21 março 2013

Tudo tem seu tempo...

Max
textos e ilustrações: Bob Graham
tradução: Monica Stahel
editora: Martins Fontes


2013 tem trazido muitas mudanças aqui em casa, principalmente para a minha filhota. A primeira grande mudança foi a ida para uma escola nova – uma escola grande, com todas as vantagens e desvantagens envolvidas. Tem piscina e aula de natação, parques grandes, quadra, e muito espaço. Também tem salas cheias e funcionário que não têm muito tempo para tratar o individual. Depois de cinco anos em uma pequena escola de educação infantil, com salas de no máximo 10 alunos (a maior que ela teve tinha 9 alunos), onde todo mundo se conhecia pelo nome, foi um baque grande para ela (e suspeito, maior ainda para mim).

Mas uma das coisas que mais gostei na nova escola foi da Biblioteca. Uma biblioteca grande, com muitas estantes de livros, mesas, cadeiras e espaço para interação. Além disso, é programada, uma vez por semana, uma ida à biblioteca, onde as crianças leem, ouvem leituras e as comentam. Cada criança tem uma carteirinha, a data da devolução do livro fica marcada na fichinha presa à ele e eles podem pegar os livros quando quiserem (desde que não tenham débitos, claro). Eu que fui uma rata da biblioteca da minha escola, fico muito empolgada com isso!!!

O livro da semana passada, em especial, me chamou atenção - aliás, chamou muita atenção da filha também, que ficou super eufórica com ele. Max é um superbebê, filho dos super-heróis Capitão Relâmpago e Madame Raio, que mora numa casa amarela em forma de raio. Max é um garoto muito esperto e amado, mas ele tem um problema: não sabe voar como os outros superbebês! “Todos faziam o menino pular, saltar e o lançavam ao vento, como uma pena... mas Max não voava. Devagarinho ele flutuava de volta para o chão.” Seu pai queria que ele brincasse com o passarinho, mas Max preferia brincar com o cachorro.  O avô lembrava que na idade de Max já deixava marcas das mãozinhas no lustre da sala. Na escola, Max não era um super-herói voador, ele era um menino comum, de capa e máscara...

Mas um dia, algo inusitado ocorreu! Uma catástrofe estava prestes a acontecer, e Max reage... voando. Pronto, Max agora sabe voar. Mas ele continua sendo um menino comum. Bem, não muito comum. Como diz seu amigo Abrão: “Todo mundo é diferente em alguma coisa, não é mesmo?” Max é um pequeno herói capaz de proezas silenciosas, e que não gosta que sua mãe o abrace em público.

Max me fez lembrar de uma conversa que tive com a filha há algumas semanas, quando seu segundo dente amoleceu. Com o primeiro, eu tentei convencê-la a arrancá-lo, mas ela preferiu esperar que ele caísse sozinho. Agoniada (como uma boa nordestina) com seu segundo dente mole, que aliás está molíssimo, tentei convencê-la a arrancá-lo. Ela se negou e argumentou assim: "Mamãe, todos os dentes têm sua hora de cair. E eu quero que meu dente caia na hora DELE".

Mais uma lição (re)aprendida com minha pequena. Tudo tem mesmo sua hora. Como os superbebês, que têm a hora certa de aprender a voar, e os dentes, que têm a hora certa de cair. Só queria entender porque insistimos tanto em acelerar os processos, e querer que o que não está em sua hora aconteça. Pffff!!! Às vezes fico cansada disso!

Continuo num processo de recomeço, esperando que os posts aconteçam no tempo DELES! rsrs

23 fevereiro 2013

Para todo dia...

Um livro para todos os dias
texto: Isabel Minhós Martins
ilustrações: Bernardo Carvalho
editora: Planeta Tangerina

Como dizia no final do último post (e lá se vão mais de 20 dias), o começo de 2013 foi bem estranho. E sobrecarregado. Mas não necessariamente ruim - o que não o deixa menos estranho. E daí que eu acabei sumindo daqui, às vezes por falta de tempo, às vezes por falta de saco e às vezes por falta de inspiração. Mau de todo blogueiro, eu acho... Foram tantas coisas nestes 53 dias, incluindo doença de marido, planejamento a jato de uma viagem marcada na loucura, muuuuito trabalho, escola nova da filha, 15 dias viajando no frio, filha doente, eu doente e mais trabalho. Ufa! Esse pobre bloguinho acabou mesmo esquecido...

