nome e idade, feitos por ela, espetados no bolo (reparem no seu nome, com aranhinhas nos pingos dos is). 


E eu tinha que fazer essa introdução para falar do livro O ponto que me encantou desde o primeiro dia que o vi. Com traços simples e expressivos, utilizando cores primárias para expressar os sentimentos dos personagens, a história fala de quando Vashti deixa seu papel em branco até o final da aula de artes. Ela não sabe desenhar!!! Mas a professora de Vashti, com imensa habilidade (e como é importante ter educadores com esta habilidade), consegue fazer a menina deixar a sua marca, e depois pede: "agora assine". Vashti achou tudo aquilo uma grande bobagem, afinal, ela tinha feito apenas um ponto com caneta. Mas, na semana seguinte, era o ponto de Vashti que estava emoldurado sobre a mesa da professora.

Hummmm, Vashti conseguia fazer um ponto melhor que aquele, e fez! Muitos! Pontos amarelos, verdes, vermelhos e azuis. Pontos pequenos, grandes, enormes, e até um ponto sem pintar. E assim, a menina que não sabia desenhar, descobre uma forma inusitada de expressar-se artisticamente, e motivar outras crianças.

Adoro este livro porque ele me lembra o quanto é importante para qualquer um ter uma expressão artística. Eu, que já repeti no passado tantas vezes: "tenho duas mãos esquerdas", na gravidez descobri que poderia dar vazão a minha criatividade com arte, começando pelo enxoval da filhota, e seguindo por uma porção de outras coisas, principalmente nos seus aniversários. Queria ter sido mais estimulada na infância a deixar minha marca e assiná-la... demorei a perceber que poderia fazer isso. Tento acertar com a filhota.

Por fim, alguns dos últimos desenhos que ela fez, dos personagens de Caillou: Gilbert, Caillou e Rosie, copiados de imagens da internet, recortados e colados com cola bastão rsrsrs



25 novembro 2013

Menino faz futsal! Menina faz GR!

O rei da sola
texto: Márcia Frazão
ilustrações: Mariana Massarani
editora: Cosac Naify


O livro de hoje tornou-se imediatamente um dos favoritos de Letícia logo que chegou às suas mãos. E ela pediu para relê-lo infinitas vezes. E é claro, tem uma história por trás.

Ela, que frequenta creche desde os quatro meses e meio, desde que fez 1 aninho teve aulas de capoeira (sim, na Bahia é assim). Aos 2 anos começou a pedir incessantemente para ter aulas de balé, influenciada pela coleguinhas que saiam da escola de coque, tutu e sapatilha para as tais aulas. Não começou logo porque ainda não tinha idade, depois foi o nosso bolso o impeditivo, até que aos 4 anos começou as aulas e as frequentou até final do ano passado, quando ela mesma pediu para sair. Aí veio a escola nova, que inclui natação no horário normal da aula – e ela adora. E no contraturno, me foi dito durante a pré-matrícula, ela teria direito a mais um esporte a escolher: futsal ou ginástica rítmica (GR). Perguntei a ela o que preferia e a resposta foi imediata: futsal! E na semana seguinte: GR. E na seguinte a seguinte: futsal. Ainda era agosto, então decidimos que, quando as aulas começassem, ela faria uma aula de cada e decidiria.

Entretanto, na matrícula, em dezembro, fui informada por uma funcionária da escola que não havia o que escolher: menino faz futsal, menina faz GR. Exatamente assim. Fiquei revoltada, acima de tudo porque, a escola que escolhi com tanto cuidado e por tantos meses, tinha um posicionamento claramente sexista em relação aos esportes – aliás, até onde esse posicionamento se estendia??? Mas ao iniciar as aulas, a filha parecia decidida a fazer GR, achei melhor deixar para conversar com a escola em outro momento. Com quase dois meses de aula, juntei este a outros assuntos e marquei um horário com a direção. Alguns dias antes do dia marcado, o seguinte diálogo se estabeleceu:

- Mamãe, eu posso fazer futsal?
- Pode sim filha. (falei, sem nem pensar duas vezes)
- Então eu quero fazer futsal!
- Mas filha, se você for fazer futsal, terá que sair do GR. Você quer sair do GR?
- Quero. Não tem problema sair do GR.
- Você não gosta de fazer GR?
- Gosto. Mas gosto mais de jogar futebol.

Pronto, fui conversar com a diretora. Na verdade, eu achava que tudo não passava de um mal entendido, afinal, havia sido a vice-diretora quem tinha me dada a informação da possibilidade de escolha dos esportes. Mas não, a diretora confirmou a informação: menino faz futsal, menina faz GR. Simples assim. Perguntei o porquê e a resposta foi: “já tivemos meninas jogando futsal aqui, mas os meninos são muito truculentos e as meninas sempre se machucavam. O futebol é um esporte de muito contato, por isso restringimos, e hoje só os meninos fazem futsal”. Indignada não define bem a sensação que tive naquele momento. Fiquei arrasada. Mas saí da sala com a promessa de uma avaliação do assunto com a equipe de esporte e uma resposta breve... que não veio, mesmo depois de semanas.