Mas estou retornando minha atividades normais, porque adoro escrever aqui, adoro falar sobre livros infantis, e porque a vida é assim mesmo, cheia de idas e vindas, de momentos bons e outros nem tanto, e de sacos e inspirações que vão e voltam. Agora estou tão cansada, minha casa mantem um ar meio caótico em meio a roupas de frio e botas que preciso devolver aos donos, coisinhas adquiridas durante a viagem que precisam encontrar seu lugar e outras coisas que não sei exatamente porque estão nesse bolo... afffff Aliás, minha casa ainda está com "cara de 2012", já que ainda não fiz o famoso faxinão de início de ano (onde jogo tranqueiras fora e arrumo papéis, contas, documentos, etc). E estou cheia de pendências para resolver, enquanto confiro a temperatura da filha a cada hora...

Mas também tenho fotos deliciosas para separar, lembranças doces e saudades suaves da nossa viagem. Também há as novidades de uma filha que perdeu seu primeiro dente de leite e agora é aluna do Ensino Fundamental, numa escola nova e grande, com direito a estréias como aula de inglês e natação. Ah, e há as atrapalhações de uma mãe que pela primeira vez na vida está montando lancheira. Enfim, os últimos dias, além de movimentados, me lembraram que a vida é mesmo cheia de pequenas e grandes surpresas, e cada dia tem sua própria dinâmica. Há dias para cansar e dias para descansar, dias para lembrar e dias para esquecer, dias para calar e dia para falar.

Foi pensando em tudo isso que lembrei de Um livro para todos os dias, que adquiri na livraria Cabeçudos, em Lisboa. Minha admiração por Isabel Minhós e Bernardo Carvalho (os mesmos de Coração de Mãe e Pê de Pai) não é de hoje. Mas Um livro para todos os dias superou minhas expectativas. A receita da dupla se repete: menos cores, menos tamanho, menos texto, e muito mais significados, enquanto o pequeno livro de 17cm apresenta os vários tipos de dias que podemos ter.

Porque "há dias tão grandes que parecem um mês inteiro. Há dias que passam num abrir e fechar de olhos." E "há dias simples. Há dias, meu Deus, que são uma consusão." "Há dias quase vazios e dias que mudam as nossas vidas." Aquele livro para ler naquele dia meio triste, ou no dia muito alegre. Para ler no dia estranho e no dia normal. Para ler no dia corrido mas principalmente no dia muito calmo. O importante é acreditar que "melhores dias hão de vir"

31 janeiro 2013

Soltando pum...

Quem soltou o Pum?
textos: Blandina Franco
ilustrações: José Carlos Lollo
editora: Companhia das Letrinhas 

Soltei o Pum na escola!
textos: Blandina Franco
ilustrações: José Carlos Lollo
editora: Companhia das Letrinhas 

O Pum anda fazendo tanto sucesso, que deve ser novidade para muito poucos a existência desses dois títulos editados pela Companhia das Letrinhas. Não é para menos, pum, cocô, xixi e outros temas escatológicos têm mesmo lugar de destaque para chamar atenção e provocar risadas entre os menores. E a dupla (a mesma de A menina que falava bordado) Blandina Franco e José Carlos Lollo soube explorar muito bem esse tema.

Pum é um cachorro (embora isso não seja dito explicitamente em momento algum) que detesta ficar preso, e está sempre dando um jeito de escapar. Ah, mas quando escapa sempre causa confusão. O seu dono acaba sempre levando bronca dos adultos, porque adulto não gosta de pum solto - menos a tia Clotilde, que solta o pum em todo lugar. Já deu para perceber como o livro é divertido e agrada em cheio as crianças, né?



Depois de Quem soltou o Pum? foi lançado Soltei o pum na escola! quando o menino leva seu cachorrinho para o Mês dos Animais na sua escola. Nem preciso dizer que o Pum escapou lá também gerando uma grande confusão. Até a diretora deixou o Pum escapar no meio do pátio e todo mundo morreu de rir! Mas ela e a tia Clotilde (lembra da tia Clotilde?) se deram super bem, e só falavam como o Pum é legal. O que mais gostei foi do final deste segundo livro, quando o menino descobre que o papai também tem medo de levar bronca da mamãe quando deixa o Pum escapar (algo familiar...). Ora, ele achava que adultos podiam soltar o Pum quando quisessem.

Ah, Quem soltou o Pum? foi o primeiro e-book da Companhia das Letrinhas, e posso dizer que foi uma ótima escolha... Para terminar queria deixar esse videozinho do lançamento do livro... genial!

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=3zOxzTlQTzE

sorry! Sabe-se lá porque cargas d'água, não consegui anexar o vídeo pelo youtube...

PS: Esse começo de ano tem sido estranho, muito estranho, e sobrecarregado. Tenho mil posts na cabeça, e 2 mil planos para o novo lay... mas teremos que esperar, todos. Pelo menos até depois do carnaval, quando volto de viagem. Esperem... Confiem... eu volto, ah se volto...

bjs carnavalescos...

19 janeiro 2013

Um ano novo mafaldiano para todos nós!




Toda Mafalda
textos e ilustrações: Quino
Vários tradutores
Editora: Martins Fontes

Mafalda é uma menininha de 7 anos que encanta o mundo há quase meio século. Quino, famoso desenhista argentino, lhe deu vida em 1963, embora sua primeira tirinha tenha sido publicada apenas em setembro de 1964. A última veio em 1973 - em 1977 ela ilustrou a "Declaração dos Direitos da Criança" - e apesar dos 40 anos sem tirinhas novas, Mafalda continua atual como sempre. 

Esta tirinha não permanece absolutamente atual - se trocarmos Japan por China?

Questionadora, inquieta, às vezes engraçada, às vezes pessimista, e quase sempre irônica, Mafalda parece não se encaixar nos padrões que a sociedade criou, e tem sempre um olhar contestador em relação ao mundo. Conheci Mafalda na infância, numa época em que devorava ferozmente histórias em quadrinho. Lembro de ter perguntado ao meu pai porque as tirinhas dela eram tão "diferentes" - acostumada com as histórias da turma da Mônica e do Pato Donald, me soou estranho os questionamentos de Mafalda... mas o fato é que logo estava apaixonada pela jeito "mafaldiano" de ver as coisas do mundo. Porque a guerra? Porque a desigualdade social? Porque ter que tomar sopa? Porque tantas regras? Porque os adultos são tão tolos e chatos? Taí respostas que eu também queria ter...

Adoro quando ela conversa ou refere-se ao globo terrestre... pobre planeta terra. Mas também adoro quando ela simplesmente olha as coisas que insistimos em complicar com a simplicidade tão típica da infância. Ou quando critica ou ridiculariza alguma convenção ou regra "adulta", e como tenta driblar os pais - e muitas vezes consegue. Adoro Mafalda, em suas várias facetas!

E não é que ela está certa?

Ultimamente tenho me identificado totalmente com a sequencia de tirinhas em que ela deseja desesperadamente uma tv em casa, e o pai é contra a ideia... mas no final acaba cedendo. Ah, mas Mafalda não demora muito para perceber que não estava perdendo muito... Queria tanto livrar-me definitivamente da tv aqui em casa, me pego tantas vezes angustiada com a quantidade de tv que minha filha assiste... pffff...



Mas pensei em escrever este post há algumas semanas, quando logo depois de comprar minha agenda 2013 uma amiga postou uma foto da sua no facebook - ambas da Mafalda. Ano passado havia visto umas agendas de Mafalda na livraria, mas como ganhei uma lindona de um parceiro profissional, me contive. Para este ano decidi, compraria uma agenda da Mafalda, e encontrei opções até mais interessantes: uma agenda/calendário de mesa, em espiral e com uma página, e tirinha, por dia. E o melhor, em português!

A minha é amarela e repousa imperiosa sobre minha mesa de trabalho!

Aí lembrei do meu adorado livrão Toda Mafalda, que contem TODAS as tirinhas de Mafalda, destes quase 10 anos em que foram publicadas, e em português. Adoro, leio sempre, e agora minha filha também está se interessando. Achei que seria uma boa forma de começar 2013 (já terminando a segunda terça parte do seu primeiro mês!!!) aqui no Cachinhos, e dizer o quanto eu desejo um ano cheio de questionamentos e de possibilidades de repensar o que parece imutável. Um ano assim... mafaldiano para todos nós!