Pus as mãos a obra, e busquei literaturas que abordassem o assunto. Pensava talvez num artigo científico, mas achei algo muito melhor: o capítulo 7 dos “Parâmetros Curriculares Nacionais” elaborado pela Secretaria de Educação Fundamental do Ministério da Educação – MEC, que dedica-se exclusivamente à Educação Física nas quatro primeiras séries da Educação Fundamental. O documento, que se destina aos professores da área, deve ser norteador para a prática do ensino da educação física entre crianças do ensino fundamental do país. E ele claramente incentiva a prática mistas (meninos e meninas) de esportes, destacando inclusive o futebol, como forma de desincentivo ao sexismo. Fiz uma carta à escola incluindo alguns trechos do documento do MEC, trechos que transcrevo ao final deste post. Ao final da carta, incluí ainda a lista de algumas instituições de ensino e/ou esporte que oferecem aulas mistas de futsal para a faixa etária de minha filha em nossa cidade. A carta foi entregue com cópia à direção, à coordenação de esportes e aos professores de futsal.

Várias semanas se passaram e a resposta continuava não vindo. Apenas quando decidi tirar minha filha do GR e matriculá-la na escolinha de futsal de um clube próximo de casa, a resposta veio. Encurtando a história, ela está fazendo futsal há alguns meses na escola e tem adorado. Os meninos estranharam, e ela ouviu coisas como “Eca, menina fazendo futsal?!?!” ou “Meninas não sabem jogar futebol, meninas só sabem dançar balé”, mas tem driblado bem estas questões. Não é uma exímia jogadora, mas nem ela, nem nós, estamos preocupados com isso. Como aprendi com o próprio documento do MEC e conversando com profissionais da área, ela está na fase de experimentar, buscar novas possibilidades, e a última coisa que precisa agora é que digam que ela não pode fazer algo, principalmente por ser menina.

Aliás, um dia, depois de perguntar várias vezes quando poderia começar o futsal, ela me perguntou se demoraria tanto se fosse um menino, e ao ouvir de mim a resposta sincera de que não, não demoraria tanto, que estava demorando porque ela era a primeira menina e a escola ainda estava avaliando como recebê-la (quanta baboseira a gente é obrigada a dizer a um filho...) ela desabafou “mamãe, eu queria ser menino. Ser menina é muito chato, a gente não pode fazer um monte de coisas!”. Pfff... E acho que foi por tudo isso que ela gostou tanto de O Rei da Sola. O livro conta a história de Claudinha, a artilheira do time de futebol da rua do Sobe e Não Desce. É que dias antes da grande final do campeonato, a sola do tênis de Claudinha descolou, e ficou igual boca de jacaré. Ah, mas aquele não era um tênis qualquer, era o tênis amarelo de Claudinha, seu tênis da sorte, que a ajudava a fazer tantos dribles perfeitos. Decididos a salvar o time, Claudinha e seus amigos procuram a bruxa Vitalina e o grandioso Rei da Sola para resolver aquele problema.

O que tem de especial nessa história? O time de Claudinha é formado por meninos e meninas, e em nenhum momento isso é tratado como um tabu. Meninas e meninos jogam juntos e isso é só. Simples assim. Mais que isso, a principal jogadora do time é Claudinha, uma menina, e a possibilidade da melhor jogadora não jogar com seu tênis da sorte mexe com todos do time, inclusive os meninos. Um livro fantástico, que trata a igualdade de gênero como algo tão corriqueiro e normal que não tem como as crianças não se encantarem.

Para finalizar, seguem alguns trechos do documento do MEC mencionado acima, com algumas considerações minhas:

Em sua página 33 o documento lista os objetivos gerais de educação física no ensino fundamental, e os dois primeiros são: “participar de atividades corporais, estabelecendo relações equilibradas e construtivas com os outros, reconhecendo e respeitando características físicas e de desempenho de si próprio e dos outros, sem discriminar por características pessoais, físicas, sexuais ou sociais” e “adotar atitudes de respeito mútuo, dignidade e solidariedade em situações lúdicas e esportivas, repudiando qualquer espécie de violência”.

Na página 25, o documento expõe explicitamente sua recomendação pela formação de equipes mistas nas aulas de educação física: “No que tange à questão do gênero, as aulas mistas de Educação Física podem dar oportunidade para que meninos e meninas convivam, observem-se, descubram-se e possam aprender a ser tolerantes, a não discriminar e a compreender as diferenças, de forma a não reproduzir estereotipadamente relações sociais autoritárias”.

Já nas páginas 58 a 63, o documento trata de orientações gerais para o ensino da educação física, destinando a segunda para “Diferenças entre meninos e meninas”, que inicia-se com o seguinte parágrafo: “Particularmente no que diz respeito às diferenças entre as competências de meninos e meninas deve-se ter um cuidado especial. Muitas dessas diferenças são determinadas social e culturalmente e decorrem, para além das vivências anteriores de cada aluno, de preconceitos e comportamentos estereotipados. As habilidades com a bola, por exemplo, um dos objetos centrais da cultura lúdica, estabelecem-se com a possibilidade de prática e experiência com esse material. Socialmente essa prática é mais proporcionada aos meninos que, portanto, desenvolvem-se mais do que meninas e, assim, brincar com bola se transforma em “brincadeira de menino”.” O documento também diz em sua pág. 52: “Se tiver havido um trabalho para diminuir as diferenças entre as competências de meninos e meninas no primeiro ciclo[1], o desempenho será quantitativamente mais semelhante. Nesse momento, também, as crianças estão mais cientes das diferenças entre os sexos; portanto, há que se tomar cuidado em relação às estereotipias, principalmente no que se refere aos tipos de movimento tradicionalmente considerados”.




[1] Segundo o documento, o primeiro ciclo do ensino fundamental vai até o 3º ano deste.