Obs: Sabia que Mafalda surgiu por uma encomenda à Quino para criar uma tira cômica que servisse de publicidade "disfarçada" para uma firma de eletrodomésticos? Mas o cliente da agência recusou o plano da campanha... ufaaa, sorte nossa...

10 dezembro 2012

Afinal, de quê e de quanto precisamos?

Uma girafa e tanto
texto e ilustrações: Shel Silverstein
editora: Cosac Naify

O fim do ano vem chegando (e o fim do mundo também...) e entre confraternizações, decorações de natal, engarrafamentos e compras de presentes, surge um clima de balanço e de planejamento no ar. O que foi bom no ano que finda? O que não foi bom servirá de lição ou simplesmente vamos preferir esquecer? O que esperamos de 2013? Quais nossas metas, objetivos? Como planejamos alcançá-los? Nunca consigo cumprir a contento minha listinha de ano novo, mas sempre a faço na minha cabeça. Gosto do cheirinho de ano novo, de agenda em branco, de página esperando ser escrita.

Este ano, fazendo meu balanço e minha listinha mental, me dei conta do quanto a vida anda acelerada. Entramos de vez na era digital, quando todos precisam estar o tempo todo conectados. Estamos criando uma tal galerinha Z de dedinhos rápidos e ávidos por novidades. Nunca antes as pessoas se relacionaram com tantas outras pessoas, e nunca com tanta superficialidade. Nas redes sociais e na TV, todos querem seus 15 minutinhos de fama, todos têm algo a dizer, todos têm pressa para dizer... e para esquecer. É a era do descartável, da fama meteórica, das relações meteóricas, do consumo meteórico.

Lembro dos natais da minha infância, quando as famílias (pelo menos as que eu tinha contato) enfeitavam suas casas com uma árvore de natal, um presépio (as religiosas), uma toalha de mesa natalina e no máximo uma guirlanda na porta. E toda decoração durava vários natais, repetindo-se ano após ano. A lista de presentes geralmente tinha o tamanho do número de membros da casa multiplicado por 2 - por conta dos presentes de amigo secreto. Hoje, olho ao redor e vejo que as coisas mudaram bastantes, na nossa sociedade e no natal, e basta uma volta no shopping para confirmar isso. Em muitas casas, a decoração de natal precisa estar presente em todos os cômodos, e valha-me Deus se alguém passar na rua e não vir sua varanda com luzinhas piscando. As decorações não se repetem de uma ano para o outro, pelo menos não na íntegra... As listas de presentes são gigantescas, todos precisam ser presenteados para que se sintam amados - repete explicita ou implicitamente a publicidade do shopping center, da loja de cosmético e até da marca de bebidas. E aí vale quase tudo, não importando muito se será útil, adequado ou bem recebido. A variedade de opções é impressionante, para todos os bolsos e calendários. E na maioria das vezes o ano novo começa com a decisão do que fazer com os presentes ganhos no natal - tarefa nem sempre fácil.

E nesta alucinante "vida moderna" uma pergunta insisti em aparecer: Afinal, de quê e de quanto precisamos? Tenho me feito essa pergunta muitas vezes nos últimos anos. O tamanho do meu "apertamento" me obrigou a este questionamento quando percebi que precisava fazer limpezas periódicas das coisas que possuímos em casa - ou teríamos que sair de casa para acomodar tudo. Pelo menos duas vezes ao ano temos separado montes de roupas, sapatos, brinquedos, bolsas, itens de cozinha e etc para doação... porque já não nos servem mais, porque compramos um novo ou simplesmente porque enjoamos. Outra montanha de papéis vai para a reciclagem (alguém sabe como papel prolifera???), além das tranqueiras que terminam mesmo no lixo. A regra é que os armários, prateleiras e cômodos não podem ficar entulhados. Tudo precisa estar visível e a mão. Porque se está escondido e de difícil acesso... acaba não sendo usado, às vezes sequer lembrado. E aí, na contramão do que nos dizem diariamente as campanhas  publicitárias, começamos a investir nos Rs: repensar, reduzir, reciclar, reaproveitar, recusar... ultimamente tem sido o repensar e o recusar os mais usados aqui em casa - antes de comprar qualquer coisa: Repensar, e se for o caso: Recusar.

Um movimento lento, mas que tem causado uma revolução na vida da minha família. É interessante perceber, por exemplo, que temos ido ao shopping com muito menos frequência do que antes, inclusive quando o objetivo não é comprar, preferindo restaurantes e cinemas "de rua". Com cada vez menos frequência tenho comprado "por impulso" e o fato de não zapear mais pelas lojas para "conhecer as novidades" tem contribuído muito para isso. Fiz boa parte das minhas compras de natal pela internet, com uma listinha muito bem definida nas mãos - como os presentes são invariavelmente livros e os presenteados crianças, já acesso os sites sabendo exatamente o quê vou comprar. Parece muito pouco, mas as mudanças são visíveis na quantidade de tranqueiras que conseguimos reduzir em casa.

Um estilo de vida mais minimalista realmente tem me atraído, e passar isso para minha filha tem sido um desejo constante. Por isso foi maravilhoso descobrir, há alguns meses, Uma Girafa e Tanto, do genial Shel Silverstein. A história, pra lá de nonsense, conta como um menino começa a alterar sua girafa para transformá-la em uma girafa e tanto! Chapéu com rato, rosa no nariz, uma cadeira como pente, e mais um monte de maluquices, que no final... só conseguem descaracterizar a pobre girafa, que virou... sei lá o quê. Mas eis que, assim, carregando um monte de apetrechos, a girafa acaba por cair no buraco do tatu, e é então que torna-se possível perceber que, na verdade, ela não precisa de nada daquilo. E se o menino começasse a procurar para aqueles objetos usos melhores que os usos esdrúxulos dados até então? E se a cadeira for dada a um urso, a rosa a uma pessoa amada, e o rato simplesmente for embora com o chapéu? Aí, meus caros, esse menino terá o que sempre teve e desejou: uma girafa de verdade.

O livro é todo em preto e branco, da capa às folhas internas, ilustrado pelo traço inconfundível de Shel Silverstein, o que, convenhamos, não o torna dos mais atraentes. Mas não se engane, ele é surpreendente, e é uma ótima e divertida forma de conversar com as crianças sobre o que é essencial e o que é supérfluo, o que é consumo e o que é consumismo. Não quero ser a dona da verdade, longe de mim, mas devo confessar para vocês: verdadeiramente entender que é possível viver com menos e ser mais feliz tem trazido muito mais felicidade ao meu lar.

20 novembro 2012

Sobre quem vamos falar no dia da Consciência Negra?

Pretinha de Neve e os Sete Gigantes
texto e ilustrações: Rubem Filho
editora: Paulinas

Imagino que os que me conhecem há mais tempo estranhem que uma versão politicamente correta de um clássico infantil chegue aqui ao Cachinhos. Quando a onda do "politicamente correto" chegou até mim, rapidamente me posicionei contra ela. Porque... ora, porque era chata demais. Não poder cantar as cantigas de roda do jeito que eu, e várias gerações antes de mim, cantaram, é chato demais! Não poder usar uma expressão, e ainda substituí-la por outra que “assassina o português", mais que chato é constrangedor!

Pior é quando o "politicamente correto" chega à literatura infantil. Mexer nas histórias clássicas, transformar lobo mau em lobo bom, acabar conflitos e tornar princesas e madrastas amigas, dentre outras coisas, torna tudo descaracterizado e... chato. Além disso, a infância precisa ter acesso a conflitos, desafios e seres temíveis de uma posição segura para compreender melhor sua realidade e o mundo em que vive, e assim amadurecer. Um final feliz depois de todas as intempéries da história é libertador não apenas para as crianças.

Mas enquanto criticava e acusava de chata tanta patrulha, a danada da minha cabeça insistia em me fazer pensar (que chato!). Fui refletindo sobre a importância de se parar para reavaliar o "modus operandi" para que o mundo e nossas sociedades possam evoluir. Bom, eu só não queria ser A chata que faz isso, mas comecei a admirar bastante quem tem peito para ser tão chato assim - recentemente encontrei nesse texto uma ilustração do que minha cabeça fervilhava.

E foi então que cheguei ao maravilhoso e perturbador texto de Ana Maria Gonçalves sobre a polêmica em torno de Monteiro Lobato e do seu livro Caçadas de Pedrinho. Na época eu estava investigando para tentar entender melhor o caso: em resumo, estava sendo questionada a adequação à legislação antirracista deste livro, escolhido para ser distribuído nas escolas públicas de Ensino Fundamental, e caso não houvesse adequação, solicitado que o mesmo fosse recolhido*. Grande polêmica se deu a partir daí. Anônimos e famosos posicionavam-se contra o absurdo de querer censurar o maior escritor para crianças do Brasil, e chamar de racista um homem que viveu em uma época em que chamar um negro de urubu era algo absolutamente aceitável. Afinal, quantos “homens e mulheres de bem” haviam tido acesso a este livro na infância?

Mas o texto de Ana Maria Gonçalves foi além da falácia corriqueira, e me fez pela primeira vez ver realmente a questão do “politicamente correto” com outros olhos. O questionamento inquieto que ela lança é: afinal de contas, de quem estamos falando??? Trata-se de uma caça às bruxas em cima de Monteiro Lobato? Não, não é esta a questão. Lobato era indiscutivelmente racista e defensor da eugenia, e digo isso não baseada em suas obras, mas em trechos de cartas suas trocadas dentre outros com o médico Renato Kehl que no Brasil propagava a superioridade racial (um trechinho para ilustrar: “um dia se fará justiça ao Ku Klux Klan; tivéssemos uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar... porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva” – trecho de carta a Arthur Neiva retirado daqui). Mas, lamento, não é de Lobato que devemos falar. Sua obra é de qualidade indiscutível, assim como seu talento literário e o legado que ele deixou para a literatura infantil brasileira. Mesmo sabendo que na mesma época em que ele viveu, viveram homens que lutaram pela igualdade racial, não é dele que esta polêmica trata. Questionar o uso de Caçadas de Pedrinho por alunos da nossa rede pública de ensino fundamental não é um simples ato de afronta ao racista Monteiro Lobato.

Tampouco esta polêmica trata de mim ou de você, caro leitor (a não ser que alguma criança negra estudante de escola pública esteja lendo este texto – o que me deixaria orgulhosíssima). Lamento, “homens e mulheres de bem”, independente da cor da sua pele, não é de você que devemos falar. Quem questionou a adequação do livro à legislação antirracial falava das milhares de crianças negras brasileiras, estudantes de escolas públicas, tendo que conviver na sala de aula com expressões racistas. Recomendo que leiam na íntegra o texto de Ana Maria, mas vou copiar um trecho deste aqui por minha absoluta incapacidade de reproduzir bem, de outra forma, suas palavras:

“Peço agora que você faça um exercício: imagine uma criança na sala de aula das escolas públicas de ensino médio e fundamental no Brasil. Negra. Sei que não deve ser fácil colocar-se sob a pele de uma criança negra, por isso penso em alternativas. Tente se colocar sob a pele de uma criança judia numa sala de aula na Alemanha dos anos 30 e ouça, por exemplo, comentários preconceituosos em relação aos judeus... Ou então, ponha-se no lugar de uma criança com necessidades especiais e ouça comentários alusivos ao seu "defeito"... Talvez agora você já consiga sentir na pele o que significa ser essa criança negra e perceber a carga histórica dessas palavras sendo arrastada desde séculos passados: "macaca de carvão", "carne preta" ou "urubu fedorento", tudo lá, em Caçadas de Pedrinho, onde "negra" também é vocativo. Sim, sei que "não se fala mais assim", que "os tempos eram outros". Mas sim, também sei que as palavras andam cheias de significados, impregnadas das maldades que já cometeram, como lâminas que conservam o corte por estarem sempre ali, arrancando casca sobre casca de uma ferida que nunca acaba de cicatrizar.

Fique um pouco de tempo lá, no lugar dessa criança, e tente entender como ela se sente. Herdeira dessa ferida da qual ela vai ter que aprender a tomar conta e passar adiante, como antes tinham feito seus pais, avós, bisavós e tataravós, de quem ela também herdou os lábios grossos, o cabelo crespo, o nariz achatado, a pele escura.”

Percebem o quanto é fácil e vago falar do racismo enquanto alguém que não sofre nem dissemina o racismo? Como dizer se “macaca de carvão” é ou não uma expressão adequada para crianças se você não é uma criança negra em uma sala de aula provavelmente cheia de crianças brancas? Enquanto não aprendermos a nos colocar no lugar do outro, enquanto não sairmos da posição de centro das atenções, muito pouco irá mudar. E enquanto isso, e considerando que trata-se de crianças, não seria mais prudente pecar pelo zelo?

Poderia falar muito mais sobre isso, mas prefiro contar um fato pessoal para ilustrar a questão: há alguns meses li uma notícia na internet que dizia que o SBT tinha sido obrigado pelo Ministério Público a trocar a expressão “seu negro” por “seu sujo” usada pela personagem Maria Joaquina em relação à personagem Cirilo, na novela Carrossel. Lembro de ter visto uma cena em que a expressão foi usada e termos comentado, eu e meu marido, como “seu sujo” parecia muito mais depreciativo a um negro, e que seria preferível ser usado simplesmente negro. Uns dois meses depois minha filha chegou da escola perguntando, visivelmente surpresa, se nós sabíamos o porquê de Maria Joaquina maltratar Cirilo. Meio assustados dissemos que não e ela respondeu “porque ele é negro, mamãe! Porque ele é NEGRO, você acredita?!?!”. Para nossa surpresa, nem ela nem os seus coleguinhas de sala, mesmo depois de assistir episódios da trama, tinham percebido que o tratamento que o menino negro recebia da menina branca referia-se a cor da sua pele. Foi preciso um adulto chamar a atenção de uma das crianças, e esta a atenção das demais, para que eles percebessem "o óbvio". Se a expressão “seu negro” estivesse sendo usada não teriam eles internalizado a questão sozinhos e muito mais rápido?

Diferente do que possa parecer, o preconceito não é inerente aos humanos. Preconceito se aprende, se ensina – em frases despretensiosas, em olhares maldosos, em gestos não contidos... e não sejamos ingênuos, está em mim, em você, inclusive na criança que já teve contato com ele. Precisamos de uma revolução muito maior e dolorosa para construir um mundo mais igualitário do que simplesmente parar de trabalhar no dia 20 de novembro...

Em relação a Pretinha de Neve e os Sete Gigantes, trata-se de uma divertida reconstrução do clássico infantil. A cor da pele da protagonista e a estatura dos seus sete amigos não é a única alteração em relação ao texto original. Esta versão acontece na África, no alto do Kilimanjaro, onde também neva. Não há madrasta, mas padrasto, que apesar de ausente e cruel, não tem poderes maléficos, nem quer matar a enteada. O espelho mágico foi substituído por um caldeirão que também fala, e Pretinha vai para a floresta sozinha e por sua vontade – e sem o consentimento de adultos. O grande vilão da história é mesmo a pouca atenção que os pais dão à menina, sempre envolvidos que estão com suas próprias atividades – quer conflito mais atual que este?


* Recentemente um requerimento similar foi encaminhado a CGU em relação ao livro Negrinha, também de Monteiro Lobato, comprado para distribuição nas escolas públicas de Ensino Médio (também pelo PNBE – Programa Nacional de Bibliotecas nas Escolas) - notícia aqui. Para conhecer o parecer do MEC sobre Caçadas de Pedrinho veja aqui. Mais informações aqui e aqui.

17 novembro 2012

E quem tem medo do Rato Mau???

O filho do Grúfalo
texto: Júlia 
ilustrações: Axel Scheffr
editora: Brinque-Book

Postagem rapidinha só para falar que O Filho do Grúfalo é mesmo uma excelente continuação de O Grúfalo. Sim, achei importante dizer, já que continuações de livros infantis (e livros de outras categorias, e filmes, e peças teatrais, e discos...) nem sempre conseguem acompanhar o talento e bom gosto do primeiro. Mais que isso, queria dizer que trata-se realmente de uma continuação, e não apenas de uma outra história sobre o mesmo tema. Desta vez, o filho do Grúfalo decide aventurar-se na floresta mesmo contra a proibição de seu pai, que teme o terrível Rato Mau, que ele conheceu anos atrás. Da mesma forma que o ratinho no primeiro livro criou o temível Grúfalo, é o Grúfalo quem agora cria o temível Rato Mau, baseado nas suas lembranças - lembranças cheias de medo e temor. E o pequeno Grúfalo, cheio de coragem, parte em busca do tal Rato Mau. Tudo bem, o ratinho é esperto, e mesmo não sendo terrível nem temível, mais uma vez consegue enganar um Grúfalo.

Chegou pela ciranda de livros da escola da filha há algumas semanas, e hoje o Disney Júnior passou os dois filmes que recontam os dois livros. Delícia!